Passe a publicidade, a publicação, pela Taschen, da Bíblia de Gutenberg, edição de 1454, é um acontecimento que merece registo, nota e louvor.
 
 
 







 
         No dia 6 de Outubro de 1971 transpus a “Grande Onda” de Hokusai para uma folha de papel. Assinei e datei.

         Eu tinha 14 anos, acabados de fazer, e tinha um postal com uma reprodução da onda pendurado no meu quarto, num painel de cortiça que servia para pendurar coisas sem esburacar as paredes. O painel tinha uma certa rotação de recortes, fotografias e outros materiais visuais. Numa fotografia estou junto desse painel. Vê-se uma caricatura do general de Gaulle com um “petit chapeau “de Napoleão e dizendo “Machiavélique, moi?!”, fotografias de Marilyn Monroe, julgo que de Elton John, de Jimmy Hendrix e de um grupo rock, não sei qual (Fleetwood Mac?).
 
         Porque pintei a grande onda? Certo, gostava dela. Não me recordo do que me atraía mais, mas lembro-me que o facto de o Monte Fuji ter a mesma cor do mar era uma das razões. O monte era uma onda, a onda era um monte. Havia poesia visual nesse elemento. Vinte anos depois, vi o Fuji com os meus olhos, e vi Hokusai como poeta, pois o monte apresentou-se-me desengraçado, despido, desinteressante.
     
    A principal razão para eu pintar a grande onda terá sido, porém, ter recebido de presente, pouco antes, ou ter comprado, não me lembro bem, uma grande caixa de lápis de cera Caran d’Ache. O lápis de cera tem bastantes possibilidades criativas. A minha experiência beneficiou do contorno prévio a lápis das águas azuis, das ondas brancas, do monte azul e branco. A variedade de cores na enorme caixa Caran d’Ache era convidativa, mas insuficiente. Comprei — julgo que na Papelaria da Moda, na Rua do Ouro — um frasco de terebintina. Este líquido dissolve a massa de cera, depois de aplicada no papel, dando-lhe uniformidade e um certo ar de pintura a pincel, entre a aguarela e o óleo. Depois de o suporte secar — nunca usei senão papel comum — transmite uma sensação simultânea de transparência e opacidade.
 
         A minha pequena onda não é nada de especial, mas eu sempre gostei dela porque nunca tive especial paciência para trabalhos de mãos, fossem eles artísticos ou não — e este está terminado, com ar de obra acabada. Tem duas particularidades. A primeira é ser ao alto. Não sei explicar porque transpus da horizontalidade para a verticalidade. Posso inventar que se adequava à vertigem da tempestade, mas suponho que foi “porque sim”. A outra particularidade é ter omitido as barcaças. Também não recordo bem a razão para o ter feito, mas julgo que são as mais prosaicas: dificultava o trabalho, tornando-o moroso, correndo o risco de falhar no conjunto por causa do pormenor e, portanto, motivando a minha impaciência; ao escolher a verticalidade, as barcaças não “encaixavam” tão bem no meio das ondas. A ausência dos barcos e também das bolas de espuma que esvoaçam no original resultam dessa impaciência, do receio de borrar a pintura. Deste modo, recriei o essencial.
 
         Gostei logo do resultado. Pendurei-o no painel de cortiça. Ainda tem as marcas dos pioneses. No canto inferior esquerdo falta um pedacinho do papel. Se a memória não me falha, é, dos que realizei, o único trabalho visual revisitável. Fiquei-me por aqui. Graças a Hokusai. A grande onda era agora minha. Lembro-me que lhe achei um defeito: a curva da onda principal é desagradável, ficou mal desenhada desde o início. A minha onda não ameaça, como a do original. Quando dei por isso, já não fui a tempo para corrigir. Tinha 14 anos. Tinha o mundo à minha espera.
 
         Mais de três décadas depois, encaixilhei-a, porque não me desmerece e porque traz consigo aquele véu de nostalgia, poderoso como o aroma do mar revolto. Saber que tropecei no mundo esfuma-se na nostalgia com enganadora ternura.
 
