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  1. Como têm acompanhado nas notícias, no dia 14 de Fevereiro passado, dia de S. Valentim, houve um atentado numa escola secundária nos EUA. Não foi muito diferente dos atentados que têm acontecido ao longo dos últimos anos e não julgo que seja o último. Há, no entanto, uma pequena diferença na reacção: os alunos desta escola decidiram organizar um movimento de protesto nacional para exigir que o acesso a armas seja controlado de forma diferente. Para o dia 24 de Março, está a ser planeada uma marcha em Washington, que irá mobilizar os alunos das escolas americanas. Veremos se o momentum deste movimento terá pernas para andar, .

    Se querem explorar os contornos do direito a porte de armas, sugiro-vos que escutem . Esse episódio discute o caso de um rapaz que levou uma arma de imitação para uma escola na Louisiana. A imitação era tão boa que, segundo um dos polícias entrevistados -- uma pessoa experiente em armas, portanto --, demora uns três minutos a manusear a peça para nos apercebermos que não é verdadeira. A polícia acha que permitir armas de brincar nas escolas é um risco, pois um polícia pode acidentalmente matar alguém que as leve. A organização NRA (National Rifle Association) é contra legislação que proíba o porte de armas de brincar nas escolas.

  2. Na Quarta-feira, recebi o tal e-mail da Autoridade Tributária a mandar-me limpar a mata. Ora, eu não vivo em Portugal, nem sequer tenho terrenos, logo a única mata que eu poderia limpar não diz respeito à Autoridade Tributária, nem ao governo português. Piadas à parte, este e-mail é capaz de ter sido uma das coisas mais interessantes feitas por este governo porque revela a falta de capacidade governativa. Ficámos a saber que o governo não tem uma lista de pessoas que sejam donas de propriedades, nem sequer tem capacidade para realizar uma campanha adequada a cada região do país. Será que as pessoas que vivem em Lisboa deviam receber as mesmas instruções que quem vive numa zona rural?

    Outra coisa que nos "disseram" é que a Autoridade Tributária é a entidade responsável por comunicar aos cidadãos a política de gestão do território, isto para além da administração regular do passatempo "Factura da Sorte". Para quando a criação de um programa televisivo na RTP? Sugiro algo estilo um talk show com passatempos e sorteios em directo.

    Note-se que há quem tenha terrenos e, quando recebeu o e-mail, assobiou para o lado. Diz que é muito caro mandar limpar os terrenos; se o governo estiver muito incomodado, que fique com os terrenos. Ora, isto parece-se o enviesamento "aversão à perda": não querem gastar o dinheiro a limpar, nem querem vender o terreno e livrarem-se da responsabilidade. Sugiro que alguém do governo contacte a Sandra Maximiano, que agora até reside em Portugal, para estudar uma política de incentivos adequada para tratar deste problema antes que morram mais pessoas queimadas.

  3. Finalmente, o meu último ponto tem a ver com a economia. Instalou-se em Portugal uma atitude de viúva alegre em que se pensa que a situação favorável da economia mundial irá durar indefinidamente. Nesta altura, Portugal já devia ter pelo menos dois anos de margem acumulada para lidar com situações adversas. Note-se que quando a economia entrar em recessão, o governo terá de implementar uma política expansionista para absorver parte da quebra na actividade económica.

    Em vez disso, observamos que durante o pico do ciclo económico, i.e., agora, o governo é incapaz de fazer face às responsabilidades básicas do estado: não tem recursos para lidar com a administração do território; assiste-se a uma deterioração do sistema de saúde; a banca continua com problemas não resolvidos; não há folga para dar aumentos salariais em 2019 mesmo pressupondo um bom desempenho da economia; na educação, é comum o atraso no pagamento de bolsas e o financiamento de projectos depende mais de fundos europeus, etc.

    Alguém acredita que o tempo das recessões acabou?






 Numa iniciativa inédita em território nacional e, tanto quanto foi possível apurar, também além-fronteiras, a Associação Cívica e Cultural Os Manhões, da vila de Manhões de c., inaugura hoje um LCD comunitário, sito no edifício da antiga escola primária, entretanto desactivada dada a vontade das crianças locais de pôr em prática pelo menos uma parte do ditado deitar cedo e cedo erguer, a saber, a segunda, ou seja, cedo erguer.
Crianças e progenitores esperam deste modo que as primeiras venham a ter saúde, já que foi igualmente encerrado o posto médico da vila, e crescer. Este desejo de crescimento, dizem, não deriva de uma qualquer motivação individualista, permitindo este previsto acréscimo de palmos a uns enveredar pela carreira de modelo e a outros optar pela indústria aeronáutica. Trata-se, antes, da concretização de um ideal desinteressado, o de contribuir para a robustez da economia da nação, precisamente fornecendo à contabilidade nativa uma parcela mais. Neste anelo ufanista juntam-se conservadores e liberais, direita católica e esquerda marxista-leninista, e até mesmo a delegação local da Internacional Anarquista, na pessoa do pasteleiro do município. Há quem diga que neste se inspirou um célebre cineasta italiano de quem se aguarda ainda o retrato desta que é uma figura única, qualitativamente mas também quantitativamente, já que o pasteleiro anarquista manhosense não se parece com mais ninguém e não há mais nenhum anarquista, e mais nenhum pasteleiro, na vila. Aqueles que, da direita à esquerda, da ala conservadora à ala liberal, aceitam ingurgitar as madalenas e as filhoses, os pastéis de nata e as bolas de Berlim, as fatias de bolo de bolacha e as lampreias de ovos que diariamente tentam manhosenses de todas as idades, afirmam conseguir separar a dimensão anarquista, portanto política, do artífice e suas criações, da dimensão profissional, portanto apolítica, do visionário e suas facções. Já os que rejeitam deglutir jesuítas e queques, pastéis de massa folhada e fatias de tarte de maçã, rolo de chocolate e húngaros, entendem ser impossível essa separação e estar em risco a sanidade cívica de quem se deixe cair num ardil destinado à assimilação através da sacarose de princípios incompatíveis com a ordem e a segurança públicas. Serão servidos bolinhos de coco e de amêndoa durante a cerimónia de inauguração aqui noticiada.







O Diário de Notíciasde hoje dá relevo, na primeira página, a uma frase que António Guterres terá proferido ontem, por altura do seu doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa: que os alunos devem aprender a aprender e não a “marrar nas sebentas” (referia-se, certamente, às suas lembranças de estudante). 


Aprender a aprender: deve ser esse o desiderato de um processo educativo, sobretudo nos novos tempos, nos quais ninguém pode fazer previsões certeiras a cerca do futuro, mesmo em prazos curtos. À medida que fui crescendo como professor interiorizei essa necessidade, que casa perfeitamente com a flexibilização curricular que defendo. É evidente que a operacionalização de uma aprendizagem para a aprendizagem é diferente para grupos etários distintos, e dentro destes para os próprios aprendentes (termo que não é muito do meu agrado, mas que existe). 

O último projecto de investigação que coordenei (na sua fase inicial) no Centro da Universidade do Minho a que pertencia antes da minha jubilação tinha como título “Avaliação das Competências do Aprender a Aprender”.

António Guterres não é um pedagogo, e não precisaria de invocá-lo como autoridade para reforço do que penso; mas é sempre bom ver que somos acompanhados por pessoas inteligentes e com experiência de vida que lhes permite ter do futuro uma visão diferente.  








Foi numa Quarta-feira, que, num ímpeto do momento, telefonei à J. para saber se queria ir jantar fora, mas não a apanhei a tempo: estava cansada depois de um belo dia a jogar golfe, coisa que já sentia falta dado o inverno menos ameno que este ano temos tido em Houston. Combinámos para o dia seguinte e fui até casa dela, ao fundo da rua, buscá-la à porta. É raro a J. atrasar-se e, frequentemente, está pronta alguns minutos antes. 

Saí do meu carro, que tinha há menos de duas semanas, e ela ao vê-lo pela primeira vez imediatamente o admirou. Como tínhamos combinado, entrámos em casa da J. durante alguns minutos para conversar e beber um copo de vinho tinto, o que ela faz todos os dias, religiosamente, às 17h30m. Quando saímos, abri-lhe a porta do carro para entrar e liguei o aquecimento do banco dela na temperatura mínima para a não magoar — aos 92 anos, a pele da J. é frágil e ela toma medicamentos para controlar a espessura do sangue. Depois de, na última vez que visitou a minha casa, o meu cão lhe ter dado algumas nódoas negras só porque a cumprimentou, tento ser mais cuidadosa. 

Normalmente, a J. gosta de frequentar os restaurantes mais perto de casa, mas eu estava mais inclinada para irmos ao O’Porto Café, um pequeno bistro que serve pratos inspirados em cozinha portuguesa, italiana, e espanhola — é uma bocado fusão mediterrânea, apesar de Portugal não ficar no lado do Mediterrâneo, mas sim do Atlântico. O chefe, no entanto, é filho de um italiano e de uma portuguesa ou talvez seja ao contrário... 

Gosto de ir a este restaurante. Foi um dos primeiros em Houston que comecei a frequentar quando me mudei para cá, mas uma vez tive uma conversa com uma outra portuguesa que aqui vivia que me dizia que o bacalhau à Brás que era servido lá não era bom: o grande defeito é que não sabia ao bacalhau à Brás que ela fazia em casa. 

Achei uma crítica estranha porque, quando vou a Portugal, é raro qualquer prato saber ao que nós fazemos em casa, logo para mim é um critério meio-esquisito. Aliás, se eu quisesse que soubesse ao que faço em casa, fazia em casa, não ia comer fora... Mesmo o conceito de saber ao que se faz em casa é ilusório. Uma das minhas melhores amigas em Portugal tinha mãe goesa e muitos dos pratos que ela fazia sabiam a cominhos, o que eu adorava porque, na minha casa, quase nunca se cozinhava com cominhos, ou seja, cada casa tem o seu sabor.

Fomos pela Bissonett e a J., que ainda conduz, ficou feliz por não ter de passar pela via rápida que a assusta um bocado. Note-se que, ainda no ano passado, a J. foi a Austin de autocarro sozinha — mais de duas horas de viagem —, logo diverte-me pensar que uma via rápida dentro da cidade lhe causa ansiedade. Antes de chegarmos ao cruzamento da Wesleyan com a Richmond, entrei no parque de estacionamento e fui censurada pela minha companheira, que pensava que eu estava a tentar fugir ao semáforo, mas disse-lhe que tínhamos chegado ao strip mall onde ficava o restaurante. 

A minha mesa preferida fica junto à janela e nesse dia encontrava-se reservada. Duas mesas de jantar estavam livres: uma a meio do restaurante, outra mais para o interior. Escolhi a que ficava mais longe porque na mesa ao lado estava sentado um casal de pessoas mais velhas, o que achei encantador, pois gosto de observar pessoas: people-watching é um passatempo tipicamente americano!

Coube-me escolher o que comer e bebemos água porque já tínhamos tratado do vinho. Como os pratos são mais estilo tapas, achámos melhor partilhar várias coisas. Um dos pratos que escolhi foi pastéis de bacalhau, que são servidos com uma tacinha com molho picante. O molho não é tradicional, nem a J. gosta de picante, mas os pastéis não são maus de todo e ela apreciou-os bastante. Também impressionaram os nossos vizinhos do lado, o tal casal idoso, o suficiente para nos perguntarem o que era: eu respondi e a J., triunfante, explicou que eu era de Portugal e os pastéis de bacalhau eram uma comida tradicional portuguesa. 

Também petiscámos um queijo de cabra e, no todo, passámos uma noite bastante agradável. Para o final, o homem do casal ao lado disse à J., à frente da companheira, “You’re beautiful!” A J. agradeceu e ele acrescentou que ela tinha qualquer coisa que reluzia. Depois trocaram idades: eles tinham à volta de 87 e a J., com os seus 92, sentiu-se gloriosa: eram uns jovens, dizia amavelmente. Despedimo-nos e regressámos a casa ambas contentes.


Nessa noite, pensei no #metoo: num futuro próximo, será possível dizer a uma pessoa desconhecida “You’re beautiful!” sem que se seja acusado de assédio?









Há uns dias, deu-me para andar a procurar vídeos da Marlene Dietrich e acabei por ver este filme dela: The Monte Carlo Story (1957), que está completo no YouTube. Já não me recordo o que causou tal busca, mas decerto que foi um ataque de procrastinação. (Eu sei, eu sei, tenho andado ausente, mas escrevo-vos posts na minha cabeça todos os dias -- só não os chego a publicar... My bad!)

Pronto, vou deixar-vos outra coisa gira: . RBG, como é conhecida, tem 85 anos e está fresca que nem uma alface...






Ontem à tarde, nas notícias dos EUA, enquanto se tentava enquadrar a queda do mercado accionista, que chegou a estar 10% abaixo do máximo histórico, o que faz das quedas da semana passada e desta uma correcção e não apenas uma flutuação, a grande pergunta que se fazia era se o governo federal americano iria fechar outra vez à meia-noite. No All Things Considered, da NPR, entrevistavam-se membros do Congresso do lado dos Democratas e do lado dos Republicanos, num jogo de passa-a-culpa.

, dizia que não compreendia como é que os Republicanos, que detêm a Casa Branca e maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, não conseguem passar uma lei de despesa (spending bill). Se eles -- Republicanos-- passaram os cortes de impostos sem os Democratas, o que é que os impede de governar e passar agora esta lei? E rematava: se não conseguem convencer os próprios Republicanos, não contem com os Democratas. Quem presta atenção à coisa, compreende que este argumento era uma crítica indirecta ao Vice-Presidente Pence que culpou o último fecho do governo federal numa "minoria de Democratas", ignorando que a lei falhou no Senado porque cinco Republicanos votaram contra.

Coube a , entrando a matar perguntando-lhe sem papas na língua como é que os Republicanos poderiam ser considerados o partido da responsabilidade fiscal, quando Crowley os acusa de aumentar o défice em $300 mil milhões, depois de passarem um corte de impostos de $1,5 biliões longos (são os trillion americanos), em que 82% desse valor irá beneficiar os tais 1% mais ricos. Brooks, na resposta, especulou se o Partido Republicano irá ser mais "um Partido Democrata que aumenta despesa, défices, dívida" e leva o país à falência. A culpa, conclui, é dos os eleitores que elegeram pessoas que são "viciadas em dívida".

