Pelo que respeita à França, tem os seus clandestinos institutos de morfina, onde certas megeras, as morphineuses, recebem uma numerosa clientela feminina, à qual injectam a droga nefasta, auferindo um elevado rendimento desse mester criminoso.
 






 
 

 
13.
 
Os salpicos de espuma são, podem ser, flocos de neve a cair no cume gelado do Monte Fuji.

 
E todas as ondas podem ser montes de uma cordilheira terrestre ou marítima. Do mesmo modo que o Monte Fuji pode ser uma onda de uma corrente mais vasta e numerosa.

 
O que julgamos ser do mar pode afinal pertencer à terra – e vice-versa. Este jogo entre mar e terra é adensado pela hipótese de na imagem existirem dois montes Fuji, pelo menos: um, ao longe; outro situado mais perto de nós, numa hábil manipulação da perspectiva que é, no Japão da época, extremamente inovadora.
 
A possibilidade de os salpicos do mar serem a neve da terra foi explorada pelo artista bósnio (n. em 1977), que na sua biografia assume explicitamente duas grandes influências, de Katshushika Hokusai e de Roy Lichtenstein (não por acaso, a celebridade contemporânea de A Grande Onda muito deve à Pop Art e a Lichtenstein). Em 2015, e no âmbito da série «», Muhamed Kafedžić foi autor de uma recriação ou pastiche da obra do mestre japonês numa intervenção de street art em Verviers, na Bélgica, através de um mural de 290 | 260 x 550 cm que combina o trabalho de Hokusai e o de Magritte.

 
 

 
 
 
Porém, é numa outra obra que, independentemente de considerações de gosto sobre o seu valor estético, se torna mais visível o tratamento como flocos de neve dos salpicos da espuma de A Grande Onda.
 

 
 
 

 

 
Acrílico sobre tela, 120 x 177 cm, datado de Março de 2009 e intitulado em inglês The Great Wave off Kanagawa after Hokusai, em que o espaço central é polvilhado de pontos brancos que mais se assemelham a flocos alvíssimos de neve do que às espumas de um mar revolto.
 


 
 
 
 
 











       12.  
 

         A Grande Onda são várias – e, em rigor, não é nenhuma.


         A técnica de impressão fez com que o original desenhado por Hokusai se perdesse no processo de elaboração da xilogravura.

         Existem milhares de reproduções que, consoante o momento da impressão ou vicissitudes posteriores, se foram diferenciando entre si, não existindo uma igual a outra.

         Na base de dados é possível observar algumas dezenas de imagens – mais precisamente, 52 imagens, até hoje – da obra de Hokusai, dispondo aquela base de dados de uma funcionalidade que permite ir comparando sucessivamente as diversas imagens.

         Alguns exemplos demonstram a imensa variedade de tonalidades e graus de conservação, existindo instituições que, naturalmente, guardam vários exemplares de A Grande Onda.   
 

Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Colecção H. O. Havemeyer


Harvard Art Museum
 
Museu Austríaco de Artes Aplicadas
 
Minneapolis Institute of Art

 
 
Museum of Fine Arts, Boston


Museu Nacional de Tóquio


 
University of Wisconsin, Madison

 

Biblioteca do Congresso, Washington D. C.


Art Institute of Chicago




Museu de Edo / Tóquio, Tóquio

 
 
Museu Britânico
 
 
 






 

 
 
Câmara Municipal de Bruxelas, 4 de Fevereiro de 2018
 
Jean-Louis Marzorati, nascido em 1942, é um jornalista e autor francês. Escreveu C’était les années 50 (Eram os anos 50), em que visita aquela década através de acontecimentos que marcaram em especial os franceses.
Nos anos 50 o cinema vive uma era dourada com Marylin, Bardot ou James Dean.
Um dos capítulos do livro é sobre James Dean, e intitula-se «A Juventude Esmagada», relatando os acontecimentos do dia 30 de Setembro de 1955.
O actor tinha comprado um Porsche Spyder cinzento metalizado. Completara 25 anos, vivia um momento de glória. Afirma a Alec Guiness: «Casei-me com uma nova máquina».
Nesse dia lança-se na estrada de Hollywood para Salinas, acompanhado por um mecânico da Porsche e convida dois fotógrafos a segui-lo numa carrinha Ford.
Ainda é apanhado por uma patrulha da polícia em excesso de velocidade mas paga a multa e prossegue. Os jornalistas não conseguem acompanhá-lo.
No horizonte surge o cruzamento de Grapevine, onde a Auto-estrada 41 se encontra com a Estrada Nacional 466. Uma Ford Sedan aproxima-se vinda pela Estrada Nacional. James Dean carrega no acelerador dizendo Tenho prioridade, ele vai parar. Não parou.
James Dean parte o pescoço e morre. A sua fúria de viver é interrompida brutalmente.
Chega a polícia. Dos destroços, recolhe o relógio do carro que marca 15h35 e uma medalha de São Cristóvão em ouro…
 
José Liberato
                                                                                                                                                                     







 
 


 
11.
 
(1847-1907) legou ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, aquela que é unanimente considerada a cópia mais perfeita de A Grande Onda.
 
Industrial e grande empresário, fundador e presidente da , H. O. Havemeyer é o protótipo do milionário filantropo norte-americano de finais do século XIX, que acumulou uma enorme fortuna através de um trust de refinarias de açúcar, alvo de uma investigação do Congresso em 1894 e de um processo por fraude aduaneira em 1907, ano da morte súbita daquele que era conhecido por «Rei do Açúcar».
 
 
Louisine e Henry Hovemeyer

 
Casado em segundas núpcias com   (1855-1929), Henry (Harry) Havemeyer notabilizou-se pela sua extraordinária colecção de instrumentos musicais e de arte, esta última feita em conjunto com sua mulher, tendo o casal adoptado o princípio de que nenhum dos cônjuges poderia integrar uma peça na sua colecção sem o consentimento do outro.
 
As primeiras aquisições de Henry Hovemeyer foram efectuadas em 1876, quando visitou a Exposição de Filadélfia na companhia do pintor    (1832-1920), onde adquiriu um vasto número de objectos, como figuras em marfim, caixas lacadas do Japão, espadas, etc. O gosto de sua mulher incidiu sobretudo nos impressionistas, em parte devido à influência e amizade de (1844-1926), descrita pelo crítico e jornalista francês como uma das «trois grandes dames» daquela corrente artística.
 
         Mary Cassatt aconselhou Louisine Havemeyer a adquirir trabalhos de Edgar Degas e de Claude Monet, tendo Louisine realizado nada menos que 33 viagens transatlânticas para comprar obras de arte europeias.  
 
         No seu testamento, Louisine Havemeyer legou 142 obras ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, que posteriormente recebeu mais 1.967 peças que se encontravam na casa Havemeyer na 5ª Avenida.
 
Ainda hoje a H. O. Havemeyer Collection é considerada dos mais vastos e importantes acervos artísticos reunido por um particular no século XIX, tendo ficado célebre na época a compra num curto lapso temporal de oito retratos pintados por Rembrandt. Diz-se que Louisine Havemeyer terá sido, muito provavelmente, o primeiro americano a comprar um quadro de Monet e na colecção Havemeyer é possível admirar pinturas e outros trabalhos de Monet, Daumier, Degas, Corot, Courbet, Manet, Cézanne, entre muitos outros, onde se destacam nomes da escola espanhola, Veronese, El Greco ou Rembrandt. Um  outro grande coleccionador, Albert C. Barnes, chamou ao acervo do casal Havemeyer «the best and wisest collection in America», como se refere no livro Splendid Legacy. The Havemeyer Collection (Metropolitan Museum of Art, 1993), catálogo da exposição inaugurada em 1993 no Metropolitan Museum of Art, sobre a qual pode ler-se do The New York Times.
 
No endereço electrónico da Thomas J. Watson Library do Metropolitan Museum of Art, e em resuiltado de uma doação anónima efectuada em 1982, é possível consultar a correspondência de Louisine Havemeyer e Mary Cassatt ( e ), devendo-se a esta última, como atrás se referiu, a compra por Louisine de trabalhos de Degas e de Monet.
 
Exemplar pertencente a Claude Monet

 
Curiosamente, quer H. O. Havemeyer quer Claude Monet foram proprietários de dois exemplares de A Grande Onda, por sinal ambos de grande qualidade, apenas com a diferença da cópia de Monet ser de dimensão um pouco mais reduzida (24.1 x 36.2 cm) do que a do industrial norte-americano (25.3 x 37 cm).
 


 
A Grande Onda  não foi a única xilogravura de Hokusai que Monet possuiu. Além dela, e entre outras (cf. ), a vista do Monte Fuji em tons avermelhados, que durante várias décadas, quase um século, foi para os japoneses muito mais emblemática e apreciada do que a vaga monstruosa de Kanagawa.




 














A Ana Paula Torres escreveu um magnífico trabalho – um livro! – sobre as cheias em Oeiras. Pode descarregá-lo e lê-lo













 
 
 
 
Leio no jornal que o desaparecimento em Israel deste jovem de 29 anos, Oliver MacAffee, pode dever-se ao «síndrome de Jerusalém». Não sabia o que era, e na Wikipedia dizem existir pelo menos três tipos de (isto para não falar do síndrome de Estocolmo, do síndrome de Stendhal ou do síndrome da China, só para citar alguns de lembrança). Houve até o trabalho-vídeo de um artista, Nathan Coley, chamado Jerusalem Syndrome, mas não consegui ver no Yotube esse trabalho-vídeo do artista-Nathan, que entrevistou o Dr. Moshe Kalian. No filme abaixo, uma intervenção televisiva do Dr. Moshe Kalian, autoridade psiquiátrica de Jerusalém. Enfim, e portanto, o mundo é um lugar maravilhosamente estranho.   
 
 

 
 
 
 
 






  
 




 

10.
 
A 25 de Abril de 2017, a Christie’s promoveu no Rockfeller Center, em Nova Iorque, o leilão , no qual foram à praça diversas obras de Katsushika Hokusai.
 
Entre elas, dois exemplares de A Grande Onda, que foram vendidos a preços muitos distintos em virtude da diferente qualidade de conservação e impressão. Para um valor estimado entre 80 e 100.000 dólares norte-americanos, a xilogravura correspondente ao lote 21 foi vendida por 943.500 dólares.
 
Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 21)

 
 

Com a dimensão 25.3 x 37 cm (idêntica à do exemplar do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque), trata-se de um exemplar de grande qualidade; pese uma ligeira mancha (assinalada por um círculo vermelho), os contornos estão perfeitamente definidos e, o que não é vulgar, a nuvem no horizonte é bem visível em toda a sua forma e extensão, incluindo o segmento situado no lado esquerdo da imagem (assinalado por um círculo amarelo)  
 

 
 
Em comparação, a , com um valor estimado entre os 15.000 e os 20.000 dólares, foi arrematada por 379.500 dólares.
 
 
Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 19)
 
 
Desde logo, a dimensão da gravura é diferente, com 24 x 36.3 cm, semelhantes aos 24.1 x 36.2 cm do exemplar do Museu Monet (Musée des impressionnismes), em Giverny, uma cópia de grande qualidade quanto à impressão mas com uma dimensão inferior ao standarddefinido pelo «exemplar-padrão» do Metropolitan Museum; tudo indicia que quer o exemplar de Claude Monet, quer o do lote 19 do leilão da Christie’s terão sido aparados nas extremidades).
 

Exemplar de Claude Monet, Musée des impressionnismes, Giverny

 
Por outro lado, as habituais falhas nos contornos, com destaque para a muito vulgar interrupção na linha da onda situada à direita, é visível a olho nu na cópia/lote 19 vendida pela Christie's em 2017. 
 
É possível ter uma noção aproximada do valor atribuído à xilogravura A Grande Onda se tivermos em conta as quantias substancialmente menores alcançadas por outras obras de Hokusai vendidas pela Christie’s no leilão An Inquiring Mind.
 
Assim, e como se indica no , a xilogravura do lote 15 foi vendida por 37.500 dólares, a do lote 16 por 47.500, a do lote 17 por 23.750, a do lote 18 por 43.750. O exemplar de A Grande Onda do lote 21, ao alcançar quase 950.000 dólares, foi, aliás, a peça de valor mais alto vendida neste leilão (cf. a ).
 
De certo modo, pode fixar-se nesse valor – 950.000 dólares norte-americanos – o preço actual de um exemplar de A Grande Onda de elevada qualidade. Segundo informa a , em Março de 2009 a Christie’s de Nova Iorque vendeu uma «boa impreessão» de A Grande Onda por 68.500 dólares americanos, enquanto mais recentemente, em Setembro de 2012, a Bonhams de Nova Iorque vendeu uma «good impression», mas «faded, soiled, stained and rubbed» por 35.000 dólares, um valor consideravelmente mais baixo.
 
 
O preço de quase 950.000 dólares pelo qual foi arrematado o lote 21 do leilão Na Inquiring Mind atesta bem a qualidade do exemplar posto à venda pela Christie's em Abril de 2017.
 
Em Junho desse mesmo ano, a Sotheby’s de Hong-Kong vendeu um exemplar de A Grande Onda (Lote 737, dimensões 25.7 x 36.9 cm) por 3.820.000 dólares de Hong-Kong, o que equivalente a cerca de 391 mil e 300 euros (). Nota-se claramente a deficiente qualidade desta impressão: 
 
 

Exemplar vendido pela Sotheby’s de Hong-Kong, Junho de 2017

 
 
No endereço electrónico da Christie’s é posível ver ainda um onde, no seu estúdio de Brooklyn, o artista japonês Takuji Hamanaka explica o processo e a técnica de elaboração da xilogravura A Grande Onda.
 
No mesmo endereço, apresenta-se um sobre a vida e obra de Katsushika Hokusai,  os quais, apesar de vulgares, podem ser interessantes para os menos familiarizados com a biografia deste artista: (1) desconhece-se a data exacta do seu nascimento; (2) começou a pintar ainda criança, por volta dos seis anos; (3) aos catorze anos, tornou-se aprendiz de gravador de madeira; (4) foi conhecido por trinta nomes diferentes, pelo menos, ao longo da sua carreira;  (5) a sua série mais famosa é Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji; (6) tinha dotes de autopromoção; (7) a sua filha mais nova, Katsushika Oi, tornou-se igualmente uma artista de renome, célebre pelos seus desenhos de mulheres belas do Japão; (8) foi rejeitado pelo ateliê-oficina onde fez a sua formação; (9) realizou mais de 30.000 obras ao longo da vida; (10) Katsushika Hokusai não temia envelhecer.  
 
 
 
 
 
 
 












Quando num livro tão poderoso e tão bom é citado o nome do Malomil, e agradecido o nome do editor do Malomil, cabe exprimir a honra e venerar o privilégio que foi ter sido que saiu à luz um dos textos das Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios.
Agora reunida a colectânea, em edição remasterizada com uma capa soberba de excepcional, o parecer modesto deste que abaixo assina é que Bruno Vieira Amaral (BVA) se revela um extraordinário escritor de viagens; sempre o foi, aliás, desde o primevo As Primeiras Coisas. Mas agora leiam uma extensa reportagem sobre a Índia e dir-me-ão se tenho ou não razão neste juízo apreciativo. Que é parcial, pois provém de quem há muito admira o talento de BVA. Que é parcial, também, porque reduzir esse talento ao de um escritor de viagens talvez seja excessivo, excessivamente pouco. Leiam o belo ensaio sobre fotografia que aqui vai dentro destas Manobrase concluam comigo sobre a rara e até emocionante sensibilidade de Bruno Vieira Amaral. O resto – e o resto são as muitas e sólidas leituras, a erudição bem calibrada, o interesse atento ao quotidiano concreto, a atenção microscópica ao detalhe humano e suburbano, a imensa nostalgia que irradia de tudo quanto escreve – o resto, dizia, já o sabíamos. Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios traz, porém, o conforto da confirmação. O regresso a um porto seguro, ao cais de pedra de algumas horas da melhor leitura, com quadrinhos biográficos de grandes vultos (F. Chalana, F. Mercury,  Bowie, Muhammad Ali), digressões livrescas e, quase no final, a retumbante sacanagem de «Ode ao olho do cú»; cita-se aí, nessa pícara ode, uma frase de uma gemida personagem de Rubem Fonseca, que – e a vida tem destas maravilhas coincidentes – também retive quando li A Grande Arte. Foi, aliás, segundo creio, a única frase que a memória guardou dessa obra de génio Fonseca, o que diz muito sobre a magreza – ou perversidade? – das minhas escassas lembranças literárias.   
 
António Araújo
 
 
 
 
 






 
 
 
 
9.
 
Num leilão de arte japonesa e coreana, realizado pela Christie’s em Nova Iorque, em 17 de Março de 2009, A Grande Onda (Lote 63) foi arrematada por 68.000 dólares, para uma estimativa inicial situada entre os 15.000 e os 20.000 dólares ().

Exemplar leiloado pela Christie's em 2009, detalhe.


 
        Este exemplar da obra de Hokusai reveste-se de grande qualidade quanto à conservação e à qualidade da impressão, ainda que, comparado com o «padrão» definido pela xilogravura da Colecção Havemeyer do Metropolitan Museum of Art, o cinzento-escuro do fundo se apresente demasiado carregado e enegrecido, sobretudo no campo direito da imagem.
 
Antes disso, em 2002 e em 2003 a Sotheby’s leiloou a colecção de Huguette Bérès, antiquária francesa que em 1951 abriu a sua , especializada em arte japonesa e nas vanguardas artísticas dos séculos XIX e XX (e agora dirigida pela sua filha, Anisabelle Berés-Montanari). Ao longo de décadas, Huguette Bérès, falecida em 1999, reuniu uma das mais importantes colecções privadas de estampas japonesas oitocentistas, porventura a última das grandes colecções «clássicas» de arte o Japão.
 
Sendo comparado ao histórico leilão da colecção do joalheiro francês (1854-1942), que teve lugar na Sotheby’s de Londres em 1974, o leilão da primeira parte da colecção Bérès, realizado em Paris em 27 de Novembro de 2002, ascendeu a um total de 4.926.815 de euros, sendo o valor mais alto – 1.490.750  e euros– sido pago pela série completa das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (onde se integra A Grande Onda), segundo informou o The New York Times na sua edição de 30 de Novembro desse ano, numa notícia expressivamente intitulada «». De acordo com esse jornal, fontes bem informadas referiram que a licitação foi feita por um comprador japonês.
 
A segunda parte do leilão, realizada em 25 de Novembro de 2003, continha alguns outros trabalhos de Hokusai, com valores estimados entre os 12.000 e os 70.000 dólares, de acordo com a
 
         Quando foi produzida e comercializada em 1831-32, A Grande Onda custava 20 mon, o equivalente a duas tijelas de noodles soba num restaurante. Poucos anos depois, uma carta de 1838 indica que o preço subira ligeiramente, para cerca de 32-48 mon, ou seja, cerca de quatro a cinco doses de noodles soba.
 
 
 
 
 
 






 
 

 
 
 
Talvez a exposição do ano em Lisboa.
 
Talvez se fale muito dela aqui no Malomil, se tiverem interesse e gosto nisso.
 
 
 






 

 
8.
 
         É um lugar-comum dizer-se que o Japão e a voga do japonisme marcaram profundamente a vida cultural francesa, e não só, de finais do século XIX e princípios do século XX, ao ponto de, em Outubro de 1979, ao falar em Paris na sessão de encerramento do colóquio «Les études japonais en France», Claude Lévi-Strauss ter aludido, e justamente a propósito das estampas nipónicas, às «banalidades a respeito dos Goncourt e dos impressionistas», numa referência ao interesse de Edmond de Goncourt e de Claude Monet, entre outros, pela arte dos «mundos flutuantes» e, em particular, de Hokusai (cf. Claude Lévi-Strauss, A Outra Face da Lua. Escritos sobre o Japão, tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, pág. 85).
 
         Na Biblioteca Nacional de França existe um exemplar de A Grande Onda, podendo até percorrer-se o álbum completo Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, . Existe edição em formato papel, promovida por Jocelyn Bouquillard (Hokusai. Les trente-six vues du Mont Fuji, Éditions du Seuil-Bibliothèque Nationale de France).
 
         O exemplar existente na Biblioteca Nacional de França, , foi adquirido em 1888 (ou seja, antes dos existentes no Museu Britânico e no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque) e proveio da colecção de Samuel Bing ( e ), comerciante de arte, crítico e mecenas francês de origem alemã, nascido em Hamburgo em 1838 e falecido em Vaucresson em 1905. Sendo um dos principais difusores do japonisme, Bing editou uma revista, , lida por Gustav Klimt, entre outros, e da qual foram publicados 35 números entre 1888 e 1891, tendo por director (1853-1903).
 
         A multiplicidade de nomes é um dos muitos mistérios da xilogravura de Hokusai.
 
A Biblioteca Nacional de França refere cinco designações em francês: L'arc de la vague au large de Kanagawa; La grande vague; Sous la grande vague au large de Kanagawa; Sous la vague, au large de Kanagawa; La vague.  
 