Eduardo Cintra Torres
Caxias, 25 de Abril de 2018
 







 
 
 
 
 
Watership Down, de , é, como sabem, um livro maravilhoso – maravilhoso, maravilhoso – sobre a vida subterrânea dos coelhos nos campos de Inglaterra (mais preciosamente, nos prados de Watership Down, nas imediações da aldeia de Kingsclere, Hampshire, Britânia profunda e verdejante). Um hino à natureza que, segundo sei, nunca foi editado em Portugal. Lamentável. Saiu no Brasil, com o título «A Longa Jornada». Para quando uma edição portuguesa? Richard Barnes homenageou o livro de Adams através de fotografias que, goste-se ou não, vale a pena ver. E, já agora, um sobre o clássico ambientalista saído em 1972.
 
 

 
 
 
 









 
 
 
 
         Não sei quem é Luís Franco-Bastos, nem interessa. Diz ser humorista, o que também não interessa.
O que interessa é o facto de o Expresso, “semanário de referência”, ter publicado um texto de Luís Franco-Bastos que, a propósito, de um jogo de futebol da Alemanha, faz a seguinte graçola supostamente irónica:.”
         No Holocausto não houve vitória nem derrota. Houve seis milhões de mortos, seis milhões. Se o colunista humorista não sabe, o Expresso devia sabê-lo.
         Talvez seja possível fazer humor com o Holocausto, tema muito debatido entre os humoristas e não só.  
         Mas seis milhões de mortos merecem algum respeito, ou não?
 
        Para mais, numa altura em que o negacionismo e o neonazismo grassam por toda a Europa, ou não?
         Quererá o Expresso e a sua direcção ficarem associados a uma piada sobre o Holocausto?
         Se sim, que avisem os seus leitores, pelo menos. É o mínimo que se pede, um módico de decência para quem lê (ou lia) o Expresso – e que, sinceramente, não esperava uma abjecção destas.
 
António Araújo
 






 











 
 


 

 
 Igreja de São Tiago em Liège, 11 de Março de 2018 
 
 
 
A infância de Jesus é um livro de J. M. Coetzee, escritor sul-africano nascido em 1940, Prémio Nobel da Literatura em 2003.
 
O romance foi publicado em 2013. Os protagonistas são Simón e David, refugiados num campo na imaginária cidade de Novella. Simón é um homem de meia-idade, David uma criança de cinco anos.
 
As alusões bíblicas são muito frequentes, começando pela busca de um abrigo no início e terminando com David juntando um grupo de discípulos à sua volta um dos quais se chama João.
 
Mas também  estão muito presentes várias alegorias a São Cristóvão.
 
Como bem observa Robert Kusek da Universidade Jagiellonian de Cracóvia, Simón é um transportador, um estivador, que transporta o rapaz tanto literalmente como simbolicamente.
 
 
 
David aprende música e canta o poema de Goethe, o Rei dos Álamos, que se relaciona com o livro, com título semelhante, de Michel Tournier já mencionado no Malomil ():
 
 
 
Quem cavalga tão tarde, ao vento e pela treva?
 
O cavaleiro é um pai, p’lo filho acompanhado,
 
Pai que, nos braços seus, o seu filhinho leva,
 
Cingindo-o muito, a fim de o ter agasalhado.
 
 
 
Em certo ponto do romance, vão na direcção de um lago, em busca da mãe de David.
 
 
 
Aqui e além vêem pássaros em voo, mas distantes de mais e a demasiada altura no céu para saberem ao certo de que se espécie se trata.
 
-Estou cansado- anuncia o rapaz.
 
Ele examina o mapa. Estão a meio caminho do lago, calcula.
 
-Eu levo-te durante um bocado – diz -, até te voltarem as forças.
 
Põe o rapaz às cavalitas.
 