Quem tem analisado as contas públicas americanas verifica que é ao contrário: os Democratas têm um desempenho melhor do que os Republicanos nas contas públicas. Parte da explicação deve-se a uma questão de atitude: desde Reagan, quando o Presidente é Democrata, os Republicanos no Congresso travam a despesa, mas quando o Presidente é Republicano, nem os Republicanos, nem os Democratas servem de travão. [Por exemplo, tanto Bill Clinton como Barack Obama tiveram um Congresso favorável durante duas sessões, i.e., dois anos, mas George W. Bush teve um Congresso favorável durante 4,5 sessões (anos) e na sua administração houve deterioração das contas públicas: para além de passar cortes de impostos que não estimularam a economia, mas destruíram o excedente da Segurança Social acumulado durante os anos de Clinton, desorçamentou a despesa das guerras que iniciou -- até 2003, todas as guerras dos EUA tinham sido financiadas com um aumento de impostos ao invés de emissão de dívida e a despesa tinha sido contemplada no Orçamento de Estado; com Bush, a despesa das guerras foi mantida em Orçamentos Suplementares (rectificativos) e só foi incluída no Orçamento Geral no início da Administração Obama --, e, antes de sair, Bush aprovou a TARP para combater a crise financeira.]

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Entretanto, Ainda bem que a Administração Trump conseguiu autorização para gastar mais.

Felizmente, já sabemos como isto irá (não) terminar e poderemos acautelar-nos. Só falta notar que as coisas são aproximadamente duas vezes mais rápidas com Trump do que com Bush: a isto chama-se progresso!






Elizabeth Siddal foi uma supermodelo que inspirou a parte mais importante das obras com interesse dos pré-rafaelitas. Gabriel Rossetti foi por sua vez um dos mais inspirado dos pré-rafaelitas, e manteve com a Elizabeth uma relação conturbada de doze anos, que viria a culminar com o suicídio dela com uma overdose de opiácios (tese que o Oscar Wilde viria a desafiar, sugerindo que foi Rossetti que a matou). 

No início da relação, em 1850, Rossetti começou a pintar um quadro que só viria a terminar praticamente no fim da relação com Elizabeth. Este dado é curioso – Rossetti foi um dos pintores mais produtivos dos pré-rafaelitas. Completou várias dezenas de quadros de Elizabeth e, quando estava apertado de dinheiro, pintava como se não houvesse amanhã. No entanto, demorou dez anos a terminar este quadro particular – um quadro aliás bastante medíocre, quando comparado com todos os outros que o tornaram famoso, e que hoje está literalmente escondido num museu em Cambridge (tem de se fazer marcação para poder vê-lo, numa cave). O quadro representa o próprio casal a encontrar-se consigo mesmo. Passeando num bosque, Rossetti e Elizabeth dão de caras com duas pessoas iguais em tudo a eles próprios, e têm uma reacção meio aparvalhada: ele desembainha a espada, sem que se perceba se é para atacar ou se defender; ela perde os sentidos. 

Olhando para o futuro, a partir de quando começou a ser pintado, ou para o passado, a partir de quando foi terminado, este quadro faz igualmente sentido. A partir do 1850, olhando para a frente, poderia refletir as ansiedades da paixão e as suas milhentas contradições – se for verdade que nos apaixonamos pela nossa imaginação do outro, e não por ele mesmo, o maior medo deve ser darmos de caras com a realidade. A partir do 1860, olhando para trás, refletiria o imenso choque perante o que falharam em se tornar – ela, que tinha o talento suficiente para ser patrocinada pelo crítico de arte mais conhecido do século XIX, mas que nunca veio a criar nada de memorável (quem é que hoje sabe quem ela é?); ele, que a manipulou para a tornar vulernável e dependente dele, e acabou por carregar com o peso dela nos braços. Se calhar o quadro também faz sentido se olharmos para ele como uma premonição final, dado que Rossetti viria em falhar em proteger Elizabeth de si própria (se ela se matou), ou de ele mesmo (se Oscar Wilde tiver razão). 

É uma obra tão maravilhosa como medíocre.

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O Gregory Dunne, aquele rapaz que entrou no filme "Who's That Girl?" com a Madonna, fez um documentário sobre a sua tia, a Joan Didion, que é tão bom, tão bom! Está no Netflix e chama-se "The Center Will Not Hold". Há uma parte que é descrita em baixo, , da qual me lembro nitidamente porque quando ouvi a resposta de Joan Didion fiquei estupefacta com a franqueza, mas também fiquei cheia de curiosidade de ler a senhora.

"In one of several genial interviews, Dunne asks Didion about an indelible scene toward the end of her Haight-Ashbury essay—which, as any student who has ever taken a course in literary nonfiction knows, culminates with the writer’s encounter with a five-year-old girl, Susan, whose mother has given her LSD. Didion finds Susan sitting on a living-room floor, reading a comic book and dressed in a peacoat. “She keeps licking her lips in concentration and the only off thing about her is that she’s wearing white lipstick,” Didion writes. Dunne asks Didion what it was like, as a journalist, to be faced with a small child who was tripping. Didion, who is sitting on the couch in her living room, dressed in a gray cashmere sweater with a fine gold chain around her neck and fine gold hair framing her face, begins. “Well, it was . . .” She pauses, casts her eyes down, thinking, blinking, and a viewer mentally answers the question on her behalf: Well, it was appalling. I wanted to call an ambulance. I wanted to call the police. I wanted to help. I wanted to weep. I wanted to get the hell out of there and get home to my own two-year-old daughter, and protect her from the present and the future. After seven long seconds, Didion raises her chin and meets Dunne’s eye. “Let me tell you, it was gold,” she says. The ghost of a smile creeps across her face, and her eyes gleam. “You live for moments like that, if you’re doing a piece. Good or bad.”

Fonte:






No dia 23 de Janeiro, comprei filme para a minha Fujifilm Instax Mini na Amazon: seis pacotes de 20 fotos cada, totalizando $85.86. Como sou forreta escolhi a entrega grátis, que é a que demora mais tempo. Entregaram hoje, ao Domingo, enquanto eu estava na sala a desfrutar o meu café, poucos minutos depois de ter terminado o último post aqui no blogue.

Ele há muita malandragem no mundo: então a senhora que me veio entregar o pacote não tinha nada que estar a trabalhar a estas horas e que companhia tão mal-gerida, que demora menos de uma semana a entregar uma coisa ao cliente — o pacote veio de Las Vegas, no Nevada, que fica a mais de 2300 Km de mim, ou seja, são mais de 21 horas de carro, mais tempo para dormir, refeições, etc. Em Portugal, que é um país pequenito, mas mais eficiente e civilizado, demoraria muito mais tempo.






Não entendi as notícias sobre a creche dos miúdos dos trabalhadores da Auto-Europa. Já percebi que há quem ache mal que se trabalhe ao Sábado, mas quem é que vai trabalhar ao Sábado para tomar conta dos putos? Também gostaria de saber se os trabalhadores da Auto-Europa que são “prejudicados” por trabalhar ao Sábado são maioritariamente homens, enquanto que os trabalhadores que são “beneficiados” por trabalhar em creches ao Sábado são maioritariamente mulheres.

Já agora, acho que todos os portugueses deviam assinar um compromisso dizendo que, daqui para diante, só terão acidentes e ficarão doentes durante o horário normal de trabalho. Ao final de Sexta-feira, os doentes hospitalizados terão de ir para casa e só regressar ao hospital na Segunda-feira de manhã. Ah, e nada de frequentar transportes públicos, centros comerciais, cinemas, museus, restaurantes, cafés, etc. ao fim-de-semana porque toda a gente tem o direito a desfrutar de tempo com a família.






“Pais e filhos”, publicado em 1862, é o melhor romance de Ivan Turguéniev (1818-1883) e um dos melhores do século XIX. Nikolai Petróvitch ouve por acaso uma conversa entre o seu filho Arkádi e o amigo Bazárov, um niilista radical – é, sem dúvida, a grande personagem do livro. Bazárov diz: “O teu pai é boa pessoa, mas é um homem antiquado, o tempo dele já passou.” Estas palavras desanimaram o “velho” Nikolai, na altura com quarenta e poucos anos. Apesar de viver no campo, este aristocrata generoso e culto esforçava-se por se manter actualizado e a par das modas intelectuais e políticas, havia lido os grandes autores, autores que a juventude via agora com desdém, considerando-os inúteis e uma perda de tempo. Nikólai desabafa então com Pável, o seu irmão mais velho: “Sabes do que me lembrei mano? Uma vez discuti com a nossa falecida mãe: ela gritava, não me queria escutar… Eu por fim disse-lhe: «a mãe não me pode compreender, pertencemos a duas gerações diferentes.» Ela ficou horrivelmente ofendida, e eu pensei: que fazer? A pílula é amarga, mas é preciso engoli-la. Pois agora chegou a nossa vez, e os nossos herdeiros também nos podem dizer: vocês são de outra geração, engulam a pílula.”
Turguéniev captou de forma genial uma questão intemporal. De uma forma ou outra, tarde ou cedo, temos de engolir a pílula. É a vida.






Em 2016, antes ainda da vitória de Donald Trump, Jason Brennan publicou o seu provocatório “Against Democracy”. Brennan parte de uma premissa: em geral, os votantes são uns ignorantes – os americanos, mas não há nenhum motivo para acreditarmos que os do resto do Ocidente são melhores. O cientista político vê a sociedade americana dividida em três grandes grupos. Os hobbits são as pessoas desinformadas, não sabem nem querem saber dos assuntos públicos e deviam abster-se de qualquer responsabilidade política – nos EUA correspondem, grosso modo, aos abstencionistas, mais de 40% do eleitorado. Os hooligans acompanham as notícias da política como quem acompanha as notícias do seu clube de futebol, ou seja, de forma completamente enviesada. Por fim, os vulcanos estudam os assuntos políticos com objectividade, ouvem os outros e ajustam se necessário as suas opiniões. Estamos perante tipos-ideais, para usarmos a terminologia de Max Weber. De qualquer maneira, a larga maioria dos americanos é hobbit, hooligan ou fica algures entre os dois.


Brennan evoca uma esperança de John Stuart Mill segundo a qual o envolvimento dos cidadãos na política seria uma forma de os iluminar – um maior envolvimento político dos cidadãos desenvolveria as suas competências em termos de pensamento crítico e aumentaria o seu conhecimento, fazendo deles melhores cidadãos. Usando a classificação de Brennan, o filósofo e economista inglês acreditava que os hobbits se poderiam transformar em vulcanos. Uma esperança piedosa. 150 anos e muitas décadas de massificação do ensino depois, o próprio Mill, se voltasse a este mundo, teria perdido as suas esperanças. O mais surpreendente nesta história é a estabilidade e a persistência da ignorância. E de nada serve o acesso à informação política se ter tornado muito mais fácil e barato, acrescenta Brennan.
Posto isto, Brennan acha que não vale a pena continuarmos a alimentar ilusões sobre os eleitores. Pior, à semelhança de Joseph Schumpeter, acredita que a política faz mal às pessoas, corrompe-as ou estupidifica-as. O cidadão mais ativo politicamente tem usualmente opiniões fortes, raramente fala com os que têm opiniões diferentes e revela altos níveis de enviesamento quando discute ou participa na política. A participação política tende a dividir a sociedade em grupos adversários, em tribos que se digladiam. Ao contrário do que clamam, ou aspiram, autores como Jürgen Habermas, a discussão e a deliberação políticas não se pautam pela força do melhor argumento. O que realmente importa é a retórica, o sex appeal, e “promoting the team”. Numa palavra, a participação política tende a transformar os hobbits em hooligans e os hooligans em hooligans ainda piores.
Brennan não vê os hobbits como um sinal preocupante da saúde da democracia, mas sim como um começo prometedor. Se o envolvimento político tende a corromper em vez de edificar, então o afastamento é preferível ao envolvimento político. Seja como for, as pessoas não se vão tornar mais interessadas ou informadas. Isto porque existe uma racionalidade nessa ignorância política, conforme explicam os economistas com a chamada ignorância racional. A democracia não compensa os cidadãos do esforço e tempo necessários para se manterem informados: os indivíduos sabem intuitivamente que o seu voto individual não faz qualquer diferença – não tem influência nos resultados finais de uma eleição, nem nas políticas do governo. Por isso, os que votam fazem-no por verdadeira convicção, o que vai completamente contra a teoria muito invocada do voto individual egoísta, ou seja, do voto em função da carteira estar mais ou menos cheia de dinheiro.
Perante esta irremediável ignorância e irresponsabilidade dos eleitores, a maioria acaba, muitas vezes, por impor ao resto da população políticas perversas e perigosas. Os resultados só não são piores porque as democracias amiúde, devido nomeadamente ao sistema de poderes e contrapoderes, se afastam da vontade da maioria, levando a que os governantes não cumpram as suas promessas. De qualquer maneira, um eleitorado maioritariamente ignorante e irresponsável levará a uma deterioração contínua do sistema, com a qualidade dos candidatos a baixar. E Brennan considera injusto depositarmos o nosso futuro nas mãos de cidadãos irresponsáveis. É como se fossemos obrigados a ser operados por um cirurgião incompetente.
Para Brennan, o valor da democracia é puramente instrumental. A democracia “is nothing more than a hammer”. Se pudermos encontrar um martelo melhor, devemos usá-lo. O cientista político americano defende uma “epistocracia”, um modelo insinuado por Platão e Mill, no qual o poder político é formalmente distribuído de acordo com as qualificações e a competência. As pessoas deixariam, assim, de ter garantida a igualdade de direitos em termos de voto e de candidaturas a cargos políticos.
Brennan nega que a sua fórmula seja totalitária ou sequer parecida com uma tecnocracia autoritária, porquanto não se trata de entregar o poder a especialistas ou aos melhores, mas sim de afastar os piores. No fundo, toda a argumentação do filósofo norte-americano assenta em probabilidades: uma maioria democrática tem mais ou menos probabilidades de escolher políticas erradas do que um público informado, racional, competente e responsável? O autor não tem dúvidas na resposta - apesar de admitir que também se podem gerar abusos de poder numa epistocracia,
A epistocracia preconizada por Brennan levanta, todavia, várias questões. Primeira, alguns estudos sublinham as insuficiências e falhas dos mais conhecedores e informados, ou seja, os especialistas. Segunda, quem e como se decide quem faz parte do público bem-informado e competente? Terceira, com que critérios se decide se uma política é boa ou má? Quarta, é legítimo reduzir a democracia a um problema de informação e competência, ignorando a dimensão identitária do voto? Quinta, e recorrendo a uma metáfora de John Dewey, quando temos um problema com os sapatos, é o especialista que o pode resolver, mas apenas o povo é que sabe onde é que lhe doem os pés.