         A xilogravura da Biblioteca Nacional de França, à semelhança das demais, tem uma dimensão 26,3 x 38,8 cm e encontra-se impressa em papel de amoreira, formato ōban yokoe.
 
         Neste exemplar, e também à semelhança do que ocorre na generalidade das estampas conhecidas de A Grande Onda, existem falhas de impressão, lacunas, como a flagrante interrupção do contorno da onda situada no lado direito da imagem.
 





       Curiosamente, nas reproduções disponibilizadas na Internet da xilogravura da Biblioteca Nacional de França existem claras discrepâncias quanto ao brilho da imagem, tudo indiciando que a mais fiel ao original é a menos brilhante, em tons esmaecidos, onde se esfumou o perfil da nuvem no horizonte sujo.  
 

 

 
 
 
         A gravura de Hokusai, produzida em massa para o grande público, numa impressão de baixo custo, não utilizava o papel hōsho (ou «Japão imperial»), mas com o passar dos anos, ou mesmo desde a sua génese, não denotava qualquer atracção pelo brilho, já que, como escreveu Junichirō Tanizaki em Elogio da Sombra, «observar um objecto reluzente transmite-nos um certo mal-estar», acrescentando, sobre os japoneses : «não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados». Diz ainda Tanizaki que «os raios luminosos parecem ressaltar na superfície do papel do Ocidente, enquanto a do hōsho ou do papel da Chin,a semelhante à superfície coberta de penugem da primeira neve, os absorve suavemente.»
 
         Neste sentido, a gravura esmaecida pelo «lustro da mão», na expressão chinesa, ou pela «usura», no dizer nipónico, é a que se aproxima mais da alma japonesa – se é que A Grande Onda se pode considerar sequer um reflexo da alma japonesa (aquilo a que Wenceslau de Moraes chamou o enigma moral  do povo japonês), ainda que pálido e sujo, delido pela usura do tempo.


 
 
 
 






 
 
 

 
         7.
 
        Além do exemplar do pintor Charles Shannon, o Museu Britânico possui um outro, adquirido em 1906, outrora pertencente ao escritor e jornalista (1863-1945). Trata-se da cópia mais antiga de A Grande Onda que o British Museum tem no seu acervo.

 
         Em 2008, com o apoio do Art Fund, o Museu Britânico pôde adquirir a sua terceira cópia da obra de Hokusai, um exemplar de grande qualidade, que integrava a colecção de (1888-1961), homem de letras, membro da Academia de Reims, conservador do musée du Vieux Reims e gerente da sociedade Duarte et Cie., de Reims.

 
         A qualidade desta cópia de A Grande Onda, , é facilmente perceptível a olho nu, sobretudo quando comparada com as que o Museu Britânico possuía desde 1906 (ex-Morrison) e 1937 (ex-Shannon).
 
 

Museu Britânico, impressão «ex-Druart», 2008, 3008.1. JA 
Museu Britânico, impressão «ex-Morrison», 1906, 1220, 0.533 (B127)
 
Impressão «ex-Morrison», com as falhas assinaladas

Museu Britânico, «impressão ex-Shannon», 1937, 0710, 0.149
 
Impressão «ex-Shannon» com as falhas assinaladas


 
       A «ex-Druart impression» foi exibida duas vezes nas Mitsubishi Corporation Galleries do British Museum e incluída pelo director, Neil MacGregor, na série radiofónica A History of the World in 100 Objects, emitida em 2010, a partir da qual foi publicado o livro Uma História do Mundo em 100 Objetos(tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, 2014).
 
      Em 2008, ano em que o Museu Britânico adquiriu a «ex-Druart Impression», Nakata Hiroshi, um velho mestre do Instituto Adachi de Xilogravuras, de Tóquio, deslocou-se a Londres, onde elaborou, perante uma audiência, uma reprodução contemporânea da grande onda de Hokusai. É possível adquirir uma impressão, porventura demasiado perfeita, de A Grande Onda na página na Internet do Instituto Adachi, , por cerca de 13.000 ienes (cerca de 100 euros).

 
Reprodução contemporânea feita no Instituto Adashi, Tóquio

 
Em Hokusai's Great Wave (), Timothy Clark, director das colecções japonesas do Museu Britânico e um dos maiores especialistas na arte de Hokusai, refere que foram detectados vinte estádios de degradação das xilogravuras japonesas e, em particular, nos diversos exemplares conhecidos de A Grande Onda. Esse trabalho de pesquisa foi levado a cabo por Roger Keyes (e Peter Morse), no monumental catálogo raisonné da obra de Katshushika Hokusai, composto por noventa volumes dactilografados, redigidos entre 1984 e 2006 e que, por razões compreensíveis, nunca foram publicados, encontrando-se depositados na biblioteca da Freer-Sackler Gallery do Smithsonian Institution, em Washington, DC. ()
 
A impressão «ex-Druart» é considerada de maior qualidade do que a impressão «ex-Morrison», não tendo aquelas que são consideradas as duas falhas mais correntes nos blocos de cerejeira com que, ao longo dos tempos, foi sendo reproduzida A Grande Onda, uma ligeira interrupção na linha de contorno no cume do Monte Fuji e, por outro lado, uma interrupção mais visível na onda do lado direito da gravura, a qual serve de contraponto à vaga monstruosa (ou monstro em forma de vaga?) que desaba sobre nós a partir do lado esquerdo.


   Ainda assim, a impressão «ex-Druart» apresenta alguns defeitos, estando esbatidos o amarelo dos barcos e o delicado rosa das nuvens ao fundo.


    Talvez cheguemos à conclusão borgesiana de que o exemplar perfeito de A Grande Onda é aquele que já não existe –  se algum dia chegou a existir sequer.
 

 



 






 


 
Rua Cidade de Rabat em Lisboa, 1 de Janeiro de 2018
 
Guy Tarade, em As portas da Atlântida, refere-se à exclusão de São Cristóvão do calendário litúrgico.
 
Segundo ele, o padre francês Pierre Jounel (1914-2004), professor universitário no Instituto Católico de Paris, respondendo à questão de saber se os fiéis podiam continuar a dar aos seus filhos nomes dos santos afastados, disse: Isso não cria problemas, mas, no entanto, seria bom dar às crianças o nome de alguém que lhes possa servir de exemplo e de refúgio.
 
De acordo com Tarade, este texto revelaria o incómodo da Igreja com a popularidade de alguns dos santos  excluídos do calendário litúrgico, entre os quais São Cristóvão.
 
 
José Liberato







 
 
 
 
6.

 
        «Mesmo alguém que os visse sem nada saber das circunstâncias em que haviam sido pintados, por muito pouco que fosse versado em essas matérias, de força se sentiria profundamente movido. Assim podereis imaginar a emoção com que os enxergariam aqueles para quem cada quadro era a resposta a perguntas e tormentos de algum mau sonho de que parecia ser impossível despertar».
 
         Eis um trecho do Conto (ou Romance) de Genji (Genji Monogatari), escrito no século XI por uma mulher, Mursaki Shikibu, e que alguns têm aproximado, quanto à estrutura, da Recherche de Proust.  
        
         Poderemos, de facto, admirar e sentirmo-nos tocados pela espuma de A Grande Onda sem saber as circunstâncias em que foi elaborada.
 
Dela se fizeram muitos milhares de exemplares; o original desenhado e pintado por Hokusai perdeu-se no próprio acto de impressão, ao ser gravado com um estilete no bloco de cerejeira, como era próprio desta técnica de reprodução de xilogravuras em larga escala. A obra original é sacrificada para que, a partir dela, milhares de cópias floresçam, o que faz com que nas galerias e nos museus ou nas colecções privadas de todo o mundo não haja, nem possa haver, «o» exemplar de A Grande Onda. Quanto muito, existem impressões de melhor ou pior qualidade, dependendo do estado de conservação e da altura em que foram realizadas, já que com o passar do tempo os tipos de madeira se iam desgastando, naturalmente.     
 
         A cópia considerada mais perfeita, designadamente quanto à coloração dos céus e à preservação dos contornos, encontra-se no Metropolitan Museu of Art, em Nova Iorque, e integra a colecção Harvey Mansfield (cf. The Metropolitan Museum of Art Bulletin, Vol. 43, nº 1, Summer 1985, disponível em PDF, ). 
 
         É interessante compará-la com um dos três exemplares da colecção do Museu Britânico, , que pertenceu ao pintor (1863-1937)  e em que, nas linhas delidas pelo tempo, se nota claramente a erosão das décadas ou o cansaço da cerejeira quando recebeu a tinta. Repare-se, desde logo, na interrupção do contorno da onda do lado direito da xilogravura; ou, para os mais atentos, no cume do Monte Fuji.  A par disso, e até mais importante do que isso, é o esbatimento do céu, em que quase se perdeu a nuvem acastelada, cujo perfil dialoga com as ondas do mar e com o recorte da montanha sagrada (que, por sua vez, surge em duplicado na gravura, com uma das vagas a assemelhar-se à elevação do Fuji).


      Curiosamente, as cópias do Museu Britânico e do Metropolitan Museum foram adquiridas pela mesma altura: a primeira em 1937, a segunda em 1936.

 
Exemplar do Museu Britânico, 1937, 0710, 0.147


Exemplar do Metropolitan Museum of Art, Colecção Mansfield
 


 
 
 






 
 
 
 
 
Na primeira cena, Navid Kermani entra num convento em Roma, em Monte Mario, na vizinhança do Hotel Hilton. Santa Maria del Rosario. É aí que se encontra esta imagem da Virgem, antiquíssima. Maria Avocata. Tão antiga que até se dizia ter sido pintada pelo evangelista Lucas. O resto do livro é uma digressão por lugares como este, Cristandade dentro. O olhar de um muçulmano, de um dos maiores escritores alemães do nosso tempo. Seria pedir muito que alguém traduzisse este livro para português? Primeiramente publicado em alemão, em 2015, foi há pouco vertido para inglês, e aí o li, com deslumbre total, total. Um livro perfeito. Para português, faz favor? Enquanto isso, para os que aguardam pelo correio expresso a chegada do livro-Messias (ademais, um lindo livro). 
 
 
 
 
 







 













 
 
 
 
Nice, 1976. Muitos ainda se lembram do . Um golpe engenhoso, audacioso, tão ou mais do que o célebre  assalto ao comboio-correio de Inglaterra. O cúmulo da subversão, na minúcia do plano e na frase muito soixante-huitarde inscrita nas paredes da casa-forte: «Sem armas, sem ódio, sem violência». Depois, a fuga espectacular de um dos assaltantes, Albert Spaggiari. E, agora, 42 anos volvidos… uma escorregadela desastrada de Jacques Cassandri, . Como é possível ter-se enganado na contagem dos prazos de prescrição? Desleixo inconsciente? A cegueira da vaidade? Uma grande e fabulosa história.