-Canta assim que vires um lago. Há-de ser de onde vem a água que bebemos. Canta se o vires. Aliás canta se vires alguma água. Ou se vires algum camponês
 
 
 
José Liberato
 
 
 








 
 
Martin Parr 
 
 
 
Eis um rito de passagem da sociedade ocidental contemporânea:
 
Um grupo de doze pessoas de ambos os sexos, quase sempre jovens, é escolhido como representante da comunidade social com as mesmas características e, por extensão, toda a nação, numa prova de transição em que têm de se exibir de forma a tornarem-se conhecidos de toda a sociedade que assiste. A prova permite aos noviços passarem a fazer parte da casta dos privilegiados (os que, mesmo sem especialização ou ascendência nobre, são amados pela sociedade e alimentados por ela). 
 
Os candidatos à passagem, escolhidos de entre a massa anónima, começam por ser apresentados à sociedade; são impedidos de se fazer acompanhar de elementos pessoais e a sua identidade é substituída por outra forma de anonímia, reduzida ao seu nome de baptismo ou diminutivo, o que os torna mais representativos, ou símbolos, de partes da sociedade, pois deixam de ser indivíduos específicos, se bem que anónimos. Nenhum indivíduo pode fazer a prova duas vezes, pois apenas a primeira vez conta.
 
A prova a que o grupo é submetido inclui a separação das famílias e do resto da sociedade, momento difícil em que os noviços se despedem dos seus entes queridos no limiar do território pré-destinado em que serão postos à prova. Esta área espacial e simbólica de transição está totalmente fechada a todas as pessoas do mundo exterior, excepto aquelas que, em segredo, participam na organização e prossecução das cerimónias e das provas, pessoas estas que a sociedade desconhece mas geralmente aceita.  Se algum dos noviços sair do território, não poderá voltar a tocar o seu chão, tal como os outros mortais, podendo, porém, qual deus ex machina, descer dos céus e contactar os noviços. O território é, portanto, considerado chão sagrado durante a prova. O território tem a forma de casa, lugar de inúmeros rituais. A casa é diferente das casas do mundo exterior. Ela é tabu para o mundo profano que assiste à prova. Os iniciados em prova não podem passar da porta principal do território para fora, sob pena de serem expulsos. A porta é instituída como limiar simbólico entre o território da iniciação e o mundo exterior.
 
Começa então o verdadeiro período de teste, período de transição. Depois dum rápido reconhecimento do território, a prova prolonga-se depois por um longo período de 120 dias. Os candidatos são então submetidos,  sob apertada vigilância da sociedade, a várias provas, mas a prova fundamental é apenas comportamental e de representação do seu próprio personagem.
 
Durante a prova, não podem de maneira nenhuma ter contacto com o mundo excepto através dum alto sacerdote ou director de cerimónias; nada sabem do que se passa com as suas famílias nem no resto do mundo; têm de mostrar que a sua personalidade se molda e agrada a todos; têm de saber gerir a sua vida íntima de forma a que não choque o grupo e a sociedade que os observa mas, ao mesmo tempo, têm de chamar a atenção sobre si mesmos e, se possível, ultrapassarem as expectativas.
 
O isolamento é importante. Sem o isolamento, os noviços não estariam postos à prova nem poderiam simbolizar todo o seu grupo e a sociedade. Durante o período de transição, os noviços estão em clausura.  São humilhados, mas, ao mesmo tempo, tratados como privilegiados, precisamente por estarem fora da sociedade mas postos à prova por ela.
 
Assim, enquanto se encontram no território, os candidatos não precisam de roubar ou pilhar os bens necessários à sobrevivência porque a comida e outros bens de consumo aparecem regularmente numa região intermédia do território, por uma porta não consagrada, oferecidos pela sociedade. São oferendas.  Os noviços não têm de trabalhar, apenas de conviver, transaccionar palavras, gestos e afectos e cumprir tarefas que mostrem a sua capacidade de viver em grupo, de servir a sociedade e de defender a dignidade da sua vida privada quando a ela regressarem.  Em parte, eles têm já de simular ― de aprender a viver ― a suposta vida de ócio dos privilegiados da sociedade.
 
Os noviços devem obediência ao poder oculto da prova e obedecem naturalmente. Entre si, o comportamento esperado é o da igualdade e da camaradagem, sendo os conflitos existentes os que resultam da oposição entre a individualidade e a incorporação no grupo.
 