Talvez o mais inquietante e significativo seja mesmo o título do livro: “Against Democracy”. Um aviso de que nada é eterno.






Na Terça-feira, fui ao Tribunal da minha cidade para ser seleccionada para o júri de um julgamento. Não contei o número de pessoas que lá estavam, mas deviam ser mais de 30 porque estava programado haver quatro julgamentos, mas três foram cancelados -- cada julgamento precisa de 6 pessoas no júri, mas temos de ter em atenção que algumas saem porque têm conflitos de interesse, outras são excluídas pela defesa ou pela acusação.

Surpreendeu-me que, no meio de tanta gente, quase todos fossem brancos e predominantemente homens. Uma das formas de sermos desculpados do "dever de ser jurado" (traduzo assim "jury duty") é ter ao nosso cuidado uma criança de 12 anos ou mais nova, logo este critério deve excluir muitas mulheres. Eu devia ser a mulher mais jovem que lá estava e, para minha surpresa, fui a única seleccionada para participar no julgamento.

Como nunca tinha sido chamada para uma coisa destas, para mim foi uma experiência educativa, que ainda estou a processar. Recordei-me de um episódio que me aconteceu há uns anos, em que um colega meu, ao falar da evolução dos preços de uma commodity disse que havia três alternativas: ou o preço subia, ou descia, ou ficava na mesma, logo 33,3% para cada lado. Quando ele disse aquilo, tive uma reacção visceral imediata porque a probabilidade de um preço ficar na mesma de um dia para o outro é quase nula, logo os 100% são quase na totalidade divididos entre ou vai para baixo ou vai para cima. Mas aquele erro é muito comum...

Agora que penso nas escolhas do veredicto, pergunto-me que impacto terá na forma como as pessoas processam as suas alternativas. No caso da multa, os veredictos possíveis eram "guilty" ou "not guilty", mas o "guilty" tinha também a possibilidade de escolha de uma multa que ia de um mínimo de $1 a um máximo de $200. Quando o advogado de defesa instruiu o júri, disse-nos que perante a lei nós tínhamos de presumir inocência, logo qualquer dúvida devia dar um veredicto de "not guilty". Só que não é bem o caso porque o veredicto tinha de ser unânime, logo todos os jurados tinham de reconhecer ter uma dúvida para concluir "not guilty".

O caso era insignificante: uma multa por conduzir a 70 milhas por hora, numa área em que o limite está assinalado como sendo 60. No Texas, não há limite de velocidade máxima, mas temos de conduzir a uma velocidade que não é “unreasonable and imprudent under the circumstance then existing”. Se está assinalado um limite, entra em consideração a questão de limites de velocidade "prima facie", em que velocidades acima desse limite podem não ser prudentes ou razoáveis -- ou seja, é necessário avaliar as condições.

No julgamento, tivemos oportunidade de ver o vídeo da polícia em que a pessoa acusada ultrapassa os 70 mph por uns segundos e é parada pela polícia. Na minha opinião, não achei a velocidade perigosa, aliás estava tudo a conduzir a mais de 60 mph, quase a 70 mph, inclusive um camião, que penso colocar um risco maior, mas a minha dúvida, que era partilhada por outra pessoa, não foi suficiente para absolver porque há quem ache que 70 mph é o limite de perigoso. Dizia eu aos meus colegas que havia um carro à frente que ia mais rápido do que o da pessoa acusada, logo a velocidade da pessoa acusada inseria-se no argumento de "flow of traffic", só que me responderam que esse carro ia muito mais à frente e estava mais longe da polícia e alguém cometer uma violação e safar-se não serve de desculpa para safar quem é apanhado.

Tenho a ligeira sensação de que o meu papel de refilona não serviu a justiça; apenas serviu para minimizar a injustiça. O meu opositor principal disse-me que, se eu aceitasse dar um veredicto de "guilty", ele aceitaria dar uma multa de $1. Pensei nas alternativas: a pessoa ia a tribunal outra vez e corria o risco de ser culpada e ter uma multa maior ou não ia a tribunal e pagava a multa, que é mais de $1. Aceitei mudar o meu veredicto em troca da multa mínima. No final, o homem que me opôs perguntou-me o que eu fazia: sou economista.

Um outro senhor, muito mais discreto do que eu e que também estava disposto a dar o veredicto de "not guilty", veio ter comigo no final e disse que aquilo era o melhor que podíamos ter feito dada a composição do júri e sugeriu que déssemos os $6 que cada um recebeu em troca do nosso serviço à pessoa acusada e que lhe disséssemos "We're sorry, but this is the best that we could do under the circumstances". Assim fizemos e entregámos os $12.

Mas continuo insatisfeita e com vontade de refilar: estou a avaliar as minhas alternativas...






Tom Nichols publicou The death of expertiseem 2017, depois do Brexit e da vitória de Donald Trump. Para Nichols, a morte da expertise não é sinónimo de um saudável cepticismo em relação aos especialistas. A morte da perícia é, antes de mais, um rancor ou ressentimento dos leigos para com os especialistas. Nesta fase pós-industrial, todos os cidadãos acreditam ser especialistas em tudo e mais alguma coisa.
Perante a morte da perícia, a explicação recorrente é acusar a internet. De facto, a internet é um extraordinário repositório de conhecimento e, ao mesmo tempo, uma fonte de conhecimentos errados. Mas esta explicação é demasiado simples. Os ataques ao conhecimento estabelecido têm uma longa história. A internet é apenas o elemento mais recente num problema com raízes profundas. Assim, além da internet, Nichols identifica mais três grandes causas da morte da perícia: as fraquezas humanas (a aversão à ambiguidade e à dissonância; a crença, bastante enraizada, num mundo ordenado) que nos levam a cometer erros sistemáticos (enviesamentos); a educação; e o novo jornalismo.
A educação poderia ser a solução de problemas como o “enviesamento da confirmação” ou das falhas e lacunas de conhecimento dos cidadãos. Infelizmente, a educação faz hoje parte do problema. O estudante é tratado como um cliente. O cliente paga e tem sempre razão. Esta tendência gerou efeitos altamente perversos. A necessária humildade do bom estudante deu, muitas vezes, lugar a uma arrogância sem fundamento, acompanhada de um conhecimento ilusório. Os estudantes não desenvolvem hábitos de autocrítica que lhes permitam continuar a aprender e a avaliar as complexas questões sobre as quais terão de deliberar e votar como cidadãos.
Por fim, os jornalistas profissionais enfrentam novos desafios na era da informação. No meio altamente competitivo dos media, os editores e produtores não têm mais a paciência – ou os meios financeiros – para permitir aos jornalistas desenvolverem a sua própria perícia ou um conhecimento mais profundo dos assuntos. Para mais, não há sequer provas de que a maioria dos consumidores esteja interessada em muitos detalhes. E as pessoas envolvidas na indústria das notícias sabem hoje que, se as reportagens não entreterem o suficiente, o público pode facilmente encontrar outras com um simples clique.
O desprezo pelos especialistas está a minar a democracia, conclui Nichols. Os representantes eleitos não podem dominar todos os assuntos e, por consequência, irão precisar sempre dos especialistas e de outros profissionais. Os especialistas aconselham; os líderes eleitos decidem. Para julgar o desempenho dos especialistas e as decisões dos políticos, os cidadãos devem familiarizar-se com os assuntos em questão. Tal não significa um estudo profundo sobre as políticas, mas exige interesse em obter uma literacia básica nos assuntos que afectam as suas vidas.
Quando os cidadãos se afundam na ignorância, perdem o controlo das decisões importantes. Pior, a democracia pode ser sequestrada por demagogos ignorantes ou as instituições democráticas podem, paulatinamente, cair na decadência. A democracia pode transformar-se numa tecnocracia autoritária. E este último ponto leva-nos ao "elitismo" - uma espécie de populismo virado do avesso - e ao livro “Against democracy” do cientista político norte-americano Jason Brennan de que falarei noutra oportunidade.






1.      Cavalgamos por aquele bosque cerrado, até chegarmos a uma clareira pequena, após atravessarmos um rio veloz, com os nossos cavalos já cansados, porque lutámos contra ursos e cavalgamos desde madrugada, sob a ameaça dos lobos, para chegarmos ainda nessa noite, ou entre a noite e a alvorada, sem parar um minuto que seja, nem perante o evidente cansaço dos cavalos, nem por causa de uivos aterradores, ou de árvores fantasmagóricas, à clareira pequena onde nos espera refúgio de ursos e lobos, alimento para cavalos e uma cama merecida junto a uma fogueira crepitante. Não somos salteadores, nem príncipes. As aventuras acontecem a qualquer pessoa.






“Madoff: Teia de mentiras” (The wizard of lies) é o melhor filme que se fez até ao momento sobre a tragédia Madoff. Barry Levinson é um realizador competente, um bom artesão. Robert De Niro e Michel Pfeiffer cumprem bem o seu papel de casal Madoff. Em Dezembro de 2008, Madoff revelou à família a enorme fraude que andara a urdir durante mais de 16 anos. Foram os filhos que o entregaram à justiça, apesar de Madoff declarar várias vezes que se entregaria de qualquer maneira. Antes de mais, o filme centra-se na tragédia familiar. Os dois filhos morreram, entretanto. O mais velho suicidou-se com 46 anos em 2010. O mais novo morreu em 2014 de cancro, com 48. Madoff, agora com 79, espera pela morte na prisão. A mulher, Ruth, deixou de lhe falar e foi abandonada e ostracizada por todos, excepto por uma irmã, ela própria vítima das vigarices do cunhado. O filme aborda, de raspão, a incompetência dos reguladores, os quais não cruzam informação entre si, e são ingénuos ao ponto de acreditarem na palavra de um vigarista - onde é que já vimos este filme?
Madoff deixa no ar a pergunta se é ou não um sociopata. Claro que é, como o são muitos desses gurus empresariais e da alta finança. Gente especialista em contornar regras, atreitos a correr grandes riscos e sem um pingo de remorsos nas veias. A diferença de Madoff é que confessou e, por isso, está preso – a justiça americana também não é bem essa maravilha que às vezes se diz. Os outros sociopatas, os que puseram a economia mundial à beira do precipício, foram os primeiros a erguer-se e, muitas vezes, a aproveitar-se dos destroços que eles próprios provocaram.
Madoff diz várias vezes que o problema é a ganância das pessoas. Ele próprio recomendava aos seus clientes que não investissem mais de metade do seu dinheiro nos seus fundos. Mas os clientes não resistiam. Queriam mais e mais, e depois muitos ficaram a arder, sem nada. Isto não iliba nem desculpa Madoff, claro. Mas é um problema que muitas vezes nos esquecemos ou preferimos ignorar. Preferimos atribuir a culpa toda aos Madoffes deste mundo – ele bem se queixa, com alguma razão, que foi transformado no bode expiatório de todo o sistema. Estes vigaristas aproveitam-se das fraquezas humanas, e uma delas é a ganância, um mal bastante disseminado e democratizado. Infelizmente.








Quando o Presidente Trump acusou alguns países de serem "shitholes" e questionou porque é que os EUA não atraíam mais pessoas da Noruega, a pessoa que o opôs foi

Ontem, na Marcha das Mulheres, em Houston, o Mayor da cidade, Sylvester Turner, um homem democrata e negro, afirmou o mesmo no seu discurso. Houston é a cidade com mais diversidade dos EUA: uma em cada quatro pessoas nasceu noutro país e os residentes de Houston falam mais de 140 línguas. "A causa é justa", disse, acerca da motivação da Marcha das Mulheres, mas diversidade é apenas uma condição necessária, não é uma condição suficiente para honrar os valores mais altos pelos quais marchamos. Também é necessário que haja inclusão, alertou o Mayor, que todos tenham representação democrática: que haja maior diversidade nos candidatos, no voto, e na eleição e nomeação de pessoas. É importante que todos os residentes encontrem uma forma de participar na construção do futuro da cidade para que o processo de inclusão seja aprofundado. Nesse aspecto, apresentou Houston como um farol para o resto do país: o futuro dos EUA é tornar-se ainda mais diverso e inclusivo, não há como parar este movimento e quem o opuser estará do lado errado da história.

Quem olha para a Marcha das Mulheres e acha que para os americanos é suficiente que haja mais mulheres no governo não compreende a natureza dos EUA. A causa da Marcha das Mulheres é elucidativa: procuram-se candidatos, homens e mulheres, de raças e etnias diferentes, de orientação sexual diferente, de estratos sociais diferentes, etc. Ser mulher não é suficiente. Aliás, é essa uma crítica que se faz à Casa Branca de Trump: não há diversidade étnica, nem racial, nem socio-económica. . Em fotografias oficiais, .

A 20 de Março irão realizar-se as eleições primárias para as mid-terms de 2018, nos EUA. Nessa altura, poderemos avaliar se a mensagem de diversidade e inclusão está a ganhar força.






Depois de Rui Rio ter ganhado a liderança do PSD, o Primeiro Ministro António Costa .

"Oposição construtiva" dito por António Costa parece-me um oxímoro, pois, do ponto de vista dele, algo construtivo não pode ser oposto ao que ele quer e algo oposto não pode ser construtivo. Senão, vejamos: se a oposição de Rui Rio é vista como construtiva por António Costa, significa que o Governo está a fazer alguma coisa que precisa de ter oposição e se esta oposição é construtiva, então a coisa que está a ser feita não deve ser muito boa. Nesse caso, se a coisa não é boa por que é que António Costa a defende?

Mas se ele acredita em "oposição construtiva", certamente que a praticou quando Pedro Passos Coelho era Primeiro-Ministro, logo seria importante que algum jornal ou TV nos fizesse uma revisão do que é "oposição construtiva" segundo António Costa enquanto líder da oposição. Recordo-me que, quando António Costa subiu ao poder, ninguém percebeu o que iria ser um governo dele.

Faz, no entanto, sentido falar-se em "oposição construtiva" do ponto de vista dos cidadãos. Pessoalmente, prefiro situações em que todos os partidos são fortes e têm pessoas competentes que consigam articular os diferentes pontos de vista do eleitorado. É lógico que é impossível agradar a toda a gente, mas haver forças opostas significa que o país seguiria um caminho mais regrado, em que os excessos são improváveis.

Espero que Rui Rio consiga aumentar a qualidade do debate político em Portugal. A primeira tarefa é controlar a mensagem do PSD, um partido que passa demasiado tempo a lavar roupa suja em público e descura o estudo e a proposta de políticas alternativas. Não é suficiente estar na oposição para se fazer oposição. É preciso conhecer o país e o mundo em que nos inserimos, identificar riscos e oportunidades, e ter planos de curto e de longo prazo. A curto prazo, é preciso compreender os pontos fracos da política proposta pelo governo e oferecer alternativas, mas deixem-se do pseudo-liberalismo esquizofrénico e do moralismo anacrónico a que nos habituaram.