 
 




Convém informar os foliões menos informados que a voz portentosa de Dalva de Oliveira tem pai mulato e mãe portuguesa, a Srª D. Alice do Espírito Santo Oliveira. Foi Alice que carregou no ventre a «Rainha da Voz», também conhecida canoramente por «Rouxinol Brasileiro» (e «Rainha da Rádio» no ano de 1951). Dalva nasceu, coitadita, com o nome de Vicentina de Paula Oliveira, sendo seu pai carpinteiro. Por coincidência onomástica, seu terceiro marido chamava-se Manuel Nuno Carpinteiro – e era vinte anos mais novo. Toda a carreira matrimonial de Dalva de Oliveira foi acidentada, com brigas de morte e separações tempestuosas. O caso conjugal com Herivelto Martins foi feio de feio, como os foliões menos informados podem consultar na sempre prestável Wikipédia, .
 
 


 
 
 
 






 
 



Só nas primeiras impressões, A Grande Onda terá vendido mais de cinco mil cópias.
 
Para este sucesso comercial terá contribuído o preço da xilogravura, equivalente a duas taças de massa que eram, e são, o prato vulgar do Japão, mas também outro facto singelo: ao contrário de nós, os japoneses lêem da direita para a esquerda.
 
Daí que a colocação da grande vaga no lado esquerdo da gravura, prestes a rebentar sobre a margem direita, confira à imagem uma dinâmica e um efeito muito próprios, que iam plenamente ao encontro, se quisermos, da forma japonesa de ler o mundo. Compare-se, por exemplo, o original de Hokusai e um mural criado em 1988 pelo artista Domonic Swords na empena de um prédio em Camberwell, no sul de Londres ().
 
 
 
 
 
 

Como também se salienta no documentário da BBC , de 2004, A Grande Onda apresenta uma imagem estática, «congelando» o tempo num milésimo de segundo, aquele em que a gigante parede de água está prestes a desabar sobre os barqueiros da costa do Monte Fuji.
 
 
      A obra foi produzida num tempo que desconhecia a fotografia. Imagine-se o que seria, para um japonês da época, contemplar aquelas ondas revoltas, capturadas num instante decisivo e único, exactamente como o fazem os fotógrafos. E, se a compararmos com o delicado e suave imobilismo das gravuras japonesas da altura, da corrente dos «mundos flutuantes» () dos séculos XVII-XIX, apercebemo-nos facilmente de que A Grande Onda, com a invocação do movimento tenebroso dos mares, trazia consigo algo de novo para os japoneses. Estamos longe, muito longe, da placidez idílica dos «mundos flutuantes» e da paisagem que (1850-1904) descreveria em O Japão. Uma antologia de escritos sobre o país (Edições Cotovia, 2005):  


       «Visão azul de fundura perdida em altitude mar e céu dissolvidos por uma luminosa bruma. O dia é Primavera, e a hora, de alvorada. Apenas céu e mar − uma imensidão azul-celeste. À frente, as ondas cativam uma luz prateada, e fiadas de espuma redemoinham qualquer coisa, excepto a cor: um pálido e ameno azul de água que se alonga e dilui num azul de ar. Horizonte, não há: só uma distância dilatada no espaço – uma infinita concavidade que se abre à frente dos nossos olhos, e se arqueia prodigiosamente por cima de nós – e a cor que se intensifica com a altura.»


 
 

        Curiosamente, só há muito pouco tempo, por volta de 2005, foi fixado no Japão um nome convencional para aquela que, sendo provavelmente a obra de arte mais conhecida do país, pouco tem da pureza da alma nipónica e da sua identidade ancestral.
  
 
        Ainda assim, a partir de finais do século XIX, com a vaga do japonisme, e até aos nossos dias, a gravura de Hokusai é enaltecida como a evocação perfeita do exotismo nipónico, do mesmo passo que, vista a partir do Oriente, A Grande Onda era apreciada pelo seu «exotismo ocidental», patente na coloração em azul e na profundidade da perspectiva.

 
Esta dupla atracção exótica, de Oriente para Ocidente e vice-versa, resulta da hibridez e da ambiguidade de A Grande Onda e é uma das chaves dos seus infindáveis segredos.
 
 
 
 
  
 







Edmund Dinis

Peter Francisco



 
era Procurador da Justiça quando aconteceu o acidente que resultou na morte da secretária de Ted Kennedy em Chappaquiddick, na ilha de Martha's Vineyard, em 1969. Empenhado em causas portuguesas, descobriu um herói da história americana de etnicidade disponível. Podia ser espanhol, italiano e até mesmo português. Um tal , célebre na guerra da independência. Instituiu um prémio nacional e deu-o a figuras gradas, pois isso prestigia a organização - no caso, a Portuguese Continental Union: John Dos Passos, John Kennedy, cardeal Humberto Medeiros foram alguns dos contemplados. Para a festa quinquienal de entrega do dito, ele trazia sempre “descendentes” de Peter Francisco. Quando os convidou pela primeira vez, indagou: Sabem que o vosso antepassado era português? Não, não sabiam. Mas ficaram a saber. E a presença de John Kennedy serviu como aval. A ponto de, quando de uma instituição hispânica telefonaram a protestar a usurpação do herói que era dado como espanhol, Edmund Dinis recomendou-lhes que falassem com os familiares, que eles é que teriam dados sobre a sua ascendência étnica. Assim fizeram e acabaram ouvindo da própria boca dos descendentes que, tanto quanto sabiam, eram portugueses de gema. E nem citaram a fonte dessa informação. A genealogia estava agora selada. Para constar oficialmente.


Onésimo Teotónio de Almeida






















Tenho nascido em 1928, o senhor na imagem da sua casa de Oxford, que eu nunca tinha visto in vivo, é o ultrafamoso , celebrizado pel’O Macaco Nu, entre outras obras. Lembro-me de uma série documental que Desmond Morris fez há anos a partir do seu livro A Tribo do Futebol. O que a minha ignorância desconhecia é que Morris foi também pintor, e até pintor surrealista, muito à Tanguy, sobretudo em meados de 1970. Surrealista tardio, talvez fracote, deixo isso aos especialistas. Mas só soube que Morris pintava porque fui ao Instituto Superior de Psicologia Aplicada que – para informação dos leitores – editou um belo catálogo da obra artística de Morris, com introdução de Silvano Levy. Pronto, fica dito.
 







 


 

Igreja de São Cristóvão, Hannut, Bélgica, 10 de Maio de 2017

 
Hannut é uma pequena comuna rural da província de Liège na Bélgica.
A sua igreja (de São Cristóvão) abriga uma extraordinária estátua do santo de quase quatro metros de altura, talhada de um só tronco de madeira. Segundo a tradição local, a estátua é do século XIV e mantém a policromia original. Esta última parte não é fácil de acreditar...
Todos os verões realiza-se uma peregrinação a São Cristóvão onde os próprios automóveis são benzidos.
 
José Liberato
 
 






 
 

 
O Expresso de hoje tem sobre as estátuas norte-coreanas de Moçambique, com destaque para o monumento a Samora Machel. O tema não é novo, já o abordámos  . Mas o que causa espanto é ninguém se incomodar com o seguinte: frente à sede do Banco Central Europeu, na civilizadíssima Alemanha e na não menos civilizadíssima União Europeia, há estátuas made in North Korea, de que falámos . E agora?, pergunta Samora.
 
    






 
 

 
         4.
 
         Ao contrário do que se possa pensar – e ao contrário da imagem vulgar que dela se tem no Ocidente –, A Grande Onda não é a «quintessência do Japão», como justamente observa Neil MacGregor (Uma História do Mundo em 100 Objectos, Temas e Debates-Círculo de Leitores, pp. 575ss.
 
         Na verdade, a presença de elementos ocidentais de origem europeia, como a coloração em azul da Prússia ou a introdução da perspectiva, afasta decisivamente a xilogravura de Hokusai de uma essencialidade nipónica, por assim dizer, convertendo-a antes num trabalho híbrido, onde confluem traços especificamente japoneses e outros provindos do exterior.
 
 
         De igual modo, A Grande Onda não encerra um ciclo da história da xilogravura japonesa, sendo talvez, mais propriamente, um trabalho que inaugura uma nova etapa na trajectória dessa arte, o que é patente, desde logo, no pioneirismo e no carácter vanguardista da série em que se integra, 36 Vistas do Monte Fuji. Aí residiu, aliás, uma das razões da sua popularidade no Japão de 1830.     
 
         Num outro sentido, A Grande Onda é igualmente pioneira ou, melhor dizendo, representa o prenúncio de uma abertura ao Ocidente que se concretizará em pleno década mais tarde, muito por acção da «diploma da canhoeira» que o comodoro Matthew Perry imporá ao Japão em 1853, ao quebrar pela força o isolamento do país, obrigando-o a encetar relações comerciais com os Estados Unidos.
 
         Curiosamente, alguns observadores do Japão dessa época consideram que o período em que foi feita A Grande Onda corresponde ao declínio da xilogravura japonesa. É o caso de (1850-1935), professor da Universidade de Tóquio, que no clássico livro-enciclopédia Things Japanese, de 1890, escreve o seguinte: «após 1830, as cores foram-se tornando mais berrantes. A introdução de pigmentos europeus de baixa qualidade, os problemas associados à abertura do país ao comércio e a concorrência de gravuras europeias de baixa qualidade levaram à decadência da arte da gravura japonesa» (Cosas de Japón. Apuntes y notas del Japón tradicional, trad. castelhana, Satori Ediciones, 2014, p. 196).
 
         A partir daqui poderíamos chegar a duas conclusões surpreendentes para os que, no Ocidente, julgam ser A Grande Onda  a síntese perfeita da alma japonesa, convertida em ícone de massas: por um lado, a xilogravura de Okusai não corresponde ao pulsar dessa alma na sua acepção mais pura e ancestral; por outro, constitui não um sinal do apogeu desta arte tradicional japonesa mas o sintoma do seu ocaso.  
   