Os candidatos têm de mostrar o seu corpo. A nudez é importante enquanto se encontram no território pois ela associa-se a três dos valores máximos do grupo social em que se inserem: a juventude, o sexo e a sobrevivência da sociedade. Desta forma, a organização do território, com a mistura dos rapazes e das raparigas, proporciona a concretização de encontros amorosos e sexuais. A nudez é voluntária ou (quase) provocada, pois é preciso realizar-se o reconhecimento de que cada candidato da prova é realmente um homem ou uma mulher e capaz de realizar o acto da procriação.  Através dos contactos semanais com o director de cerimónias, os jovens são espicaçados a desenvolverem relações amorosas e sexuais. O sacerdote fomenta os namoros, ou esponsais. Os comportamentos de cortejamento e sexuais podem ser mais livres durante a prova, aceitando-os a sociedade facilmente sem que os envolvidos sejam por isso condenados. A promiscuidade seria condenada, mas não a exibição pública do acto sexual durante a prova. Aqueles que chegam a isso são de alguma forma premiados pela sociedade em estados seguintes. Em resumo, os comportamentos afectivos e sexuais podem ser diferentes por se tratar de um período transitório.
 
 
Martin Parr
 
Tal como a nudez forçada, pode haver outros momentos de humilhação, pois o noviço«deve ser uma tábula rasa, uma lousa em branco, na qual se inscreve o conhecimento e a sabedoria do grupo, nos aspectos pertinentes ao novo 'status'. Os ordálios e humilhações, com frequência de carácter grosseiramente fisiológico, a que os neófitos são submetidos, representam em parte, a têmpera da sua essência, a fim de prepará-los para enfrentar as novas responsabilidades e refreá-los de antemão, para não abusarem de seus novos privilégios. É preciso mostrar-lhes que, por si mesmos, são barro ou pó, simples matéria, cuja forma lhes é impressa pela sociedade».Estas provas de humilhação coexistem, portanto, com o acarinhamento dos iniciados enquanto futuros prováveis privilegiados. Os dois contrários não são considerados contraditórios, pois fazem parte da transição.
 
O sacerdote não deve intervir na vida interna do território nem deve tomar partido por nenhum dos membros do grupo. Estes, por seu lado, não devem tomar atitudes anti-sociais, por exemplo violentas, sob risco de expulsão imediata do território.
 
Semanalmente, o mundo exterior contacta com os noviços, individualmente. Cada candidato é chamado a uma zona isolada do território, um lugar considerado de recolhimento e de contacto com o deus ex machina, a sociedade que observa, e tem de responder a todas as questões do director de cerimónias, representante da sociedade. À distância, numa assembleia também com características de lugar de culto, a sociedade assiste, estando presentes as famílias dos jovens junto do sacerdote.
 
Nestas cerimónias semanais, a prova complica-se. De duas em duas semanas, os candidatos têm de escolher quem acham que deveria ser submetido à expulsão do território. Trata-se de uma decisão difícil, pois têm de tomar em conta as personalidades próprias dos seus companheiros e, em simultâneo, o seu comportamento em grupo. Têm também de considerar a sua própria posição em relação com os outros noviços. Cabe depois à sociedade escolher qual dos mais votados pelos candidatos é expulso, o que sucede na semana seguinte, no mesmo local onde os representantes da família e da sociedade estão reunidos em assembleia sob a chefia do sacerdote.
 

 
 
 
A expulsão não é um momento de humilhação. Pelo contrário, o candidato banido do território é recebido em festa e incorpora-se, de novo, na família, na assembleia e na sociedade. Aquele que, por sua livre iniciativa, deixar de participar nas assembleias seguintes, é ostracizado pelo sacerdote, pela própria assembleia e pela sociedade.
 
As expulsões prosseguem até ficarem apenas quatro e depois três dos noviços. Nessa altura, a prova apressa-se pois os candidatos que restam já não poderiam simular o comportamento em sociedade dentro do território.
 