Uma forma fácil de ser alternativa ao PS é melhorar a qualidade dos deputados do PSD: diversidade etária, de género, de percurso profissional, etc. Invistam em pessoas com valor que sejam bons líderes hoje, mas que também possam liderar no futuro, em vez de andarem a fabricar pessoas como Miguel Relvas. E liberalizem os votos da bancada do PSD no Parlamento: deixem que os deputados votem com a sua consciência -- note-se que é necessário que tenham consciência -- e incentivem o contacto dos deputados com o eleitorado. Com a Internet não é assim tão difícil e caro de fazer. O PSD precisa de demonstrar que está no Parlamento para servir o povo que representa e não para tratar da vidinha dos do costume.












No próximo Domingo, irá celebrar-se o primeiro aniversário da Women's March on Washington, D.C., que foi um evento que mobilizou pessoas por todo o mundo: foi apenas a maior manifestação colectiva de sempre. Irá haver outra marcha, no Domingo, que terá vários propósitos: o primeiro é o de celebrar a Women's March; o segundo é o de marcar , cujos objectivos incluem aumentar a participação das mulheres na vida política dos EUA, aumentando o número de candidatas para as eleições de Outubro de 2018 (as mid-terms), e também aumentar a participação política em distritos críticos para mudar a orientação do Congresso americano.

Tal como no ano passado, irá haver uma marcha principal, desta vez em , e outras marchas de solidariedade por todo o mundo. Portugal não tem nenhuma marcha registada, mas um de vós pode organizar uma no sítio onde vive. Se o fizerem, não se esqueçam de







"How do you drive to Memphis?!?" perguntou a J. Respondi-lhe "Drive to Texarkana, then Little Rock, AR, turn east and go until you hit Memphis." Fazia-lhe confusão que eu fizesse um percurso tão longo de carro, quando ela, com 92 anos nunca tinha sequer tomado uma refeição num restaurante sozinha -- a culpa era do marido, diz-me ela frequentemente, que a tinha mimado demasiado e, mesmo após ele morrer, há mais de 10 anos, ela apenas come fora acompanhada.

São quase 950 Km pela rota mais curta; mas nos EUA distâncias assim são normalmente medidas em termos de horas. Se não há trânsito em Houston e em Memphis e não há muitas obras na auto-estrada, consigo fazer o percurso em cerca de pouco mais de 10 horas, incluindo paragens para meter gasolina e comer, mas só posso comer fast food. Se comer uma refeição completa, e eu gosto sempre de parar pelo menos uma vez no Cacker Barrel durante as minhas roadtrips, demoro mais uma meia-hora, pelo menos.

No Domingo passado, quando regressei a Houston, completei o percurso em 9 horas e 53 minutos, o meu melhor tempo. Saí de Memphis depois das 13 horas e parei para verificar a pressão dos pneus. Pensei em almoçar dentro da cidade, mas como já era tarde e ainda estava cheia do pequeno-almoço tardio que tomei em casa de uma amiga, achei melhor fazer-me à estrada. Não resisti, no entanto, a descer a Poplar Av. até à baixa, em vez de adoptar uma das circulares. Demora mais, mas é uma das minhas ruas preferidas porque atravessa a cidade.

Talvez tenha sido um erro não ter almoçado porque, entre Memphis e Little Rock, não há quase nenhum sítio de jeito onde parar. Enquanto ruminava a sensatez da minha decisão, vi a saída para Palestine, AR, população 681, no census de 2010, e decidi parar, encher o depósito do carro e comer. Dentro do Love's -- a bomba de gasolina --, havia pouca escolha, mas resignei-me em comer no Chester's Chicken, cujo menu estudei durante vários minutos.

Há quem escolha comida pelo preço, mas eu costumo escolher pelas calorias e, como no Natal comi doces a mais e fiquei bastante doente, também tentei escolher algo que não tivesse muito trigo. Decidi que dois panados de frango, cole slaw, e uma taça de fruta seriam um bom almoço. Cole slaw é uma salada de couve branca crua cortada em julienne, cenoura, e um molho (normalmente vinaigrette ou maionese).

Quando chegou a minha vez, fiz o pedido: "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl", ao que o rapaz, que era magro e desenvolto, falando com um sotaque do sul pronunciado, respondeu "three-piece meal or six-piece?" Repeti "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl" e ele repete a mesma coisa "three-piece meal or six-piece?" e diz que não vou poder comprar "two chicken tenders". Olho outra vez para o menu e está lá o preço individual dos itens: volto a pedir e ele volta a recusar-se.

Desisto e digo "three-piece meal" -- pronto, lá se vão as calorias para o galheiro e ainda por cima a refeição traz um "biscuit", que é um pão de buttermilk, com 400 calorias, apenas um terço das minhas calorias diárias... O empregado explica-se "I'm not trying to be difficult, but you can get everything you want in a meal and it's cheaper. I'm just trying to save you money." O homem que está atrás de mim na fila comenta o empregado ser obstinado. Digo-lhe que o dinheiro é meu e tenho o direito de gastar como me apetecer, mas de nada vale. Pago a refeição, agarro na comida e vou sentar-me numa mesa.

Na TV, falam do ritual do chá no Reino Unido; no alti-falante anunciam quando os duches estão livres para os camionistas. Não comi tudo; guardei parte para o jantar e foi por isso que demorei menos de 10 horas a conduzir de Memphis a Houston. Nem sempre o cliente tem razão. De vez em quando, há um puto esperto que acha que sabe optimizar o consumo dos outros e acaba poupando-lhes tempo...







“Fall in love with some activity, and do it! Nobody ever figures out what life is all about, and it doesn't matter. Explore the world. Nearly everything is really interesting if you go into it deeply enough. Work as hard and as much as you want to on the things you like to do the best. Don't think about what you want to be, but what you want to do. Keep up some kind of a minimum with other things so that society doesn't stop you from doing anything at all.”


― 













Daqui a algumas semanas vamos conhecer a importância deste Natal que passou, quando as estatísticas das compras de Natal forem conhecidas. Com a popularidade das compras online, o comércio em lojas físicas tem diminuído e bastantes lojas têm fechado. Em Portugal, não há tanto o hábito de fazer compras online, mas a avaliar pelos acontecimentos da semana passada, em que muitas pessoas tiveram dificuldade na entrega das prendas que compraram online, podemos concluir que é um tipo de comércio que irá crescer.

A forma como as pessoas estão a fazer compras está a mudar e não é apenas em termos de comprar online vs. comprar numa loja física. A experiência da compra também está a mudar. Há várias tendências que estão a aparecer. Uma delas é as compras por subscrição, em que o cliente recebe regularmente um pacote com vários produtos, desde produtos de beleza (Birchbox, Ipsy, Julep, Play! by Sephora, etc.) a artigos de papelaria (STICKII Club, Pipsticks, The Planner Addict Box, Creative Mercantile), passando pela comida (Blue Apron, HelloFresh, etc.)

Mesmo na roupa há serviços de "compras" através de subscrição, mas não é bem compras. A pessoa recebe uma caixa com itens, fica com os que lhe interessam e devolve os restantes (Stitch Fix, Fabletics, etc.). Este modelo não é universal, pois por vezes não é necessário comprar, é mais tipo um "aluguer" de roupa ou acessórios (Le Tote, Rent the Runway, etc.). Asvantagem de alguns destes serviços é o atendimento personalizado, em que há um "personal stylist" que faz a selecção para a pessoa. É claro que isto é um bocado exagerado, pois o atendimento não é tão pessoal como quando vamos a uma loja, mas quando vamos a uma loja, raramente nos pomos completamente nas mãos da vendedora.

É interessante que alguns destes serviços sejam oferecidos internacionalmente, desde que a natureza do produto o permita, o que dá acesso a uma gama mais alargada de escolhas para o cliente, mas também tem implicações em termos de impostos. Se uma empresa importa coisas para vender num país, o volume que importa é tal que estará sujeito a taxas de alfândega; mas se cada indivíduo importa uma pequena caixa mensalmente, por exemplo, então poderá não ser o suficiente para ter de pagar taxas alfandegárias.

Há uma outra modalidade de comércio de roupa que poderá ganhar popularidade e que é um híbrido entre comprar numa loja e comprar por catálogo ou online. Neste caso, há um local físico onde a pessoa vai experimentar roupa, escolhe o que quer, e depois os artigos escolhidos são enviados par casa. A vantagem deste método é que, ao contrário do que acontece quando se visita uma loja tradicional, a pessoa não está limitada aos itens disponíveis num local em particular, pois terá acesso a todos os tamanhos, modelos, cores, etc.

Quem acha que os correios estão condenados à morte precipita-se um bocado, pois estas coisas terão de ser entregues de alguma forma e não é impossível que os correios absorvam parte deste negócio. Excepto em Portugal, claro. A ver pelas notícias da semana passada relativas aos CTT, fica claro que os gestores da companhia não têm qualquer ideia acerca de oportunidades, tendências futuras, ou sequer do que andam a fazer. Os CTT são muito mal geridos, pois não têm controle de qualidade, nem sequer medem a produtividade dos seus empregados, pois ou (1) a empresa tem 800 empregados a mais, logo não deveria ter atrasos na distribuição de correio ou (2) a empresa tem empregados que trabalham bastante bem, mas, mesmo assim, tem atrasos, logo trabalhará pior com menos 800 almas.






Aos gritos de solerte, velhaco, finório, manhoso, A. da P., funcionário público à beira da reforma, foi escoltado para fora da sala do tribunal de 1ª instância da comarca de l. por dois agentes das forças da ordem em traje civil, vulgo à paisana, ou assim pareciam. Pareciam agentes das forças da ordem, que envergavam traje civil era evidente.
Esperar-se-ia de quem enverga traje civil que fizesse jus ao adjectivo e à sugestão de civilidade que este acarreta, mas a escolta foi abrupta e é isso que faz suspeitar da pertença dos dois indivíduos a um qualquer ramo do corpo, braço do corpo, que executa a autoridade de um estado, detentor do monopólio da força legítima. A necessidade de um tal ramo ou braço que faça cumprir aquelas determinações que o estado entende indispensáveis para a ordem pública, daí o epíteto parafrásico forças da ordem, decorre da tendência infantil dos membros da comunidade política para a recalcitrância e mesmo para a contumácia. Ou seja, porque a ordem tem que se garantir à força, uma força que podemos dizer centrípeta e que contraria a força que podemos dizer centrífuga do indivíduo renitente. Não se pense que há um anarquista em cada cidadão e que cada cidadão preferiria a desordem, o caos, a balbúrdia. Antes cada cidadão é uma república em si mesmo, como ensinou Platão, e quer obedecer apenas àquela lei que dá a si próprio, como ensinou Kant. Começamos a perceber que falar neste caso de uma tendência infantil é uma forma de condicionar a percepção do público quanto à conduta do indivíduo autónomo e insubmisso, uma distorção ideológica levada a cabo através da manipulação da linguagem, como nos ensinou Orwell e antes dele Marx. A imagem do tributário conforme, a quem aborrecem os furtos pequenos mas que se congraça com os grandes, mantém o indivíduo naquele estádio ético de que Kierkegaard nos ensinou a suspeitar por pôr em risco a autenticidade que faz com que a vida valha a pena ser vivida. Às vistas curtas de que Hobbes nos acusa e à reconciliação que Hegel nos promete, antefiramos a vigilância constante sobre os poderes que Locke nos ensinou ser condição de uma sociedade livre. Até à revolta, se for preciso. Como A. da P., funcionário público à beira da reforma, que fez neste dia da sua vociferação um manifesto.






A melhor prenda de Natal que recebi foi a votação do financiamento partidário. Adorei! Como é que o Parlamento conseguiu manter isto em segredo durante tanto tempo, sem que a Comunicação Social soubesse, é realmente uma façanha. Por exemplo, compare-se com o episódio do Diabo vem aí que se deu num círculo muito mais pequeno e saiu para fora, logo sendo aproveitado por António Costa, sem dó, nem piedade, para gozar com Pedro Passos Coelho.

Neste caso, o PS, um partido tecnicamente falido, puxa a brasa a sua sardinha, pois é o partido que tem mais a ganhar com esta lei -- não vos lembra aquela lei da repatriação de fundos a uma taxa de imposto reduzida? --, e ninguém do PSD se lembra de fazer a vida negra aos socialistas. Que habilidade política têm os deputados do PSD? Ser assim tão "clueless" dá dó. E lembram-se do Passos Coelho ter dito aos Socialistas que não contassem com os Sociais-Democratas para os ajudar? Se isto é o PSD a dificultar o PS, então nem consigo imaginar como seria se tivessem decidido facilitar.

Mas o que me deliciou bastante foi a indignação colectiva acerca do caso. A sério que pensavam que a Geringonça ia ser virtuosa liderada pelo mesmo partido que levou o país à bancarrota e com muitas das mesmas pessoas sentadas no Parlamento? Não é assim que funcionam as coisas: esta malta safou-se à primeira e continua a achar-se invencível. Nada mudou em Portugal, continua tudo na mesma.