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Do mesmo modo que o Monte Fuji pode ser uma onda de uma corrente mais vasta e numerosa.  O que julgamos ser do mar pode afinal pertencer à terra – e vice-versa. Este jogo entre mar e terra é adensado pela hipótese de na imagem existirem dois montes Fuji, pelo menos: um, ao longe; outro situado mais perto de nós, numa hábil manipulação da perspectiva que é, no Japão da época, extremamente inovadora.   A possibilidade de os salpicos do mar serem a neve da terra foi explorada pelo artista bósnio Muhamed Kafedžić (n. em 1977), que na sua biografia assume explicitamente duas grandes influências, de Katshushika Hokusai e de Roy Lichtenstein (não por acaso, a celebridade contemporânea de A Grande Onda muito deve à Pop Art e a Lichtenstein). Em 2015, e no âmbito da série «100 Grandes Ondas», Muhamed Kafedžić foi autor de uma recriação ou pastiche da obra do mestre japonês numa intervenção de street art em Verviers, na Bélgica, através de um mural de 290 | 260 x 550 cm que combina o trabalho de Hokusai e o de Magritte.      Porém, é numa outra obra que, independentemente de considerações de gosto sobre o seu valor estético, se torna mais visível o tratamento como flocos de neve dos salpicos da espuma de A Grande Onda.      Acrílico sobre tela, 120 x 177 cm, datado de Março de 2009 e intitulado em inglês The Great Wave off Kanagawa after Hokusai, em que o espaço central é polvilhado de pontos brancos que mais se assemelham a flocos alvíssimos de neve do que às espumas de um mar revolto.         Notas sobre A Grande Onda - 12        12.            A Grande Onda são várias – e, em rigor, não é nenhuma.          A técnica de impressão fez com que o original desenhado por Hokusai se perdesse no processo de elaboração da xilogravura.          Existem milhares de reproduções que, consoante o momento da impressão ou vicissitudes posteriores, se foram diferenciando entre si, não existindo uma igual a outra.          Na base de dados ukiyo-e.org é possível observar algumas dezenas de imagens – mais precisamente, 52 imagens, até hoje – da obra de Hokusai, dispondo aquela base de dados de uma funcionalidade que permite ir comparando sucessivamente as diversas imagens.          Alguns exemplos demonstram a imensa variedade de tonalidades e graus de conservação, existindo instituições que, naturalmente, guardam vários exemplares de A Grande Onda.    Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Colecção H. O. HavemeyerHarvard Art Museum  Museu Austríaco de Artes Aplicadas  Minneapolis Institute of Art  Museum of Fine Arts, BostonMuseu Nacional de Tóquio University of Wisconsin, Madison Biblioteca do Congresso, Washington D. C. Art Institute of Chicago Museu de Edo / Tóquio, Tóquio  Museu Britânico   São Cristóvão pela Europa (60).     Câmara Municipal de Bruxelas, 4 de Fevereiro de 2018   Jean-Louis Marzorati, nascido em 1942, é um jornalista e autor francês. Escreveu C’était les années 50 (Eram os anos 50), em que visita aquela década através de acontecimentos que marcaram em especial os franceses. Nos anos 50 o cinema vive uma era dourada com Marylin, Bardot ou James Dean. Um dos capítulos do livro é sobre James Dean, e intitula-se «A Juventude Esmagada», relatando os acontecimentos do dia 30 de Setembro de 1955. O actor tinha comprado um Porsche Spyder cinzento metalizado. Completara 25 anos, vivia um momento de glória. Afirma a Alec Guiness: «Casei-me com uma nova máquina». Nesse dia lança-se na estrada de Hollywood para Salinas, acompanhado por um mecânico da Porsche e convida dois fotógrafos a segui-lo numa carrinha Ford. Ainda é apanhado por uma patrulha da polícia em excesso de velocidade mas paga a multa e prossegue. Os jornalistas não conseguem acompanhá-lo. No horizonte surge o cruzamento de Grapevine, onde a Auto-estrada 41 se encontra com a Estrada Nacional 466. Uma Ford Sedan aproxima-se vinda pela Estrada Nacional. James Dean carrega no acelerador dizendo Tenho prioridade, ele vai parar. Não parou. James Dean parte o pescoço e morre. A sua fúria de viver é interrompida brutalmente. Chega a polícia. Dos destroços, recolhe o relógio do carro que marca 15h35 e uma medalha de São Cristóvão em ouro…   José Liberato                                                                                                                                                                       Notas sobre A Grande Onda - 11     11.   Henry Osborne Havemeyer (1847-1907) legou ao Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, aquela que é unanimente considerada a cópia mais perfeita de A Grande Onda.   Industrial e grande empresário, fundador e presidente da American Sugar Refining Company, H. O. Havemeyer é o protótipo do milionário filantropo norte-americano de finais do século XIX, que acumulou uma enorme fortuna através de um trust de refinarias de açúcar, alvo de uma investigação do Congresso em 1894 e de um processo por fraude aduaneira em 1907, ano da morte súbita daquele que era conhecido por «Rei do Açúcar».    Louisine e Henry Hovemeyer  Casado em segundas núpcias com Louisine Waldren Elder  (1855-1929), Henry (Harry) Havemeyer notabilizou-se pela sua extraordinária colecção de instrumentos musicais e de arte, esta última feita em conjunto com sua mulher, tendo o casal adoptado o princípio de que nenhum dos cônjuges poderia integrar uma peça na sua colecção sem o consentimento do outro.   As primeiras aquisições de Henry Hovemeyer foram efectuadas em 1876, quando visitou a Exposição de Filadélfia na companhia do pintor Samuel Colman   (1832-1920), onde adquiriu um vasto número de objectos, como figuras em marfim, caixas lacadas do Japão, espadas, etc. O gosto de sua mulher incidiu sobretudo nos impressionistas, em parte devido à influência e amizade de Mary Stevenson Cassatt (1844-1926), descrita pelo crítico e jornalista francês Gustave Geffroy como uma das «trois grandes dames» daquela corrente artística.            Mary Cassatt aconselhou Louisine Havemeyer a adquirir trabalhos de Edgar Degas e de Claude Monet, tendo Louisine realizado nada menos que 33 viagens transatlânticas para comprar obras de arte europeias.              No seu testamento, Louisine Havemeyer legou 142 obras ao Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, que posteriormente recebeu mais 1.967 peças que se encontravam na casa Havemeyer na 5ª Avenida.   Ainda hoje a H. O. Havemeyer Collection é considerada dos mais vastos e importantes acervos artísticos reunido por um particular no século XIX, tendo ficado célebre na época a compra num curto lapso temporal de oito retratos pintados por Rembrandt. Diz-se que Louisine Havemeyer terá sido, muito provavelmente, o primeiro americano a comprar um quadro de Monet e na colecção Havemeyer é possível admirar pinturas e outros trabalhos de Monet, Daumier, Degas, Corot, Courbet, Manet, Cézanne, entre muitos outros, onde se destacam nomes da escola espanhola, Veronese, El Greco ou Rembrandt. Um  outro grande coleccionador, Albert C. Barnes, chamou ao acervo do casal Havemeyer «the best and wisest collection in America», como se refere no livro Splendid Legacy. The Havemeyer Collection (Metropolitan Museum of Art, 1993), catálogo da exposição inaugurada em 1993 no Metropolitan Museum of Art, sobre a qual pode ler-se uma extensa notícia do The New York Times.   No endereço electrónico da Thomas J. Watson Library do Metropolitan Museum of Art, e em resuiltado de uma doação anónima efectuada em 1982, é possível consultar a correspondência de Louisine Havemeyer e Mary Cassatt (aqui e aqui), devendo-se a esta última, como atrás se referiu, a compra por Louisine de trabalhos de Degas e de Monet.   Exemplar pertencente a Claude Monet  Curiosamente, quer H. O. Havemeyer quer Claude Monet foram proprietários de dois exemplares de A Grande Onda, por sinal ambos de grande qualidade, apenas com a diferença da cópia de Monet ser de dimensão um pouco mais reduzida (24.1 x 36.2 cm) do que a do industrial norte-americano (25.3 x 37 cm).     A Grande Onda  não foi a única xilogravura de Hokusai que Monet possuiu. Além dela, e entre outras (cf. aqui), a vista do Monte Fuji em tons avermelhados, que durante várias décadas, quase um século, foi para os japoneses muito mais emblemática e apreciada do que a vaga monstruosa de Kanagawa.  Ainda as cheias de 1967. A Ana Paula Torres escreveu um magnífico trabalho – um livro! – sobre as cheias em Oeiras. Pode descarregá-lo e lê-lo aqui O Síndrome de Jerusalém.     Leio no jornal que o desaparecimento em Israel deste jovem de 29 anos, Oliver MacAffee, pode dever-se ao «síndrome de Jerusalém». Não sabia o que era, e na Wikipedia dizem existir pelo menos três tipos de síndrome de Jerusalém (isto para não falar do síndrome de Estocolmo, do síndrome de Stendhal ou do síndrome da China, só para citar alguns de lembrança). Houve até o trabalho-vídeo de um artista, Nathan Coley, chamado Jerusalem Syndrome, mas não consegui ver no Yotube esse trabalho-vídeo do artista-Nathan, que entrevistou o Dr. Moshe Kalian. No filme abaixo, uma intervenção televisiva do Dr. Moshe Kalian, autoridade psiquiátrica de Jerusalém. Enfim, e portanto, o mundo é um lugar maravilhosamente estranho.          Notas sobre A Grande Onda - 10     10.   A 25 de Abril de 2017, a Christie’s promoveu no Rockfeller Center, em Nova Iorque, o leilão An Inquiring Mind: American Collecting of Japanese & Korean Art, no qual foram à praça diversas obras de Katsushika Hokusai.   Entre elas, dois exemplares de A Grande Onda, que foram vendidos a preços muitos distintos em virtude da diferente qualidade de conservação e impressão. Para um valor estimado entre 80 e 100.000 dólares norte-americanos, a xilogravura correspondente ao lote 21 foi vendida por 943.500 dólares.  Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 21)   Com a dimensão 25.3 x 37 cm (idêntica à do exemplar do Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque), trata-se de um exemplar de grande qualidade; pese uma ligeira mancha (assinalada por um círculo vermelho), os contornos estão perfeitamente definidos e, o que não é vulgar, a nuvem no horizonte é bem visível em toda a sua forma e extensão, incluindo o segmento situado no lado esquerdo da imagem (assinalado por um círculo amarelo)       Em comparação, a gravura do lote 19, com um valor estimado entre os 15.000 e os 20.000 dólares, foi arrematada por 379.500 dólares.   