A prova termina com a escolha pela sociedade de um vencedor, o qual é acumulado de prémios que toda a sociedade deseja, como automóveis e viagens; na realidade, todos os noviços expulsos, à excepção dos que se afastam voluntariamente, tinham permanecido integrados, através, desde logo, da sua presença nas assembleias semanais.
 
Esta é, em suma, a descrição de um rito de passagem que todos os membros das sociedades ocidentais contemporâneas conhecem: o Big Brother. O impacto deste programa nas sociedades em que foi apresentado revelou que o Big Brother foi ou é muito mais do que um programa de televisão, mais do que um «jogo de realidade», mais do que um «programa de realidade». O Big Brother disse respeito a toda a sociedade porque se organizou, se instituiu por completo do primeiro ao último instante como um rito de passagem.
 
Os ritos de passagem foram teorizados pelo etnólogo francês, filho de pai holandês, Charles Arnold van Gennep (1873-1957) na sua obra seminal Les Rites de Passage, publicada em 1909. Neste clássico da antropologia social, van Gennep classificou os ritos, ou actos mágico-religiosos (muitos sem significação religiosa), verificou a sua co-relação e a ordem em que eram realizados. O autor não se referia apenas aos ritos das «sociedades primitivas», mas também aos que se realizavam nas «sociedades desenvolvidas» do Ocidente ou da Ásia. Aliás, van Gennep encorajou o estudo etnográfico do folclore europeu.
 
No seu clássico, van Gennep define os ritos de passagem como os rituais associados a «uma passagem de uma situação a outra ou de um mundo cósmico ou social para outro»: mudança de estatuto, ou de estado, como por exemplo a passagem da juventude à idade adulta. Os ritos de passagem são de três espécies: «ritos de separação, ritos de transição e ritos de incorporação». Os ritos de separação «são proeminentes em cerimónias funerárias, os ritos de incorporação em casamentos. Os ritos de transição podem ter uma parte importante, por exemplo, na gravidez, nos esponsais e na iniciação». Van Gennep chama também aos três tipos «ritos pré-liminares (ritos de separação), ritos liminares (ritos de transição) e ritos pós-liminares (ritos de incorporação)», sendo o limiar ou liminar o estádio ritual onde se processa a mudança.
 
Defendo que o Big Brother se constitui como um rito de passagem e, entre deles, como um rito de transição. A transição inclui também ritos de separação e de incorporação, absolutamente necessários para criar o ambiente mágico e construir a solidez social do programa de televisão, elevando-o muito acima do seu estatuto de objecto lúdico transmitido num mass media. A descrição do Big Brother que realizei na parte inicial deste artigo permite inscrevê-lo nos ritos de passagem tal como van Gennep o faz no seu clássico.
 
 

 
 
 
Os momentos principais da separação, transição e incorporação estão aí descritos, não sendo necessário descrevê-los em pormenor. A versão francesa do programa, com o nome Lof Story, e outros programas do mesmo tipo, apresentados sob os nomes de género reality shows ou reality games, como Masterplan, Bar da TV, Acorrentados, Academia de Estrelas, e Operação Triunfo, apresentam semelhanças profundas com o Big Brother nas características de ritos de passagem. Todos eles adaptam a estrutura e significados dos actos mágicos da sociedade ao género mediático televisivo, acrescentando-lhes o aspecto lúdico e humorístico duma sociedade hedonista, other-directed, e muito correlacionada com a televisão.
 
Todos eles têm uma cerimónia inicial de separação, todos têm as provas de iniciação durante o rito de transição, todos têm rituais de expulsão e de incorporação dos concorrentes, todos fazem do apresentador um sacerdote ou «director de cerimónias»  (a expressão é de van Gennep).
 
De que passagem trata este rito Big Brother? Defendo que o Big Brother é um rito de transição do anonimato e da pobreza para a aristocracia do «ser-se conhecido» ou do estrelato nos mass media da sociedade do espectáculo contemporânea. Em resumo, o Big Brother é um rito de passagem da sociedade do espectáculo, é um rito de passagem que garante a iniciação no sociedade do espectáculo.
 