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Para o dia 24 de Março, está a ser planeada uma marcha em Washington, que irá mobilizar os alunos das escolas americanas. Veremos se o momentum deste movimento terá pernas para andar, mas é inspirador ouvir raparigas de 17 anos a discutir este tema. Se querem explorar os contornos do direito a porte de armas, sugiro-vos que escutem o segundo acto do podcast "This American Life", de 2 de Fevereiro de 2018. Esse episódio discute o caso de um rapaz que levou uma arma de imitação para uma escola na Louisiana. A imitação era tão boa que, segundo um dos polícias entrevistados -- uma pessoa experiente em armas, portanto --, demora uns três minutos a manusear a peça para nos apercebermos que não é verdadeira. A polícia acha que permitir armas de brincar nas escolas é um risco, pois um polícia pode acidentalmente matar alguém que as leve. A organização NRA (National Rifle Association) é contra legislação que proíba o porte de armas de brincar nas escolas. Na Quarta-feira, recebi o tal e-mail da Autoridade Tributária a mandar-me limpar a mata. Ora, eu não vivo em Portugal, nem sequer tenho terrenos, logo a única mata que eu poderia limpar não diz respeito à Autoridade Tributária, nem ao governo português. Piadas à parte, este e-mail é capaz de ter sido uma das coisas mais interessantes feitas por este governo porque revela a falta de capacidade governativa. Ficámos a saber que o governo não tem uma lista de pessoas que sejam donas de propriedades, nem sequer tem capacidade para realizar uma campanha adequada a cada região do país. Será que as pessoas que vivem em Lisboa deviam receber as mesmas instruções que quem vive numa zona rural? Outra coisa que nos "disseram" é que a Autoridade Tributária é a entidade responsável por comunicar aos cidadãos a política de gestão do território, isto para além da administração regular do passatempo "Factura da Sorte". Para quando a criação de um programa televisivo na RTP? Sugiro algo estilo um talk show com passatempos e sorteios em directo.Note-se que há quem tenha terrenos e, quando recebeu o e-mail, assobiou para o lado. Diz que é muito caro mandar limpar os terrenos; se o governo estiver muito incomodado, que fique com os terrenos. Ora, isto parece-se o enviesamento "aversão à perda": não querem gastar o dinheiro a limpar, nem querem vender o terreno e livrarem-se da responsabilidade. Sugiro que alguém do governo contacte a Sandra Maximiano, que agora até reside em Portugal, para estudar uma política de incentivos adequada para tratar deste problema antes que morram mais pessoas queimadas. Finalmente, o meu último ponto tem a ver com a economia. Instalou-se em Portugal uma atitude de viúva alegre em que se pensa que a situação favorável da economia mundial irá durar indefinidamente. Nesta altura, Portugal já devia ter pelo menos dois anos de margem acumulada para lidar com situações adversas. Note-se que quando a economia entrar em recessão, o governo terá de implementar uma política expansionista para absorver parte da quebra na actividade económica. Em vez disso, observamos que durante o pico do ciclo económico, i.e., agora, o governo é incapaz de fazer face às responsabilidades básicas do estado: não tem recursos para lidar com a administração do território; assiste-se a uma deterioração do sistema de saúde; a banca continua com problemas não resolvidos; não há folga para dar aumentos salariais em 2019 mesmo pressupondo um bom desempenho da economia; na educação, é comum o atraso no pagamento de bolsas e o financiamento de projectos depende mais de fundos europeus, etc.Alguém acredita que o tempo das recessões acabou? Reportagem 15  Numa iniciativa inédita em território nacional e, tanto quanto foi possível apurar, também além-fronteiras, a Associação Cívica e Cultural Os Manhões, da vila de Manhões de c., inaugura hoje um LCD comunitário, sito no edifício da antiga escola primária, entretanto desactivada dada a vontade das crianças locais de pôr em prática pelo menos uma parte do ditado deitar cedo e cedo erguer, a saber, a segunda, ou seja, cedo erguer.Crianças e progenitores esperam deste modo que as primeiras venham a ter saúde, já que foi igualmente encerrado o posto médico da vila, e crescer. Este desejo de crescimento, dizem, não deriva de uma qualquer motivação individualista, permitindo este previsto acréscimo de palmos a uns enveredar pela carreira de modelo e a outros optar pela indústria aeronáutica. Trata-se, antes, da concretização de um ideal desinteressado, o de contribuir para a robustez da economia da nação, precisamente fornecendo à contabilidade nativa uma parcela mais. Neste anelo ufanista juntam-se conservadores e liberais, direita católica e esquerda marxista-leninista, e até mesmo a delegação local da Internacional Anarquista, na pessoa do pasteleiro do município. Há quem diga que neste se inspirou um célebre cineasta italiano de quem se aguarda ainda o retrato desta que é uma figura única, qualitativamente mas também quantitativamente, já que o pasteleiro anarquista manhosense não se parece com mais ninguém e não há mais nenhum anarquista, e mais nenhum pasteleiro, na vila. Aqueles que, da direita à esquerda, da ala conservadora à ala liberal, aceitam ingurgitar as madalenas e as filhoses, os pastéis de nata e as bolas de Berlim, as fatias de bolo de bolacha e as lampreias de ovos que diariamente tentam manhosenses de todas as idades, afirmam conseguir separar a dimensão anarquista, portanto política, do artífice e suas criações, da dimensão profissional, portanto apolítica, do visionário e suas facções. Já os que rejeitam deglutir jesuítas e queques, pastéis de massa folhada e fatias de tarte de maçã, rolo de chocolate e húngaros, entendem ser impossível essa separação e estar em risco a sanidade cívica de quem se deixe cair num ardil destinado à assimilação através da sacarose de princípios incompatíveis com a ordem e a segurança públicas. Serão servidos bolinhos de coco e de amêndoa durante a cerimónia de inauguração aqui noticiada.Aprender a aprender O Diário de Notíciasde hoje dá relevo, na primeira página, a uma frase que António Guterres terá proferido ontem, por altura do seu doutoramento honoris causa pela Universidade de Lisboa: que os alunos devem aprender a aprender e não a “marrar nas sebentas” (referia-se, certamente, às suas lembranças de estudante). Aprender a aprender: deve ser esse o desiderato de um processo educativo, sobretudo nos novos tempos, nos quais ninguém pode fazer previsões certeiras a cerca do futuro, mesmo em prazos curtos. À medida que fui crescendo como professor interiorizei essa necessidade, que casa perfeitamente com a flexibilização curricular que defendo. É evidente que a operacionalização de uma aprendizagem para a aprendizagem é diferente para grupos etários distintos, e dentro destes para os próprios aprendentes (termo que não é muito do meu agrado, mas que existe). O último projecto de investigação que coordenei (na sua fase inicial) no Centro da Universidade do Minho a que pertencia antes da minha jubilação tinha como título “Avaliação das Competências do Aprender a Aprender”. António Guterres não é um pedagogo, e não precisaria de invocá-lo como autoridade para reforço do que penso; mas é sempre bom ver que somos acompanhados por pessoas inteligentes e com experiência de vida que lhes permite ter do futuro uma visão diferente.  You’re beautiful! Foi numa Quarta-feira, que, num ímpeto do momento, telefonei à J. para saber se queria ir jantar fora, mas não a apanhei a tempo: estava cansada depois de um belo dia a jogar golfe, coisa que já sentia falta dado o inverno menos ameno que este ano temos tido em Houston. Combinámos para o dia seguinte e fui até casa dela, ao fundo da rua, buscá-la à porta. É raro a J. atrasar-se e, frequentemente, está pronta alguns minutos antes. Saí do meu carro, que tinha há menos de duas semanas, e ela ao vê-lo pela primeira vez imediatamente o admirou. Como tínhamos combinado, entrámos em casa da J. durante alguns minutos para conversar e beber um copo de vinho tinto, o que ela faz todos os dias, religiosamente, às 17h30m. Quando saímos, abri-lhe a porta do carro para entrar e liguei o aquecimento do banco dela na temperatura mínima para a não magoar — aos 92 anos, a pele da J. é frágil e ela toma medicamentos para controlar a espessura do sangue. Depois de, na última vez que visitou a minha casa, o meu cão lhe ter dado algumas nódoas negras só porque a cumprimentou, tento ser mais cuidadosa. Normalmente, a J. gosta de frequentar os restaurantes mais perto de casa, mas eu estava mais inclinada para irmos ao O’Porto Café, um pequeno bistro que serve pratos inspirados em cozinha portuguesa, italiana, e espanhola — é uma bocado fusão mediterrânea, apesar de Portugal não ficar no lado do Mediterrâneo, mas sim do Atlântico. O chefe, no entanto, é filho de um italiano e de uma portuguesa ou talvez seja ao contrário... Gosto de ir a este restaurante. Foi um dos primeiros em Houston que comecei a frequentar quando me mudei para cá, mas uma vez tive uma conversa com uma outra portuguesa que aqui vivia que me dizia que o bacalhau à Brás que era servido lá não era bom: o grande defeito é que não sabia ao bacalhau à Brás que ela fazia em casa. Achei uma crítica estranha porque, quando vou a Portugal, é raro qualquer prato saber ao que nós fazemos em casa, logo para mim é um critério meio-esquisito. Aliás, se eu quisesse que soubesse ao que faço em casa, fazia em casa, não ia comer fora... Mesmo o conceito de saber ao que se faz em casa é ilusório. Uma das minhas melhores amigas em Portugal tinha mãe goesa e muitos dos pratos que ela fazia sabiam a cominhos, o que eu adorava porque, na minha casa, quase nunca se cozinhava com cominhos, ou seja, cada casa tem o seu sabor.Fomos pela Bissonett e a J., que ainda conduz, ficou feliz por não ter de passar pela via rápida que a assusta um bocado. Note-se que, ainda no ano passado, a J. foi a Austin de autocarro sozinha — mais de duas horas de viagem —, logo diverte-me pensar que uma via rápida dentro da cidade lhe causa ansiedade. Antes de chegarmos ao cruzamento da Wesleyan com a Richmond, entrei no parque de estacionamento e fui censurada pela minha companheira, que pensava que eu estava a tentar fugir ao semáforo, mas disse-lhe que tínhamos chegado ao strip mall onde ficava o restaurante. A minha mesa preferida fica junto à janela e nesse dia encontrava-se reservada. Duas mesas de jantar estavam livres: uma a meio do restaurante, outra mais para o interior. Escolhi a que ficava mais longe porque na mesa ao lado estava sentado um casal de pessoas mais velhas, o que achei encantador, pois gosto de observar pessoas: people-watching é um passatempo tipicamente americano!Coube-me escolher o que comer e bebemos água porque já tínhamos tratado do vinho. Como os pratos são mais estilo tapas, achámos melhor partilhar várias coisas. Um dos pratos que escolhi foi pastéis de bacalhau, que são servidos com uma tacinha com molho picante. O molho não é tradicional, nem a J. gosta de picante, mas os pastéis não são maus de todo e ela apreciou-os bastante. Também impressionaram os nossos vizinhos do lado, o tal casal idoso, o suficiente para nos perguntarem o que era: eu respondi e a J., triunfante, explicou que eu era de Portugal e os pastéis de bacalhau eram uma comida tradicional portuguesa. Também petiscámos um queijo de cabra e, no todo, passámos uma noite bastante agradável. Para o final, o homem do casal ao lado disse à J., à frente da companheira, “You’re beautiful!” A J. agradeceu e ele acrescentou que ela tinha qualquer coisa que reluzia. Depois trocaram idades: eles tinham à volta de 87 e a J., com os seus 92, sentiu-se gloriosa: eram uns jovens, dizia amavelmente. Despedimo-nos e regressámos a casa ambas contentes.Nessa noite, pensei no #metoo: num futuro próximo, será possível dizer a uma pessoa desconhecida “You’re beautiful!” sem que se seja acusado de assédio?Procrastinar Há uns dias, deu-me para andar a procurar vídeos da Marlene Dietrich e acabei por ver este filme dela: The Monte Carlo Story (1957), que está completo no YouTube. Já não me recordo o que causou tal busca, mas decerto que foi um ataque de procrastinação. (Eu sei, eu sei, tenho andado ausente, mas escrevo-vos posts na minha cabeça todos os dias -- só não os chego a publicar... My bad!) Pronto, vou deixar-vos outra coisa gira: alguns pedaços da entrevista da Ruth Bader Ginsberg, Juíza do Supremo Tribunal dos EUA, a Poppy Harlow. RBG, como é conhecida, tem 85 anos e está fresca que nem uma alface...Progresso Ontem à tarde, nas notícias dos EUA, enquanto se tentava enquadrar a queda do mercado accionista, que chegou a estar 10% abaixo do máximo histórico, o que faz das quedas da semana passada e desta uma correcção e não apenas uma flutuação, a grande pergunta que se fazia era se o governo federal americano iria fechar outra vez à meia-noite. No All Things Considered, da NPR, entrevistavam-se membros do Congresso do lado dos Democratas e do lado dos Republicanos, num jogo de passa-a-culpa. Joe Crowley, Democrata e Representante de Nova Iorque, entrevistado pela Mary Louise Kelly, dizia que não compreendia como é que os Republicanos, que detêm a Casa Branca e maiorias na Câmara dos Representantes e no Senado, não conseguem passar uma lei de despesa (spending bill). Se eles -- Republicanos-- passaram os cortes de impostos sem os Democratas, o que é que os impede de governar e passar agora esta lei? E rematava: se não conseguem convencer os próprios Republicanos, não contem com os Democratas. Quem presta atenção à coisa, compreende que este argumento era uma crítica indirecta ao Vice-Presidente Pence que culpou o último fecho do governo federal numa "minoria de Democratas", ignorando que a lei falhou no Senado porque cinco Republicanos votaram contra.Coube a Ari Shaphiro entrevistar Mo Brooks, Representante do Alabama, entrando a matar perguntando-lhe sem papas na língua como é que os Republicanos poderiam ser considerados o partido da responsabilidade fiscal, quando Crowley os acusa de aumentar o défice em $300 mil milhões, depois de passarem um corte de impostos de $1,5 biliões longos (são os trillion americanos), em que 82% desse valor irá beneficiar os tais 1% mais ricos. Brooks, na resposta, especulou se o Partido Republicano irá ser mais "um Partido Democrata que aumenta despesa, défices, dívida" e leva o país à falência. A culpa, conclui, é dos os eleitores que elegeram pessoas que são "viciadas em dívida".Quem tem analisado as contas públicas americanas verifica que é ao contrário: os Democratas têm um desempenho melhor do que os Republicanos nas contas públicas. Parte da explicação deve-se a uma questão de atitude: desde Reagan, quando o Presidente é Democrata, os Republicanos no Congresso travam a despesa, mas quando o Presidente é Republicano, nem os Republicanos, nem os Democratas servem de travão. [Por exemplo, tanto Bill Clinton como Barack Obama tiveram um Congresso favorável durante duas sessões, i.e., dois anos, mas