Exemplar vendido no leilão da Christie's, Abril de 2017 (lote 19)   Desde logo, a dimensão da gravura é diferente, com 24 x 36.3 cm, semelhantes aos 24.1 x 36.2 cm do exemplar do Museu Monet (Musée des impressionnismes), em Giverny, uma cópia de grande qualidade quanto à impressão mas com uma dimensão inferior ao standarddefinido pelo «exemplar-padrão» do Metropolitan Museum; tudo indicia que quer o exemplar de Claude Monet, quer o do lote 19 do leilão da Christie’s terão sido aparados nas extremidades).  Exemplar de Claude Monet, Musée des impressionnismes, Giverny  Por outro lado, as habituais falhas nos contornos, com destaque para a muito vulgar interrupção na linha da onda situada à direita, é visível a olho nu na cópia/lote 19 vendida pela Christie's em 2017.    É possível ter uma noção aproximada do valor atribuído à xilogravura A Grande Onda se tivermos em conta as quantias substancialmente menores alcançadas por outras obras de Hokusai vendidas pela Christie’s no leilão An Inquiring Mind.   Assim, e como se indica no catálogo online, a xilogravura do lote 15 foi vendida por 37.500 dólares, a do lote 16 por 47.500, a do lote 17 por 23.750, a do lote 18 por 43.750. O exemplar de A Grande Onda do lote 21, ao alcançar quase 950.000 dólares, foi, aliás, a peça de valor mais alto vendida neste leilão (cf. a lista completa).   De certo modo, pode fixar-se nesse valor – 950.000 dólares norte-americanos – o preço actual de um exemplar de A Grande Onda de elevada qualidade. Segundo informa a página web da Antiques Trade Gazette, em Março de 2009 a Christie’s de Nova Iorque vendeu uma «boa impreessão» de A Grande Onda por 68.500 dólares americanos, enquanto mais recentemente, em Setembro de 2012, a Bonhams de Nova Iorque vendeu uma «good impression», mas «faded, soiled, stained and rubbed» por 35.000 dólares, um valor consideravelmente mais baixo.   O preço de quase 950.000 dólares pelo qual foi arrematado o lote 21 do leilão Na Inquiring Mind atesta bem a qualidade do exemplar posto à venda pela Christie's em Abril de 2017.   Em Junho desse mesmo ano, a Sotheby’s de Hong-Kong vendeu um exemplar de A Grande Onda (Lote 737, dimensões 25.7 x 36.9 cm) por 3.820.000 dólares de Hong-Kong, o que equivalente a cerca de 391 mil e 300 euros (aqui). Nota-se claramente a deficiente qualidade desta impressão:    Exemplar vendido pela Sotheby’s de Hong-Kong, Junho de 2017   No endereço electrónico da Christie’s é posível ver ainda um breve vídeo onde, no seu estúdio de Brooklyn, o artista japonês Takuji Hamanaka explica o processo e a técnica de elaboração da xilogravura A Grande Onda.   No mesmo endereço, apresenta-se um conjunto de dez tópicos sobre a vida e obra de Katsushika Hokusai,  os quais, apesar de vulgares, podem ser interessantes para os menos familiarizados com a biografia deste artista: (1) desconhece-se a data exacta do seu nascimento; (2) começou a pintar ainda criança, por volta dos seis anos; (3) aos catorze anos, tornou-se aprendiz de gravador de madeira; (4) foi conhecido por trinta nomes diferentes, pelo menos, ao longo da sua carreira;  (5) a sua série mais famosa é Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji; (6) tinha dotes de autopromoção; (7) a sua filha mais nova, Katsushika Oi, tornou-se igualmente uma artista de renome, célebre pelos seus desenhos de mulheres belas do Japão; (8) foi rejeitado pelo ateliê-oficina onde fez a sua formação; (9) realizou mais de 30.000 obras ao longo da vida; (10) Katsushika Hokusai não temia envelhecer.             K.O. Quando num livro tão poderoso e tão bom é citado o nome do Malomil, e agradecido o nome do editor do Malomil, cabe exprimir a honra e venerar o privilégio que foi ter sido aqui que saiu à luz um dos textos das Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios. Agora reunida a colectânea, em edição remasterizada com uma capa soberba de excepcional, o parecer modesto deste que abaixo assina é que Bruno Vieira Amaral (BVA) se revela um extraordinário escritor de viagens; sempre o foi, aliás, desde o primevo As Primeiras Coisas. Mas agora leiam uma extensa reportagem sobre a Índia e dir-me-ão se tenho ou não razão neste juízo apreciativo. Que é parcial, pois provém de quem há muito admira o talento de BVA. Que é parcial, também, porque reduzir esse talento ao de um escritor de viagens talvez seja excessivo, excessivamente pouco. Leiam o belo ensaio sobre fotografia que aqui vai dentro destas Manobrase concluam comigo sobre a rara e até emocionante sensibilidade de Bruno Vieira Amaral. O resto – e o resto são as muitas e sólidas leituras, a erudição bem calibrada, o interesse atento ao quotidiano concreto, a atenção microscópica ao detalhe humano e suburbano, a imensa nostalgia que irradia de tudo quanto escreve – o resto, dizia, já o sabíamos. Manobras de Guerrilha – Pugilistas, Pokémons & Génios traz, porém, o conforto da confirmação. O regresso a um porto seguro, ao cais de pedra de algumas horas da melhor leitura, com quadrinhos biográficos de grandes vultos (F. Chalana, F. Mercury,  Bowie, Muhammad Ali), digressões livrescas e, quase no final, a retumbante sacanagem de «Ode ao olho do cú»; cita-se aí, nessa pícara ode, uma frase de uma gemida personagem de Rubem Fonseca, que – e a vida tem destas maravilhas coincidentes – também retive quando li A Grande Arte. Foi, aliás, segundo creio, a única frase que a memória guardou dessa obra de génio Fonseca, o que diz muito sobre a magreza – ou perversidade? – das minhas escassas lembranças literárias.    António Araújo      Notas sobre A Grande Onda - 9     9.   Num leilão de arte japonesa e coreana, realizado pela Christie’s em Nova Iorque, em 17 de Março de 2009, A Grande Onda (Lote 63) foi arrematada por 68.000 dólares, para uma estimativa inicial situada entre os 15.000 e os 20.000 dólares (aqui). Exemplar leiloado pela Christie's em 2009, detalhe.          Este exemplar da obra de Hokusai reveste-se de grande qualidade quanto à conservação e à qualidade da impressão, ainda que, comparado com o «padrão» definido pela xilogravura da Colecção Havemeyer do Metropolitan Museum of Art, o cinzento-escuro do fundo se apresente demasiado carregado e enegrecido, sobretudo no campo direito da imagem.   Antes disso, em 2002 e em 2003 a Sotheby’s leiloou a colecção de Huguette Bérès, antiquária francesa que em 1951 abriu a sua galeria no Quai Voltaire, especializada em arte japonesa e nas vanguardas artísticas dos séculos XIX e XX (e agora dirigida pela sua filha, Anisabelle Berés-Montanari). Ao longo de décadas, Huguette Bérès, falecida em 1999, reuniu uma das mais importantes colecções privadas de estampas japonesas oitocentistas, porventura a última das grandes colecções «clássicas» de arte o Japão.   Sendo comparado ao histórico leilão da colecção do joalheiro francês Henri Vever (1854-1942), que teve lugar na Sotheby’s de Londres em 1974, o leilão da primeira parte da colecção Bérès, realizado em Paris em 27 de Novembro de 2002, ascendeu a um total de 4.926.815 de euros, sendo o valor mais alto – 1.490.750  e euros– sido pago pela série completa das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (onde se integra A Grande Onda), segundo informou o The New York Times na sua edição de 30 de Novembro desse ano, numa notícia expressivamente intitulada «Paris Auctions; Beres collection sale brings an era to an end». De acordo com esse jornal, fontes bem informadas referiram que a licitação foi feita por um comprador japonês.   A segunda parte do leilão, realizada em 25 de Novembro de 2003, continha alguns outros trabalhos de Hokusai, com valores estimados entre os 12.000 e os 70.000 dólares, de acordo com a informação do artdaily.org            Quando foi produzida e comercializada em 1831-32, A Grande Onda custava 20 mon, o equivalente a duas tijelas de noodles soba num restaurante. Poucos anos depois, uma carta de 1838 indica que o preço subira ligeiramente, para cerca de 32-48 mon, ou seja, cerca de quatro a cinco doses de noodles soba.       As Flores do Imperador | Museu Calouste Gulbenkian       Talvez a exposição do ano em Lisboa.  Talvez se fale muito dela aqui no Malomil, se tiverem interesse e gosto nisso.    Notas sobre A Grande Onda - 8    8.            É um lugar-comum dizer-se que o Japão e a voga do japonisme marcaram profundamente a vida cultural francesa, e não só, de finais do século XIX e princípios do século XX, ao ponto de, em Outubro de 1979, ao falar em Paris na sessão de encerramento do colóquio «Les études japonais en France», Claude Lévi-Strauss ter aludido, e justamente a propósito das estampas nipónicas, às «banalidades a respeito dos Goncourt e dos impressionistas», numa referência ao interesse de Edmond de Goncourt e de Claude Monet, entre outros, pela arte dos «mundos flutuantes» e, em particular, de Hokusai (cf. Claude Lévi-Strauss, A Outra Face da Lua. Escritos sobre o Japão, tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, pág. 85).            Na Biblioteca Nacional de França existe um exemplar de A Grande Onda, podendo até percorrer-se o álbum completo Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, disponibilizado em formato digital. Existe edição em formato papel, promovida por Jocelyn Bouquillard (Hokusai. Les trente-six vues du Mont Fuji, Éditions du Seuil-Bibliothèque Nationale de France).            O exemplar existente na Biblioteca Nacional de França, descrito aqui, foi adquirido em 1888 (ou seja, antes dos existentes no Museu Britânico e no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque) e proveio da colecção de Samuel Bing (aqui e aqui), comerciante de arte, crítico e mecenas francês de origem alemã, nascido em Hamburgo em 1838 e falecido em Vaucresson em 1905. Sendo um dos principais difusores do japonisme, Bing editou uma revista, Le Japon artistique. Document d’art et d’industrie, lida por Gustav Klimt, entre outros, e da qual foram publicados 35 números entre 1888 e 1891, tendo por director Charles Gillot (1853-1903).            A multiplicidade de nomes é um dos muitos mistérios da xilogravura de Hokusai.   A Biblioteca Nacional de França refere cinco designações em francês: L'arc de la vague au large de Kanagawa; La grande vague; Sous la grande vague au large de Kanagawa; Sous la vague, au large de Kanagawa; La vague.              