George W. Bush teve um Congresso favorável durante 4,5 sessões (anos) e na sua administração houve deterioração das contas públicas: para além de passar cortes de impostos que não estimularam a economia, mas destruíram o excedente da Segurança Social acumulado durante os anos de Clinton, desorçamentou a despesa das guerras que iniciou -- até 2003, todas as guerras dos EUA tinham sido financiadas com um aumento de impostos ao invés de emissão de dívida e a despesa tinha sido contemplada no Orçamento de Estado; com Bush, a despesa das guerras foi mantida em Orçamentos Suplementares (rectificativos) e só foi incluída no Orçamento Geral no início da Administração Obama --, e, antes de sair, Bush aprovou a TARP para combater a crise financeira.] À meia-noite de ontem, não havendo acordo porque Rand Paul, quase-Republicano, se recusou a votar a favor da spending bill, o governo federal começou a fechar -- o segundo fecho em três semanas. Oito horas e meia depois, chegou-se a acordo e o tecto da dívida pública foi aumentado, não sendo necessário revisitá-lo antes de Março de 2019. O nível da despesa também aumentou, inclusive a despesa militar, que tinha encolhido durante a Administração Obama. A lei passou na Câmara dos Representantes com 73 votos a favor de Democratas.Entretanto, há um mês -- já parece há tanto tempo -- Nicki Haley, nas Nações Unidas, tentou convencer os outros países que o Irão está em violação da resolução do Conselho de Segurança e os EUA têm "undeniable" evidence. Lawrence Wilkinson, que ajudou a escrever o discurso que Colin Powell deu nas Nações Unidas fez esta semana 15 anos, em que foi argumentado que os EUA tinham provas de que o Iraque tinha "weapons of mass destruction", acha que os EUA estão a pensar em invadir o Irão. Ainda bem que a Administração Trump conseguiu autorização para gastar mais. Felizmente, já sabemos como isto irá (não) terminar e poderemos acautelar-nos. Só falta notar que as coisas são aproximadamente duas vezes mais rápidas com Trump do que com Bush: a isto chama-se progresso!How they met themselves Elizabeth Siddal foi uma supermodelo que inspirou a parte mais importante das obras com interesse dos pré-rafaelitas. Gabriel Rossetti foi por sua vez um dos mais inspirado dos pré-rafaelitas, e manteve com a Elizabeth uma relação conturbada de doze anos, que viria a culminar com o suicídio dela com uma overdose de opiácios (tese que o Oscar Wilde viria a desafiar, sugerindo que foi Rossetti que a matou). No início da relação, em 1850, Rossetti começou a pintar um quadro que só viria a terminar praticamente no fim da relação com Elizabeth. Este dado é curioso – Rossetti foi um dos pintores mais produtivos dos pré-rafaelitas. Completou várias dezenas de quadros de Elizabeth e, quando estava apertado de dinheiro, pintava como se não houvesse amanhã. No entanto, demorou dez anos a terminar este quadro particular – um quadro aliás bastante medíocre, quando comparado com todos os outros que o tornaram famoso, e que hoje está literalmente escondido num museu em Cambridge (tem de se fazer marcação para poder vê-lo, numa cave). O quadro representa o próprio casal a encontrar-se consigo mesmo. Passeando num bosque, Rossetti e Elizabeth dão de caras com duas pessoas iguais em tudo a eles próprios, e têm uma reacção meio aparvalhada: ele desembainha a espada, sem que se perceba se é para atacar ou se defender; ela perde os sentidos. Olhando para o futuro, a partir de quando começou a ser pintado, ou para o passado, a partir de quando foi terminado, este quadro faz igualmente sentido. A partir do 1850, olhando para a frente, poderia refletir as ansiedades da paixão e as suas milhentas contradições – se for verdade que nos apaixonamos pela nossa imaginação do outro, e não por ele mesmo, o maior medo deve ser darmos de caras com a realidade. A partir do 1860, olhando para trás, refletiria o imenso choque perante o que falharam em se tornar – ela, que tinha o talento suficiente para ser patrocinada pelo crítico de arte mais conhecido do século XIX, mas que nunca veio a criar nada de memorável (quem é que hoje sabe quem ela é?); ele, que a manipulou para a tornar vulernável e dependente dele, e acabou por carregar com o peso dela nos braços. Se calhar o quadro também faz sentido se olharmos para ele como uma premonição final, dado que Rossetti viria em falhar em proteger Elizabeth de si própria (se ela se matou), ou de ele mesmo (se Oscar Wilde tiver razão). É uma obra tão maravilhosa como medíocre. Ouro puro O Gregory Dunne, aquele rapaz que entrou no filme "Who's That Girl?" com a Madonna, fez um documentário sobre a sua tia, a Joan Didion, que é tão bom, tão bom! Está no Netflix e chama-se "The Center Will Not Hold". Há uma parte que é descrita em baixo, nesta peça da The New Yorker, da qual me lembro nitidamente porque quando ouvi a resposta de Joan Didion fiquei estupefacta com a franqueza, mas também fiquei cheia de curiosidade de ler a senhora. "In one of several genial interviews, Dunne asks Didion about an indelible scene toward the end of her Haight-Ashbury essay—which, as any student who has ever taken a course in literary nonfiction knows, culminates with the writer’s encounter with a five-year-old girl, Susan, whose mother has given her LSD. Didion finds Susan sitting on a living-room floor, reading a comic book and dressed in a peacoat. “She keeps licking her lips in concentration and the only off thing about her is that she’s wearing white lipstick,” Didion writes. Dunne asks Didion what it was like, as a journalist, to be faced with a small child who was tripping. Didion, who is sitting on the couch in her living room, dressed in a gray cashmere sweater with a fine gold chain around her neck and fine gold hair framing her face, begins. “Well, it was . . .” She pauses, casts her eyes down, thinking, blinking, and a viewer mentally answers the question on her behalf: Well, it was appalling. I wanted to call an ambulance. I wanted to call the police. I wanted to help. I wanted to weep. I wanted to get the hell out of there and get home to my own two-year-old daughter, and protect her from the present and the future. After seven long seconds, Didion raises her chin and meets Dunne’s eye. “Let me tell you, it was gold,” she says. The ghost of a smile creeps across her face, and her eyes gleam. “You live for moments like that, if you’re doing a piece. Good or bad.”Fonte: The New Yorker, 27/10/2017Malandragem! No dia 23 de Janeiro, comprei filme para a minha Fujifilm Instax Mini na Amazon: seis pacotes de 20 fotos cada, totalizando $85.86. Como sou forreta escolhi a entrega grátis, que é a que demora mais tempo. Entregaram hoje, ao Domingo, enquanto eu estava na sala a desfrutar o meu café, poucos minutos depois de ter terminado o último post aqui no blogue. Ele há muita malandragem no mundo: então a senhora que me veio entregar o pacote não tinha nada que estar a trabalhar a estas horas e que companhia tão mal-gerida, que demora menos de uma semana a entregar uma coisa ao cliente — o pacote veio de Las Vegas, no Nevada, que fica a mais de 2300 Km de mim, ou seja, são mais de 21 horas de carro, mais tempo para dormir, refeições, etc. Em Portugal, que é um país pequenito, mas mais eficiente e civilizado, demoraria muito mais tempo. (Des)igualdades Não entendi as notícias sobre a creche dos miúdos dos trabalhadores da Auto-Europa. Já percebi que há quem ache mal que se trabalhe ao Sábado, mas quem é que vai trabalhar ao Sábado para tomar conta dos putos? Também gostaria de saber se os trabalhadores da Auto-Europa que são “prejudicados” por trabalhar ao Sábado são maioritariamente homens, enquanto que os trabalhadores que são “beneficiados” por trabalhar em creches ao Sábado são maioritariamente mulheres. Já agora, acho que todos os portugueses deviam assinar um compromisso dizendo que, daqui para diante, só terão acidentes e ficarão doentes durante o horário normal de trabalho. Ao final de Sexta-feira, os doentes hospitalizados terão de ir para casa e só regressar ao hospital na Segunda-feira de manhã. Ah, e nada de frequentar transportes públicos, centros comerciais, cinemas, museus, restaurantes, cafés, etc. ao fim-de-semana porque toda a gente tem o direito a desfrutar de tempo com a família.Engolir a pílula “Pais e filhos”, publicado em 1862, é o melhor romance de Ivan Turguéniev (1818-1883) e um dos melhores do século XIX. Nikolai Petróvitch ouve por acaso uma conversa entre o seu filho Arkádi e o amigo Bazárov, um niilista radical – é, sem dúvida, a grande personagem do livro. Bazárov diz: “O teu pai é boa pessoa, mas é um homem antiquado, o tempo dele já passou.” Estas palavras desanimaram o “velho” Nikolai, na altura com quarenta e poucos anos. Apesar de viver no campo, este aristocrata generoso e culto esforçava-se por se manter actualizado e a par das modas intelectuais e políticas, havia lido os grandes autores, autores que a juventude via agora com desdém, considerando-os inúteis e uma perda de tempo. Nikólai desabafa então com Pável, o seu irmão mais velho: “Sabes do que me lembrei mano? Uma vez discuti com a nossa falecida mãe: ela gritava, não me queria escutar… Eu por fim disse-lhe: «a mãe não me pode compreender, pertencemos a duas gerações diferentes.» Ela ficou horrivelmente ofendida, e eu pensei: que fazer? A pílula é amarga, mas é preciso engoli-la. Pois agora chegou a nossa vez, e os nossos herdeiros também nos podem dizer: vocês são de outra geração, engulam a pílula.”Turguéniev captou de forma genial uma questão intemporal. De uma forma ou outra, tarde ou cedo, temos de engolir a pílula. É a vida.Contra a democracia Em 2016, antes ainda da vitória de Donald Trump, Jason Brennan publicou o seu provocatório “Against Democracy”. Brennan parte de uma premissa: em geral, os votantes são uns ignorantes – os americanos, mas não há nenhum motivo para acreditarmos que os do resto do Ocidente são melhores. O cientista político vê a sociedade americana dividida em três grandes grupos. Os hobbits são as pessoas desinformadas, não sabem nem querem saber dos assuntos públicos e deviam abster-se de qualquer responsabilidade política – nos EUA correspondem, grosso modo, aos abstencionistas, mais de 40% do eleitorado. Os hooligans acompanham as notícias da política como quem acompanha as notícias do seu clube de futebol, ou seja, de forma completamente enviesada. Por fim, os vulcanos estudam os assuntos políticos com objectividade, ouvem os outros e ajustam se necessário as suas opiniões. Estamos perante tipos-ideais, para usarmos a terminologia de Max Weber. De qualquer maneira, a larga maioria dos americanos é hobbit, hooligan ou fica algures entre os dois.Brennan evoca uma esperança de John Stuart Mill segundo a qual o envolvimento dos cidadãos na política seria uma forma de os iluminar – um maior envolvimento político dos cidadãos desenvolveria as suas competências em termos de pensamento crítico e aumentaria o seu conhecimento, fazendo deles melhores cidadãos. Usando a classificação de Brennan, o filósofo e economista inglês acreditava que os hobbits se poderiam transformar em vulcanos. Uma esperança piedosa. 150 anos e muitas décadas de massificação do ensino depois, o próprio Mill, se voltasse a este mundo, teria perdido as suas esperanças. O mais surpreendente nesta história é a estabilidade e a persistência da ignorância. E de nada serve o acesso à informação política se ter tornado muito mais fácil e barato, acrescenta Brennan. Posto isto, Brennan acha que não vale a pena continuarmos a alimentar ilusões sobre os eleitores. Pior, à semelhança de Joseph Schumpeter, acredita que a política faz mal às pessoas, corrompe-as ou estupidifica-as. O cidadão mais ativo politicamente tem usualmente opiniões fortes, raramente fala com os que têm opiniões diferentes e revela altos níveis de enviesamento quando discute ou participa na política. A participação política tende a dividir a sociedade em grupos adversários, em tribos que se digladiam. Ao contrário do que clamam, ou aspiram, autores como Jürgen Habermas, a discussão e a deliberação políticas não se pautam pela força do melhor argumento. O que realmente importa é a retórica, o sex appeal, e “promoting the team”. Numa palavra, a participação política tende a transformar os hobbits em hooligans e os hooligans em hooligans ainda piores.Brennan não vê os hobbits como um sinal preocupante da saúde da democracia, mas sim como um começo prometedor. Se o envolvimento político tende a corromper em vez de edificar, então o afastamento é preferível ao envolvimento político. Seja como for, as pessoas não se vão tornar mais interessadas ou informadas. Isto porque existe uma racionalidade nessa ignorância política, conforme explicam os economistas com a chamada ignorância racional. A democracia não compensa os cidadãos do esforço e tempo necessários para se manterem informados: os indivíduos sabem intuitivamente que o seu voto individual não faz qualquer diferença – não tem influência nos resultados finais de uma eleição, nem nas políticas do governo. Por isso, os que votam fazem-no por verdadeira convicção, o que vai completamente contra a teoria muito invocada do voto individual egoísta, ou seja, do voto em função da carteira estar mais ou menos cheia de dinheiro.Perante esta irremediável ignorância e irresponsabilidade dos eleitores, a maioria acaba, muitas vezes, por impor ao resto da população políticas perversas e perigosas. Os resultados só não são piores porque as democracias amiúde, devido nomeadamente ao sistema de poderes e contrapoderes, se afastam da vontade da maioria, levando a que os governantes não cumpram as suas promessas. De qualquer maneira, um eleitorado maioritariamente ignorante e irresponsável levará a uma deterioração contínua do sistema, com a qualidade dos candidatos a baixar. E Brennan considera injusto depositarmos o nosso futuro nas mãos de cidadãos irresponsáveis. É como se fossemos obrigados a ser operados por um cirurgião incompetente.Para Brennan, o valor da democracia é puramente instrumental. A democracia “is nothing more than a hammer”. Se pudermos encontrar um martelo melhor, devemos usá-lo. O cientista político americano defende uma “epistocracia”, um modelo insinuado por Platão e Mill, no qual o poder político é formalmente distribuído de acordo com as qualificações e a competência. As pessoas deixariam, assim, de ter garantida a igualdade de direitos em termos de voto e de candidaturas a cargos políticos.Brennan nega que a sua fórmula seja totalitária ou sequer parecida com uma tecnocracia autoritária, porquanto não se trata de entregar o poder a especialistas ou aos melhores, mas sim de afastar os piores. No fundo, toda a argumentação do filósofo norte-americano assenta em probabilidades: uma maioria democrática tem mais ou menos probabilidades de escolher políticas erradas do que um público informado, racional, competente e responsável? O autor não tem dúvidas na resposta - apesar de admitir que também se podem gerar abusos de poder numa epistocracia, A epistocracia preconizada por