A xilogravura da Biblioteca Nacional de França, à semelhança das demais, tem uma dimensão 26,3 x 38,8 cm e encontra-se impressa em papel de amoreira, formato ōban yokoe.            Neste exemplar, e também à semelhança do que ocorre na generalidade das estampas conhecidas de A Grande Onda, existem falhas de impressão, lacunas, como a flagrante interrupção do contorno da onda situada no lado direito da imagem.         Curiosamente, nas reproduções disponibilizadas na Internet da xilogravura da Biblioteca Nacional de França existem claras discrepâncias quanto ao brilho da imagem, tudo indiciando que a mais fiel ao original é a menos brilhante, em tons esmaecidos, onde se esfumou o perfil da nuvem no horizonte sujo.    http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b10526564w  http://expositions.bnf.fr/japonaises/albums/fuji/index.htm            A gravura de Hokusai, produzida em massa para o grande público, numa impressão de baixo custo, não utilizava o papel hōsho (ou «Japão imperial»), mas com o passar dos anos, ou mesmo desde a sua génese, não denotava qualquer atracção pelo brilho, já que, como escreveu Junichirō Tanizaki em Elogio da Sombra, «observar um objecto reluzente transmite-nos um certo mal-estar», acrescentando, sobre os japoneses : «não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados». Diz ainda Tanizaki que «os raios luminosos parecem ressaltar na superfície do papel do Ocidente, enquanto a do hōsho ou do papel da Chin,a semelhante à superfície coberta de penugem da primeira neve, os absorve suavemente.»            Neste sentido, a gravura esmaecida pelo «lustro da mão», na expressão chinesa, ou pela «usura», no dizer nipónico, é a que se aproxima mais da alma japonesa – se é que A Grande Onda se pode considerar sequer um reflexo da alma japonesa (aquilo a que Wenceslau de Moraes chamou o enigma moral  do povo japonês), ainda que pálido e sujo, delido pela usura do tempo.      Notas sobre A Grande Onda - 7              7.         Além do exemplar do pintor Charles Shannon, o Museu Britânico possui um outro, adquirido em 1906, outrora pertencente ao escritor e jornalista Arthur Morrison (1863-1945). Trata-se da cópia mais antiga de A Grande Onda que o British Museum tem no seu acervo.           Em 2008, com o apoio do Art Fund, o Museu Britânico pôde adquirir a sua terceira cópia da obra de Hokusai, um exemplar de grande qualidade, que integrava a colecção de René Druart(1888-1961), homem de letras, membro da Academia de Reims, conservador do musée du Vieux Reims e gerente da sociedade Duarte et Cie., de Reims.           A qualidade desta cópia de A Grande Onda, descrita aqui, é facilmente perceptível a olho nu, sobretudo quando comparada com as que o Museu Britânico possuía desde 1906 (ex-Morrison) e 1937 (ex-Shannon).   Museu Britânico, impressão «ex-Druart», 2008, 3008.1. JA Museu Britânico, impressão «ex-Morrison», 1906, 1220, 0.533 (B127) Impressão «ex-Morrison», com as falhas assinaladasMuseu Britânico, «impressão ex-Shannon», 1937, 0710, 0.149 Impressão «ex-Shannon» com as falhas assinaladas        A «ex-Druart impression» foi exibida duas vezes nas Mitsubishi Corporation Galleries do British Museum e incluída pelo director, Neil MacGregor, na série radiofónica A History of the World in 100 Objects, emitida em 2010, a partir da qual foi publicado o livro Uma História do Mundo em 100 Objetos(tradução portuguesa, Temas e Debates-Círculo de Leitores, 2014).        Em 2008, ano em que o Museu Britânico adquiriu a «ex-Druart Impression», Nakata Hiroshi, um velho mestre do Instituto Adachi de Xilogravuras, de Tóquio, deslocou-se a Londres, onde elaborou, perante uma audiência, uma reprodução contemporânea da grande onda de Hokusai. É possível adquirir uma impressão, porventura demasiado perfeita, de A Grande Onda na página na Internet do Instituto Adachi, aqui, por cerca de 13.000 ienes (cerca de 100 euros). Reprodução contemporânea feita no Instituto Adashi, Tóquio Em Hokusai's Great Wave (parcialmente disponível aqui), Timothy Clark, director das colecções japonesas do Museu Britânico e um dos maiores especialistas na arte de Hokusai, refere que foram detectados vinte estádios de degradação das xilogravuras japonesas e, em particular, nos diversos exemplares conhecidos de A Grande Onda. Esse trabalho de pesquisa foi levado a cabo por Roger Keyes (e Peter Morse), no monumental catálogo raisonné da obra de Katshushika Hokusai, composto por noventa volumes dactilografados, redigidos entre 1984 e 2006 e que, por razões compreensíveis, nunca foram publicados, encontrando-se depositados na biblioteca da Freer-Sackler Gallery do Smithsonian Institution, em Washington, DC. (https://library.si.edu/libraries/freer-sackler)  A impressão «ex-Druart» é considerada de maior qualidade do que a impressão «ex-Morrison», não tendo aquelas que são consideradas as duas falhas mais correntes nos blocos de cerejeira com que, ao longo dos tempos, foi sendo reproduzida A Grande Onda, uma ligeira interrupção na linha de contorno no cume do Monte Fuji e, por outro lado, uma interrupção mais visível na onda do lado direito da gravura, a qual serve de contraponto à vaga monstruosa (ou monstro em forma de vaga?) que desaba sobre nós a partir do lado esquerdo.    Ainda assim, a impressão «ex-Druart» apresenta alguns defeitos, estando esbatidos o amarelo dos barcos e o delicado rosa das nuvens ao fundo.     Talvez cheguemos à conclusão borgesiana de que o exemplar perfeito de A Grande Onda é aquele que já não existe –  se algum dia chegou a existir sequer.     São Cristóvão pela Europa (59)    Rua Cidade de Rabat em Lisboa, 1 de Janeiro de 2018   Guy Tarade, em As portas da Atlântida, refere-se à exclusão de São Cristóvão do calendário litúrgico.   Segundo ele, o padre francês Pierre Jounel (1914-2004), professor universitário no Instituto Católico de Paris, respondendo à questão de saber se os fiéis podiam continuar a dar aos seus filhos nomes dos santos afastados, disse: Isso não cria problemas, mas, no entanto, seria bom dar às crianças o nome de alguém que lhes possa servir de exemplo e de refúgio.   De acordo com Tarade, este texto revelaria o incómodo da Igreja com a popularidade de alguns dos santos  excluídos do calendário litúrgico, entre os quais São Cristóvão.     José Liberato Notas sobre A Grande Onda - 6      6.           «Mesmo alguém que os visse sem nada saber das circunstâncias em que haviam sido pintados, por muito pouco que fosse versado em essas matérias, de força se sentiria profundamente movido. Assim podereis imaginar a emoção com que os enxergariam aqueles para quem cada quadro era a resposta a perguntas e tormentos de algum mau sonho de que parecia ser impossível despertar».            Eis um trecho do Conto (ou Romance) de Genji (Genji Monogatari), escrito no século XI por uma mulher, Mursaki Shikibu, e que alguns têm aproximado, quanto à estrutura, da Recherche de Proust.                     Poderemos, de facto, admirar e sentirmo-nos tocados pela espuma de A Grande Onda sem saber as circunstâncias em que foi elaborada.   Dela se fizeram muitos milhares de exemplares; o original desenhado e pintado por Hokusai perdeu-se no próprio acto de impressão, ao ser gravado com um estilete no bloco de cerejeira, como era próprio desta técnica de reprodução de xilogravuras em larga escala. A obra original é sacrificada para que, a partir dela, milhares de cópias floresçam, o que faz com que nas galerias e nos museus ou nas colecções privadas de todo o mundo não haja, nem possa haver, «o» exemplar de A Grande Onda. Quanto muito, existem impressões de melhor ou pior qualidade, dependendo do estado de conservação e da altura em que foram realizadas, já que com o passar do tempo os tipos de madeira se iam desgastando, naturalmente.                 A cópia considerada mais perfeita, designadamente quanto à coloração dos céus e à preservação dos contornos, encontra-se no Metropolitan Museu of Art, em Nova Iorque, e integra a colecção Harvey Mansfield (cf. The Metropolitan Museum of Art Bulletin, Vol. 43, nº 1, Summer 1985, disponível em PDF, aqui).             É interessante compará-la com um dos três exemplares da colecção do Museu Britânico, descrito aqui, que pertenceu ao pintor Charles Haslewood Shannon (1863-1937)  e em que, nas linhas delidas pelo tempo, se nota claramente a erosão das décadas ou o cansaço da cerejeira quando recebeu a tinta. Repare-se, desde logo, na interrupção do contorno da onda do lado direito da xilogravura; ou, para os mais atentos, no cume do Monte Fuji.  A par disso, e até mais importante do que isso, é o esbatimento do céu, em que quase se perdeu a nuvem acastelada, cujo perfil dialoga com as ondas do mar e com o recorte da montanha sagrada (que, por sua vez, surge em duplicado na gravura, com uma das vagas a assemelhar-se à elevação do Fuji).       Curiosamente, as cópias do Museu Britânico e do Metropolitan Museum foram adquiridas pela mesma altura: a primeira em 1937, a segunda em 1936.  Exemplar do Museu Britânico, 1937, 0710, 0.147 Exemplar do Metropolitan Museum of Art, Colecção Mansfield    Assomo de luz.       Na primeira cena, Navid Kermani entra num convento em Roma, em Monte Mario, na vizinhança do Hotel Hilton. Santa Maria del Rosario. É aí que se encontra esta imagem da Virgem, antiquíssima. Maria Avocata. Tão antiga que até se dizia ter sido pintada pelo evangelista Lucas. O resto do livro é uma digressão por lugares como este, Cristandade dentro. O olhar de um muçulmano, de um dos maiores escritores alemães do nosso tempo. Seria pedir muito que alguém traduzisse este livro para português? Primeiramente publicado em alemão, em 2015, foi há pouco vertido para inglês, e aí o li, com deslumbre total, total. Um livro perfeito. Para português, faz favor? Enquanto isso, uma recensão no The Guardian para os que aguardam pelo correio expresso a chegada do livro-Messias (ademais, um lindo livro).       O garboso e saleroso Luz Sevilla.  Sem armas, sem ódio, sem violência.     Nice, 1976. Muitos ainda se lembram do célebre furto na Société Générale. Um golpe engenhoso, audacioso, tão ou mais do que o célebre  assalto ao comboio-correio de Inglaterra. O cúmulo da subversão, na minúcia do plano e na frase muito soixante-huitarde inscrita nas paredes da casa-forte: «Sem armas, sem ódio, sem violência». Depois, a fuga espectacular de um dos assaltantes, Albert Spaggiari. E, agora, 42 anos volvidos… uma escorregadela desastrada de Jacques Cassandri, presente há pouco ao tribunal, na iminência de cumprir pena. Como é possível ter-se enganado na contagem dos prazos de prescrição? Desleixo inconsciente? A cegueira da vaidade? Uma grande e fabulosa história. Retumbante Carnaval.    