Brennan levanta, todavia, várias questões. Primeira, alguns estudos sublinham as insuficiências e falhas dos mais conhecedores e informados, ou seja, os especialistas. Segunda, quem e como se decide quem faz parte do público bem-informado e competente? Terceira, com que critérios se decide se uma política é boa ou má? Quarta, é legítimo reduzir a democracia a um problema de informação e competência, ignorando a dimensão identitária do voto? Quinta, e recorrendo a uma metáfora de John Dewey, quando temos um problema com os sapatos, é o especialista que o pode resolver, mas apenas o povo é que sabe onde é que lhe doem os pés.Talvez o mais inquietante e significativo seja mesmo o título do livro: “Against Democracy”. Um aviso de que nada é eterno.Alternativas Na Terça-feira, fui ao Tribunal da minha cidade para ser seleccionada para o júri de um julgamento. Não contei o número de pessoas que lá estavam, mas deviam ser mais de 30 porque estava programado haver quatro julgamentos, mas três foram cancelados -- cada julgamento precisa de 6 pessoas no júri, mas temos de ter em atenção que algumas saem porque têm conflitos de interesse, outras são excluídas pela defesa ou pela acusação. Surpreendeu-me que, no meio de tanta gente, quase todos fossem brancos e predominantemente homens. Uma das formas de sermos desculpados do "dever de ser jurado" (traduzo assim "jury duty") é ter ao nosso cuidado uma criança de 12 anos ou mais nova, logo este critério deve excluir muitas mulheres. Eu devia ser a mulher mais jovem que lá estava e, para minha surpresa, fui a única seleccionada para participar no julgamento. Como nunca tinha sido chamada para uma coisa destas, para mim foi uma experiência educativa, que ainda estou a processar. Recordei-me de um episódio que me aconteceu há uns anos, em que um colega meu, ao falar da evolução dos preços de uma commodity disse que havia três alternativas: ou o preço subia, ou descia, ou ficava na mesma, logo 33,3% para cada lado. Quando ele disse aquilo, tive uma reacção visceral imediata porque a probabilidade de um preço ficar na mesma de um dia para o outro é quase nula, logo os 100% são quase na totalidade divididos entre ou vai para baixo ou vai para cima. Mas aquele erro é muito comum... Agora que penso nas escolhas do veredicto, pergunto-me que impacto terá na forma como as pessoas processam as suas alternativas. No caso da multa, os veredictos possíveis eram "guilty" ou "not guilty", mas o "guilty" tinha também a possibilidade de escolha de uma multa que ia de um mínimo de $1 a um máximo de $200. Quando o advogado de defesa instruiu o júri, disse-nos que perante a lei nós tínhamos de presumir inocência, logo qualquer dúvida devia dar um veredicto de "not guilty". Só que não é bem o caso porque o veredicto tinha de ser unânime, logo todos os jurados tinham de reconhecer ter uma dúvida para concluir "not guilty".O caso era insignificante: uma multa por conduzir a 70 milhas por hora, numa área em que o limite está assinalado como sendo 60. No Texas, não há limite de velocidade máxima, mas temos de conduzir a uma velocidade que não é “unreasonable and imprudent under the circumstance then existing”. Se está assinalado um limite, entra em consideração a questão de limites de velocidade "prima facie", em que velocidades acima desse limite podem não ser prudentes ou razoáveis -- ou seja, é necessário avaliar as condições.No julgamento, tivemos oportunidade de ver o vídeo da polícia em que a pessoa acusada ultrapassa os 70 mph por uns segundos e é parada pela polícia. Na minha opinião, não achei a velocidade perigosa, aliás estava tudo a conduzir a mais de 60 mph, quase a 70 mph, inclusive um camião, que penso colocar um risco maior, mas a minha dúvida, que era partilhada por outra pessoa, não foi suficiente para absolver porque há quem ache que 70 mph é o limite de perigoso. Dizia eu aos meus colegas que havia um carro à frente que ia mais rápido do que o da pessoa acusada, logo a velocidade da pessoa acusada inseria-se no argumento de "flow of traffic", só que me responderam que esse carro ia muito mais à frente e estava mais longe da polícia e alguém cometer uma violação e safar-se não serve de desculpa para safar quem é apanhado. Tenho a ligeira sensação de que o meu papel de refilona não serviu a justiça; apenas serviu para minimizar a injustiça. O meu opositor principal disse-me que, se eu aceitasse dar um veredicto de "guilty", ele aceitaria dar uma multa de $1. Pensei nas alternativas: a pessoa ia a tribunal outra vez e corria o risco de ser culpada e ter uma multa maior ou não ia a tribunal e pagava a multa, que é mais de $1. Aceitei mudar o meu veredicto em troca da multa mínima. No final, o homem que me opôs perguntou-me o que eu fazia: sou economista.Um outro senhor, muito mais discreto do que eu e que também estava disposto a dar o veredicto de "not guilty", veio ter comigo no final e disse que aquilo era o melhor que podíamos ter feito dada a composição do júri e sugeriu que déssemos os $6 que cada um recebeu em troca do nosso serviço à pessoa acusada e que lhe disséssemos "We're sorry, but this is the best that we could do under the circumstances". Assim fizemos e entregámos os $12.Mas continuo insatisfeita e com vontade de refilar: estou a avaliar as minhas alternativas... A morte da perícia Tom Nichols publicou The death of expertiseem 2017, depois do Brexit e da vitória de Donald Trump. Para Nichols, a morte da expertise não é sinónimo de um saudável cepticismo em relação aos especialistas. A morte da perícia é, antes de mais, um rancor ou ressentimento dos leigos para com os especialistas. Nesta fase pós-industrial, todos os cidadãos acreditam ser especialistas em tudo e mais alguma coisa.Perante a morte da perícia, a explicação recorrente é acusar a internet. De facto, a internet é um extraordinário repositório de conhecimento e, ao mesmo tempo, uma fonte de conhecimentos errados. Mas esta explicação é demasiado simples. Os ataques ao conhecimento estabelecido têm uma longa história. A internet é apenas o elemento mais recente num problema com raízes profundas. Assim, além da internet, Nichols identifica mais três grandes causas da morte da perícia: as fraquezas humanas (a aversão à ambiguidade e à dissonância; a crença, bastante enraizada, num mundo ordenado) que nos levam a cometer erros sistemáticos (enviesamentos); a educação; e o novo jornalismo. A educação poderia ser a solução de problemas como o “enviesamento da confirmação” ou das falhas e lacunas de conhecimento dos cidadãos. Infelizmente, a educação faz hoje parte do problema. O estudante é tratado como um cliente. O cliente paga e tem sempre razão. Esta tendência gerou efeitos altamente perversos. A necessária humildade do bom estudante deu, muitas vezes, lugar a uma arrogância sem fundamento, acompanhada de um conhecimento ilusório. Os estudantes não desenvolvem hábitos de autocrítica que lhes permitam continuar a aprender e a avaliar as complexas questões sobre as quais terão de deliberar e votar como cidadãos.Por fim, os jornalistas profissionais enfrentam novos desafios na era da informação. No meio altamente competitivo dos media, os editores e produtores não têm mais a paciência – ou os meios financeiros – para permitir aos jornalistas desenvolverem a sua própria perícia ou um conhecimento mais profundo dos assuntos. Para mais, não há sequer provas de que a maioria dos consumidores esteja interessada em muitos detalhes. E as pessoas envolvidas na indústria das notícias sabem hoje que, se as reportagens não entreterem o suficiente, o público pode facilmente encontrar outras com um simples clique.O desprezo pelos especialistas está a minar a democracia, conclui Nichols. Os representantes eleitos não podem dominar todos os assuntos e, por consequência, irão precisar sempre dos especialistas e de outros profissionais. Os especialistas aconselham; os líderes eleitos decidem. Para julgar o desempenho dos especialistas e as decisões dos políticos, os cidadãos devem familiarizar-se com os assuntos em questão. Tal não significa um estudo profundo sobre as políticas, mas exige interesse em obter uma literacia básica nos assuntos que afectam as suas vidas.Quando os cidadãos se afundam na ignorância, perdem o controlo das decisões importantes. Pior, a democracia pode ser sequestrada por demagogos ignorantes ou as instituições democráticas podem, paulatinamente, cair na decadência. A democracia pode transformar-se numa tecnocracia autoritária. E este último ponto leva-nos ao "elitismo" - uma espécie de populismo virado do avesso - e ao livro “Against democracy” do cientista político norte-americano Jason Brennan de que falarei noutra oportunidade.Contos zen para crianças boas 80 1.      Cavalgamos por aquele bosque cerrado, até chegarmos a uma clareira pequena, após atravessarmos um rio veloz, com os nossos cavalos já cansados, porque lutámos contra ursos e cavalgamos desde madrugada, sob a ameaça dos lobos, para chegarmos ainda nessa noite, ou entre a noite e a alvorada, sem parar um minuto que seja, nem perante o evidente cansaço dos cavalos, nem por causa de uivos aterradores, ou de árvores fantasmagóricas, à clareira pequena onde nos espera refúgio de ursos e lobos, alimento para cavalos e uma cama merecida junto a uma fogueira crepitante. Não somos salteadores, nem príncipes. As aventuras acontecem a qualquer pessoa.Um mal bastante disseminado e democratizado “Madoff: Teia de mentiras” (The wizard of lies) é o melhor filme que se fez até ao momento sobre a tragédia Madoff. Barry Levinson é um realizador competente, um bom artesão. Robert De Niro e Michel Pfeiffer cumprem bem o seu papel de casal Madoff. Em Dezembro de 2008, Madoff revelou à família a enorme fraude que andara a urdir durante mais de 16 anos. Foram os filhos que o entregaram à justiça, apesar de Madoff declarar várias vezes que se entregaria de qualquer maneira. Antes de mais, o filme centra-se na tragédia familiar. Os dois filhos morreram, entretanto. O mais velho suicidou-se com 46 anos em 2010. O mais novo morreu em 2014 de cancro, com 48. Madoff, agora com 79, espera pela morte na prisão. A mulher, Ruth, deixou de lhe falar e foi abandonada e ostracizada por todos, excepto por uma irmã, ela própria vítima das vigarices do cunhado. O filme aborda, de raspão, a incompetência dos reguladores, os quais não cruzam informação entre si, e são ingénuos ao ponto de acreditarem na palavra de um vigarista - onde é que já vimos este filme?Madoff deixa no ar a pergunta se é ou não um sociopata. Claro que é, como o são muitos desses gurus empresariais e da alta finança. Gente especialista em contornar regras, atreitos a correr grandes riscos e sem um pingo de remorsos nas veias. A diferença de Madoff é que confessou e, por isso, está preso – a justiça americana também não é bem essa maravilha que às vezes se diz. Os outros sociopatas, os que puseram a economia mundial à beira do precipício, foram os primeiros a erguer-se e, muitas vezes, a aproveitar-se dos destroços que eles próprios provocaram.Madoff diz várias vezes que o problema é a ganância das pessoas. Ele próprio recomendava aos seus clientes que não investissem mais de metade do seu dinheiro nos seus fundos. Mas os clientes não resistiam. Queriam mais e mais, e depois muitos ficaram a arder, sem nada. Isto não iliba nem desculpa Madoff, claro. Mas é um problema que muitas vezes nos esquecemos ou preferimos ignorar. Preferimos atribuir a culpa toda aos Madoffes deste mundo – ele bem se queixa, com alguma razão, que foi transformado no bode expiatório de todo o sistema. Estes vigaristas aproveitam-se das fraquezas humanas, e uma delas é a ganância, um mal bastante disseminado e democratizado. Infelizmente.Uma ideia, não uma raça Quando o Presidente Trump acusou alguns países de serem "shitholes" e questionou porque é que os EUA não atraíam mais pessoas da Noruega, a pessoa que o opôs foi Lindsey Graham, um senador republicano da Carolina do Sul que disse "A America é uma idea, não é uma raça" e ofereceu a diversidade dos EUA como uma força, em vez de uma fraqueza. Ontem, na Marcha das Mulheres, em Houston, o Mayor da cidade, Sylvester Turner, um homem democrata e negro, afirmou o mesmo no seu discurso. Houston é a cidade com mais diversidade dos EUA: uma em cada quatro pessoas nasceu noutro país e os residentes de Houston falam mais de 140 línguas. "A causa é justa", disse, acerca da motivação da Marcha das Mulheres, mas diversidade é apenas uma condição necessária, não é uma condição suficiente para honrar os valores mais altos pelos quais marchamos. Também é necessário que haja inclusão, alertou o Mayor, que todos tenham representação democrática: que haja maior diversidade nos candidatos, no voto, e na eleição e nomeação de pessoas. É importante que todos os residentes encontrem uma forma de participar na construção do futuro da cidade para que o processo de inclusão seja aprofundado. Nesse aspecto, apresentou Houston como um farol para o resto do país: o futuro dos EUA é tornar-se ainda mais diverso e inclusivo, não há como parar este movimento e quem o opuser estará do lado errado da história. Quem olha para a Marcha das Mulheres e acha que para os americanos é suficiente que haja mais mulheres no governo não compreende a natureza dos EUA. A causa da Marcha das Mulheres é elucidativa: procuram-se candidatos, homens e mulheres, de raças e etnias diferentes, de orientação sexual diferente, de estratos sociais diferentes, etc. Ser mulher não é suficiente. Aliás, é essa uma crítica que se faz à Casa Branca de Trump: não há diversidade étnica, nem racial, nem socio-económica. Omarosa Manigault-Newman, uma mulher negra assessora de Trump na Casa Branca, que era uma linha de defesa contra esta crítica, demitiu-se recentemente. Em fotografias oficiais, o Presidente Trump rodeia-se de mais homens, quase todos brancos, em contraste com as fotos da Administração Obama -- a equipa de Trump contem mais homens do que as equipas dos últimos seis presidentes. A 20 de Março irão realizar-se as eleições primárias para as mid-terms de 2018, nos EUA. Nessa altura, poderemos avaliar se a mensagem de diversidade e inclusão está a ganhar força.Oposição construtiva Depois de Rui Rio ter ganhado a liderança do PSD, o Primeiro Ministro António Costa afirmou que a oposição de Rui Rio não seria "seguramente difícil" de ser melhor do que a de Pedro Passos Coelho e desejou que fosse uma "oposição construtiva". "Oposição construtiva" dito por António Costa parece-me um oxímoro, pois, do ponto de vista dele, algo construtivo não pode ser oposto ao que ele quer e algo oposto não pode ser construtivo. Senão, vejamos: se a oposição de Rui Rio é vista como construtiva por António Costa, significa que o Governo está a fazer alguma coisa que precisa de ter oposição e se esta oposição é construtiva, então a coisa que está a ser feita não deve ser muito boa. Nesse caso, se a coisa não é boa por que é que António Costa a defende? Mas se ele acredita em "oposição construtiva", certamente que a praticou quando Pedro Passos Coelho era