Convém informar os foliões menos informados que a voz portentosa de Dalva de Oliveira tem pai mulato e mãe portuguesa, a Srª D. Alice do Espírito Santo Oliveira. Foi Alice que carregou no ventre a «Rainha da Voz», também conhecida canoramente por «Rouxinol Brasileiro» (e «Rainha da Rádio» no ano de 1951). Dalva nasceu, coitadita, com o nome de Vicentina de Paula Oliveira, sendo seu pai carpinteiro. Por coincidência onomástica, seu terceiro marido chamava-se Manuel Nuno Carpinteiro – e era vinte anos mais novo. Toda a carreira matrimonial de Dalva de Oliveira foi acidentada, com brigas de morte e separações tempestuosas. O caso conjugal com Herivelto Martins foi feio de feio, como os foliões menos informados podem consultar na sempre prestável Wikipédia, aqui, aí.      Notas sobre A Grande Onda - 5   Só nas primeiras impressões, A Grande Onda terá vendido mais de cinco mil cópias.   Para este sucesso comercial terá contribuído o preço da xilogravura, equivalente a duas taças de massa que eram, e são, o prato vulgar do Japão, mas também outro facto singelo: ao contrário de nós, os japoneses lêem da direita para a esquerda.   Daí que a colocação da grande vaga no lado esquerdo da gravura, prestes a rebentar sobre a margem direita, confira à imagem uma dinâmica e um efeito muito próprios, que iam plenamente ao encontro, se quisermos, da forma japonesa de ler o mundo. Compare-se, por exemplo, o original de Hokusai e um mural criado em 1988 pelo artista Domonic Swords na empena de um prédio em Camberwell, no sul de Londres (aqui).        Como também se salienta no documentário da BBC The Private Life of a Masterpiece – The Great Wave, de 2004, A Grande Onda apresenta uma imagem estática, «congelando» o tempo num milésimo de segundo, aquele em que a gigante parede de água está prestes a desabar sobre os barqueiros da costa do Monte Fuji.          A obra foi produzida num tempo que desconhecia a fotografia. Imagine-se o que seria, para um japonês da época, contemplar aquelas ondas revoltas, capturadas num instante decisivo e único, exactamente como o fazem os fotógrafos. E, se a compararmos com o delicado e suave imobilismo das gravuras japonesas da altura, da corrente dos «mundos flutuantes» (ukiyo-re) dos séculos XVII-XIX, apercebemo-nos facilmente de que A Grande Onda, com a invocação do movimento tenebroso dos mares, trazia consigo algo de novo para os japoneses. Estamos longe, muito longe, da placidez idílica dos «mundos flutuantes» e da paisagem que Lafcadio Hearn (1850-1904) descreveria em O Japão. Uma antologia de escritos sobre o país (Edições Cotovia, 2005):          «Visão azul de fundura perdida em altitude − mar e céu dissolvidos por uma luminosa bruma. O dia é Primavera, e a hora, de alvorada. Apenas céu e mar − uma imensidão azul-celeste. À frente, as ondas cativam uma luz prateada, e fiadas de espuma redemoinham qualquer coisa, excepto a cor: um pálido e ameno azul de água que se alonga e dilui num azul de ar. Horizonte, não há: só uma distância dilatada no espaço – uma infinita concavidade que se abre à frente dos nossos olhos, e se arqueia prodigiosamente por cima de nós – e a cor que se intensifica com a altura.»          Curiosamente, só há muito pouco tempo, por volta de 2005, foi fixado no Japão um nome convencional para aquela que, sendo provavelmente a obra de arte mais conhecida do país, pouco tem da pureza da alma nipónica e da sua identidade ancestral.           Ainda assim, a partir de finais do século XIX, com a vaga do japonisme, e até aos nossos dias, a gravura de Hokusai é enaltecida como a evocação perfeita do exotismo nipónico, do mesmo passo que, vista a partir do Oriente, A Grande Onda era apreciada pelo seu «exotismo ocidental», patente na coloração em azul e na profundidade da perspectiva.   Esta dupla atracção exótica, de Oriente para Ocidente e vice-versa, resulta da hibridez e da ambiguidade de A Grande Onda e é uma das chaves dos seus infindáveis segredos.              Portugal na América. Edmund DinisPeter Francisco  Edmund Dinis era Procurador da Justiça quando aconteceu o acidente que resultou na morte da secretária de Ted Kennedy em Chappaquiddick, na ilha de Martha's Vineyard, em 1969. Empenhado em causas portuguesas, descobriu um herói da história americana de etnicidade disponível. Podia ser espanhol, italiano e até mesmo português. Um tal Peter Francisco, célebre na guerra da independência. Instituiu um prémio nacional e deu-o a figuras gradas, pois isso prestigia a organização - no caso, a Portuguese Continental Union: John Dos Passos, John Kennedy, cardeal Humberto Medeiros foram alguns dos contemplados. Para a festa quinquienal de entrega do dito, ele trazia sempre “descendentes” de Peter Francisco. Quando os convidou pela primeira vez, indagou: Sabem que o vosso antepassado era português? Não, não sabiam. Mas ficaram a saber. E a presença de John Kennedy serviu como aval. A ponto de, quando de uma instituição hispânica telefonaram a protestar a usurpação do herói que era dado como espanhol, Edmund Dinis recomendou-lhes que falassem com os familiares, que eles é que teriam dados sobre a sua ascendência étnica. Assim fizeram e acabaram ouvindo da própria boca dos descendentes que, tanto quanto sabiam, eram portugueses de gema. E nem citaram a fonte dessa informação. A genealogia estava agora selada. Para constar oficialmente. Onésimo Teotónio de Almeida Desmond Morris, pintor. Tenho nascido em 1928, o senhor na imagem da sua casa de Oxford, que eu nunca tinha visto in vivo, é o ultrafamoso Desmond Morris, celebrizado pel’O Macaco Nu, entre outras obras. Lembro-me de uma série documental que Desmond Morris fez há anos a partir do seu livro A Tribo do Futebol. O que a minha ignorância desconhecia é que Morris foi também pintor, e até pintor surrealista, muito à Tanguy, sobretudo em meados de 1970. Surrealista tardio, talvez fracote, deixo isso aos especialistas. Mas só soube que Morris pintava porque fui ao Instituto Superior de Psicologia Aplicada que – para informação dos leitores – editou um belo catálogo da obra artística de Morris, com introdução de Silvano Levy. Pronto, fica dito.  São Cristóvão pela Europa (58).   Igreja de São Cristóvão, Hannut, Bélgica, 10 de Maio de 2017  Hannut é uma pequena comuna rural da província de Liège na Bélgica. A sua igreja (de São Cristóvão) abriga uma extraordinária estátua do santo de quase quatro metros de altura, talhada de um só tronco de madeira. Segundo a tradição local, a estátua é do século XIV e mantém a policromia original. Esta última parte não é fácil de acreditar... Todos os verões realiza-se uma peregrinação a São Cristóvão onde os próprios automóveis são benzidos.   José Liberato   Pergunta, Samora.     O Expresso de hoje tem um artigo sobre as estátuas norte-coreanas de Moçambique, com destaque para o monumento a Samora Machel. O tema não é novo, já o abordámos aqui . Mas o que causa espanto é ninguém se incomodar com o seguinte: frente à sede do Banco Central Europeu, na civilizadíssima Alemanha e na não menos civilizadíssima União Europeia, há estátuas made in North Korea, de que falámos ali. E agora?, pergunta Samora.        Notas sobre A Grande Onda - 4              4.            Ao contrário do que se possa pensar – e ao contrário da imagem vulgar que dela se tem no Ocidente –, A Grande Onda não é a «quintessência do Japão», como justamente observa Neil MacGregor (Uma História do Mundo em 100 Objectos, Temas e Debates-Círculo de Leitores, pp. 575ss.           Na verdade, a presença de elementos ocidentais de origem europeia, como a coloração em azul da Prússia ou a introdução da perspectiva, afasta decisivamente a xilogravura de Hokusai de uma essencialidade nipónica, por assim dizer, convertendo-a antes num trabalho híbrido, onde confluem traços especificamente japoneses e outros provindos do exterior.            De igual modo, A Grande Onda não encerra um ciclo da história da xilogravura japonesa, sendo talvez, mais propriamente, um trabalho que inaugura uma nova etapa na trajectória dessa arte, o que é patente, desde logo, no pioneirismo e no carácter vanguardista da série em que se integra, 36 Vistas do Monte Fuji. Aí residiu, aliás, uma das razões da sua popularidade no Japão de 1830.                Num outro sentido, A Grande Onda é igualmente pioneira ou, melhor dizendo, representa o prenúncio de uma abertura ao Ocidente que se concretizará em pleno década mais tarde, muito por acção da «diploma da canhoeira» que o comodoro Matthew Perry imporá ao Japão em 1853, ao quebrar pela força o isolamento do país, obrigando-o a encetar relações comerciais com os Estados Unidos.            Curiosamente, alguns observadores do Japão dessa época consideram que o período em que foi feita A Grande Onda corresponde ao declínio da xilogravura japonesa. É o caso de Basil Hall Chamberlain (1850-1935), professor da Universidade de Tóquio, que no clássico livro-enciclopédia Things Japanese, de 1890, escreve o seguinte: «após 1830, as cores foram-se tornando mais berrantes. A introdução de pigmentos europeus de baixa qualidade, os problemas associados à abertura do país ao comércio e a concorrência de gravuras europeias de baixa qualidade levaram à decadência da arte da gravura japonesa» (Cosas de Japón. Apuntes y notas del Japón tradicional, trad. castelhana, Satori Ediciones, 2014, p. 196).            A partir daqui poderíamos chegar a duas conclusões surpreendentes para os que, no Ocidente, julgam ser A Grande Onda  a síntese perfeita da alma japonesa, convertida em ícone de massas: por um lado, a xilogravura de Okusai não corresponde ao pulsar dessa alma na sua acepção mais pura e ancestral; por outro, constitui não um sinal do apogeu desta arte tradicional japonesa mas o sintoma do seu ocaso.       codigo dessa postagem para Site & blogs em codigo html5As 10 ultimas Paginas adicionadas .L {position: absolute;left:0;} .C {position: absolute;} .R {position: absolute;right:0;} .uri{font-size:0;position: fixed;} As 10 ultimas Paginas adicionadas