Primeiro-Ministro, logo seria importante que algum jornal ou TV nos fizesse uma revisão do que é "oposição construtiva" segundo António Costa enquanto líder da oposição. Recordo-me que, quando António Costa subiu ao poder, ninguém percebeu o que iria ser um governo dele. Faz, no entanto, sentido falar-se em "oposição construtiva" do ponto de vista dos cidadãos. Pessoalmente, prefiro situações em que todos os partidos são fortes e têm pessoas competentes que consigam articular os diferentes pontos de vista do eleitorado. É lógico que é impossível agradar a toda a gente, mas haver forças opostas significa que o país seguiria um caminho mais regrado, em que os excessos são improváveis. Espero que Rui Rio consiga aumentar a qualidade do debate político em Portugal. A primeira tarefa é controlar a mensagem do PSD, um partido que passa demasiado tempo a lavar roupa suja em público e descura o estudo e a proposta de políticas alternativas. Não é suficiente estar na oposição para se fazer oposição. É preciso conhecer o país e o mundo em que nos inserimos, identificar riscos e oportunidades, e ter planos de curto e de longo prazo. A curto prazo, é preciso compreender os pontos fracos da política proposta pelo governo e oferecer alternativas, mas deixem-se do pseudo-liberalismo esquizofrénico e do moralismo anacrónico a que nos habituaram. Uma forma fácil de ser alternativa ao PS é melhorar a qualidade dos deputados do PSD: diversidade etária, de género, de percurso profissional, etc. Invistam em pessoas com valor que sejam bons líderes hoje, mas que também possam liderar no futuro, em vez de andarem a fabricar pessoas como Miguel Relvas. E liberalizem os votos da bancada do PSD no Parlamento: deixem que os deputados votem com a sua consciência -- note-se que é necessário que tenham consciência -- e incentivem o contacto dos deputados com o eleitorado. Com a Internet não é assim tão difícil e caro de fazer. O PSD precisa de demonstrar que está no Parlamento para servir o povo que representa e não para tratar da vidinha dos do costume. Domingo: Power to the Polls No próximo Domingo, irá celebrar-se o primeiro aniversário da Women's March on Washington, D.C., que foi um evento que mobilizou pessoas por todo o mundo: foi apenas a maior manifestação colectiva de sempre. Irá haver outra marcha, no Domingo, que terá vários propósitos: o primeiro é o de celebrar a Women's March; o segundo é o de marcar o início oficial do movimento "Power to the Polls, cujos objectivos incluem aumentar a participação das mulheres na vida política dos EUA, aumentando o número de candidatas para as eleições de Outubro de 2018 (as mid-terms), e também aumentar a participação política em distritos críticos para mudar a orientação do Congresso americano.Tal como no ano passado, irá haver uma marcha principal, desta vez em Las Vegas, Nevada, que foi o local do tiroteio que matou 58 pessoas e feriu mais de 500, em 2017, e outras marchas de solidariedade por todo o mundo. Portugal não tem nenhuma marcha registada, mas um de vós pode organizar uma no sítio onde vive. Se o fizerem, não se esqueçam de registar o evento na página oficial do Power to the Polls.Óptimos "How do you drive to Memphis?!?" perguntou a J. Respondi-lhe "Drive to Texarkana, then Little Rock, AR, turn east and go until you hit Memphis." Fazia-lhe confusão que eu fizesse um percurso tão longo de carro, quando ela, com 92 anos nunca tinha sequer tomado uma refeição num restaurante sozinha -- a culpa era do marido, diz-me ela frequentemente, que a tinha mimado demasiado e, mesmo após ele morrer, há mais de 10 anos, ela apenas come fora acompanhada. São quase 950 Km pela rota mais curta; mas nos EUA distâncias assim são normalmente medidas em termos de horas. Se não há trânsito em Houston e em Memphis e não há muitas obras na auto-estrada, consigo fazer o percurso em cerca de pouco mais de 10 horas, incluindo paragens para meter gasolina e comer, mas só posso comer fast food. Se comer uma refeição completa, e eu gosto sempre de parar pelo menos uma vez no Cacker Barrel durante as minhas roadtrips, demoro mais uma meia-hora, pelo menos.No Domingo passado, quando regressei a Houston, completei o percurso em 9 horas e 53 minutos, o meu melhor tempo. Saí de Memphis depois das 13 horas e parei para verificar a pressão dos pneus. Pensei em almoçar dentro da cidade, mas como já era tarde e ainda estava cheia do pequeno-almoço tardio que tomei em casa de uma amiga, achei melhor fazer-me à estrada. Não resisti, no entanto, a descer a Poplar Av. até à baixa, em vez de adoptar uma das circulares. Demora mais, mas é uma das minhas ruas preferidas porque atravessa a cidade. Talvez tenha sido um erro não ter almoçado porque, entre Memphis e Little Rock, não há quase nenhum sítio de jeito onde parar. Enquanto ruminava a sensatez da minha decisão, vi a saída para Palestine, AR, população 681, no census de 2010, e decidi parar, encher o depósito do carro e comer. Dentro do Love's -- a bomba de gasolina --, havia pouca escolha, mas resignei-me em comer no Chester's Chicken, cujo menu estudei durante vários minutos. Há quem escolha comida pelo preço, mas eu costumo escolher pelas calorias e, como no Natal comi doces a mais e fiquei bastante doente, também tentei escolher algo que não tivesse muito trigo. Decidi que dois panados de frango, cole slaw, e uma taça de fruta seriam um bom almoço. Cole slaw é uma salada de couve branca crua cortada em julienne, cenoura, e um molho (normalmente vinaigrette ou maionese).Quando chegou a minha vez, fiz o pedido: "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl", ao que o rapaz, que era magro e desenvolto, falando com um sotaque do sul pronunciado, respondeu "three-piece meal or six-piece?" Repeti "two chicken tenders, cole slaw, and a fruit bowl" e ele repete a mesma coisa "three-piece meal or six-piece?" e diz que não vou poder comprar "two chicken tenders". Olho outra vez para o menu e está lá o preço individual dos itens: volto a pedir e ele volta a recusar-se. Desisto e digo "three-piece meal" -- pronto, lá se vão as calorias para o galheiro e ainda por cima a refeição traz um "biscuit", que é um pão de buttermilk, com 400 calorias, apenas um terço das minhas calorias diárias... O empregado explica-se "I'm not trying to be difficult, but you can get everything you want in a meal and it's cheaper. I'm just trying to save you money." O homem que está atrás de mim na fila comenta o empregado ser obstinado. Digo-lhe que o dinheiro é meu e tenho o direito de gastar como me apetecer, mas de nada vale. Pago a refeição, agarro na comida e vou sentar-me numa mesa. Na TV, falam do ritual do chá no Reino Unido; no alti-falante anunciam quando os duches estão livres para os camionistas. Não comi tudo; guardei parte para o jantar e foi por isso que demorei menos de 10 horas a conduzir de Memphis a Houston. Nem sempre o cliente tem razão. De vez em quando, há um puto esperto que acha que sabe optimizar o consumo dos outros e acaba poupando-lhes tempo...Fall in love “Fall in love with some activity, and do it! Nobody ever figures out what life is all about, and it doesn't matter. Explore the world. Nearly everything is really interesting if you go into it deeply enough. Work as hard and as much as you want to on the things you like to do the best. Don't think about what you want to be, but what you want to do. Keep up some kind of a minimum with other things so that society doesn't stop you from doing anything at all.”― Richard FeynmanA new day is on the horizon O futuro a retalho Daqui a algumas semanas vamos conhecer a importância deste Natal que passou, quando as estatísticas das compras de Natal forem conhecidas. Com a popularidade das compras online, o comércio em lojas físicas tem diminuído e bastantes lojas têm fechado. Em Portugal, não há tanto o hábito de fazer compras online, mas a avaliar pelos acontecimentos da semana passada, em que muitas pessoas tiveram dificuldade na entrega das prendas que compraram online, podemos concluir que é um tipo de comércio que irá crescer.A forma como as pessoas estão a fazer compras está a mudar e não é apenas em termos de comprar online vs. comprar numa loja física. A experiência da compra também está a mudar. Há várias tendências que estão a aparecer. Uma delas é as compras por subscrição, em que o cliente recebe regularmente um pacote com vários produtos, desde produtos de beleza (Birchbox, Ipsy, Julep, Play! by Sephora, etc.) a artigos de papelaria (STICKII Club, Pipsticks, The Planner Addict Box, Creative Mercantile), passando pela comida (Blue Apron, HelloFresh, etc.)Mesmo na roupa há serviços de "compras" através de subscrição, mas não é bem compras. A pessoa recebe uma caixa com itens, fica com os que lhe interessam e devolve os restantes (Stitch Fix, Fabletics, etc.). Este modelo não é universal, pois por vezes não é necessário comprar, é mais tipo um "aluguer" de roupa ou acessórios (Le Tote, Rent the Runway, etc.). Asvantagem de alguns destes serviços é o atendimento personalizado, em que há um "personal stylist" que faz a selecção para a pessoa. É claro que isto é um bocado exagerado, pois o atendimento não é tão pessoal como quando vamos a uma loja, mas quando vamos a uma loja, raramente nos pomos completamente nas mãos da vendedora. É interessante que alguns destes serviços sejam oferecidos internacionalmente, desde que a natureza do produto o permita, o que dá acesso a uma gama mais alargada de escolhas para o cliente, mas também tem implicações em termos de impostos. Se uma empresa importa coisas para vender num país, o volume que importa é tal que estará sujeito a taxas de alfândega; mas se cada indivíduo importa uma pequena caixa mensalmente, por exemplo, então poderá não ser o suficiente para ter de pagar taxas alfandegárias. Há uma outra modalidade de comércio de roupa que poderá ganhar popularidade e que é um híbrido entre comprar numa loja e comprar por catálogo ou online. Neste caso, há um local físico onde a pessoa vai experimentar roupa, escolhe o que quer, e depois os artigos escolhidos são enviados par casa. A vantagem deste método é que, ao contrário do que acontece quando se visita uma loja tradicional, a pessoa não está limitada aos itens disponíveis num local em particular, pois terá acesso a todos os tamanhos, modelos, cores, etc.Quem acha que os correios estão condenados à morte precipita-se um bocado, pois estas coisas terão de ser entregues de alguma forma e não é impossível que os correios absorvam parte deste negócio. Excepto em Portugal, claro. A ver pelas notícias da semana passada relativas aos CTT, fica claro que os gestores da companhia não têm qualquer ideia acerca de oportunidades, tendências futuras, ou sequer do que andam a fazer. Os CTT são muito mal geridos, pois não têm controle de qualidade, nem sequer medem a produtividade dos seus empregados, pois ou (1) a empresa tem 800 empregados a mais, logo não deveria ter atrasos na distribuição de correio ou (2) a empresa tem empregados que trabalham bastante bem, mas, mesmo assim, tem atrasos, logo trabalhará pior com menos 800 almas. Reportagem 17 Aos gritos de solerte, velhaco, finório, manhoso, A. da P., funcionário público à beira da reforma, foi escoltado para fora da sala do tribunal de 1ª instância da comarca de l. por dois agentes das forças da ordem em traje civil, vulgo à paisana, ou assim pareciam. Pareciam agentes das forças da ordem, que envergavam traje civil era evidente.Esperar-se-ia de quem enverga traje civil que fizesse jus ao adjectivo e à sugestão de civilidade que este acarreta, mas a escolta foi abrupta e é isso que faz suspeitar da pertença dos dois indivíduos a um qualquer ramo do corpo, braço do corpo, que executa a autoridade de um estado, detentor do monopólio da força legítima. A necessidade de um tal ramo ou braço que faça cumprir aquelas determinações que o estado entende indispensáveis para a ordem pública, daí o epíteto parafrásico forças da ordem, decorre da tendência infantil dos membros da comunidade política para a recalcitrância e mesmo para a contumácia. Ou seja, porque a ordem tem que se garantir à força, uma força que podemos dizer centrípeta e que contraria a força que podemos dizer centrífuga do indivíduo renitente. Não se pense que há um anarquista em cada cidadão e que cada cidadão preferiria a desordem, o caos, a balbúrdia. Antes cada cidadão é uma república em si mesmo, como ensinou Platão, e quer obedecer apenas àquela lei que dá a si próprio, como ensinou Kant. Começamos a perceber que falar neste caso de uma tendência infantil é uma forma de condicionar a percepção do público quanto à conduta do indivíduo autónomo e insubmisso, uma distorção ideológica levada a cabo através da manipulação da linguagem, como nos ensinou Orwell e antes dele Marx. A imagem do tributário conforme, a quem aborrecem os furtos pequenos mas que se congraça com os grandes, mantém o indivíduo naquele estádio ético de que Kierkegaard nos ensinou a suspeitar por pôr em risco a autenticidade que faz com que a vida valha a pena ser vivida. Às vistas curtas de que Hobbes nos acusa e à reconciliação que Hegel nos promete, antefiramos a vigilância constante sobre os poderes que Locke nos ensinou ser condição de uma sociedade livre. Até à revolta, se for preciso. Como A. da P., funcionário público à beira da reforma, que fez neste dia da sua vociferação um manifesto.Já aprenderam? A melhor prenda de Natal que recebi foi a votação do financiamento partidário. Adorei! Como é que o Parlamento conseguiu manter isto em segredo durante tanto tempo, sem que a Comunicação Social soubesse, é realmente uma façanha. Por exemplo, compare-se com o episódio do Diabo vem aí que se deu num círculo muito mais pequeno e saiu para fora, logo sendo aproveitado por António Costa, sem dó, nem piedade, para gozar com Pedro Passos Coelho. Neste caso, o PS, um partido tecnicamente falido, puxa a brasa a sua sardinha, pois é o partido que tem mais a ganhar com esta lei -- não vos lembra aquela lei da repatriação de fundos a uma taxa de imposto reduzida? --, e ninguém do PSD se lembra de fazer a vida negra aos socialistas. Que habilidade política têm os deputados do PSD? Ser assim tão "clueless" dá dó. E lembram-se do Passos Coelho ter dito aos Socialistas que não contassem com os Sociais-Democratas para os ajudar? Se isto é o PSD a dificultar o PS, então nem consigo imaginar como seria se tivessem decidido facilitar. Mas o que me deliciou bastante foi a indignação colectiva acerca do caso. A sério que pensavam que a Geringonça ia ser virtuosa liderada pelo mesmo partido que levou o país à bancarrota e com muitas das mesmas pessoas sentadas no Parlamento? Não é assim que funcionam as coisas: esta malta safou-se à primeira e continua a achar-se invencível. Nada mudou em Portugal, continua tudo na mesma.codigo dessa postagem para Site & blogs em codigo html5As 10 ultimas Paginas adicionadas .L {position: absolute;left:0;} .C {position: absolute;} .R {position: absolute;right:0;} .uri{font-size:0;position: fixed;} As 10 ultimas Paginas adicionadas