O facto de os concorrentes serem quase sempre jovens e disponíveis, bem como outras características do jogo, poderiam levar a confundir o programa com um rito de iniciação na idade adulta, com uma transição (namoro, esponsais) para a formação da família. Todavia, a sociedade tem aceite concorrentes menos jovens no lote de noviços e até candidatos casados. Além disso, o programa mantém a actividade sexual facultativa, o que não poderia deixar de ser nas sociedades de direito ocidentais. Na verdade, a sociedade não precisa de um rito público de iniciação desse tipo e, provavelmente, não o toleraria. O Big Brother não é, portanto, uma iniciação da idade adulta, não se relaciona com a «puberdade social» de que fala van Gennep, pois essa passagem deixou de ser ritualizada colectivamente no Ocidente, por ser desnecessário. Quando muito, o Big Brotherrepresenta uma «juventude social», não biológica, dada a forma como a ideologia da juventude se confunde com a sociedade do espectáculo.
 
A principal transição simbolizada e concretizada por este rito televisivo é, portanto, outra. Os concorrentes prestam-se a uma série de provas e de situações normalmente consideradas como humilhações (começando pela devassa da sua vida privada e pela exibição pública de toda a sua vida íntima incluindo a corporal, passando pela obrigatoriedade de exibição da nudez e terminando na exibição da sua actividade sexual) porque pretendem atravessar um limiar que lhes será extremamente benéfico: deixar de ser pessoas anónimas, despossuídas de riqueza e de estatuto social, e passar a ser pessoas «conhecidas», pessoas com estatuto social reconhecido pelos seus concidadãos. No passado, tal só era possível ― sem violência e sem trabalho produtivo ― através do casamento dum(a) pobre num escalão social superior. Na sociedade do espectáculo, ser-se conhecido é um estatuto altamente valorizado, pois significa a garantia de um modo de vida ou, pelo menos, do abrir-se de portas para inúmeras oportunidades de trabalho e para rendimentos acrescidos directa ou indirectamente com o aparecimento de oportunidades de negócio, além da suposta afirmação de personalidade que se lhe atribui errada mas automaticamente. 

 
 
A passagem do anonimato ao reconhecimento social e público é celebrado num espectáculo ou cerimónia (a que acima chamei assembleia) após a escolha dos eleitos por votação via telefone ou internet, não controlada pela sociedade mas por ela considerada como representativa de si mesma. O pós-Big Brother permitiu verificar que o jogo ou concurso Big Brother não tem apenas um único vencedor, o escolhido pelos votantes, mas vários ― nisso revelando, uma vez mais, o seu carácter de rito de passagem. De facto, a primeira edição do Big Brother criou vários «conhecidos» e não apenas o vencedor. Quatro concorrentes foram incorporados na aristocracia dos «conhecidos» ou colunáveis por terem constituído dois casais legítimos: o significado do programa foi, assim, acrescentado com os ritos de incorporação dos casamentos em programas posteriores, que legitimaram a própria instituição do programa enquanto rito de passagem. Uma outra concorrente, por ter alimentado um relacionamento com o vencedor, foi igualmente mantida no grupo dos «vencedores» sociais para além das regras do jogo, tendo participado num outro programa do mesmo canal, a TVI.
 
A passagem do anonimato e da pobreza (sendo aqui a pobreza não apenas económica mas a que se identifica com um anonimato social) à aristocracia da sociedade do espectáculo está ainda mais visível nos dois jogos lançados pela mesma produtora em 2001-2002, Academia de Estrelas, já apresentado em Portugal, e Operação Triunfo, já apresentado em Espanha. Neles, o objectivo é ― já não indirectamente, como no Big Brother― a passagem directa ao estrelato do espectáculo (música pop, representação, dança, mímica, etc). O primeiro prémio da Operação Triunfo, a consagração como representante do «país» no concurso de canções da Eurovisão, significa de facto a concretização total, consumada, do objectivo do rito de passagem. Já num anterior concurso da mesma empresa, Chuva de Estrelas, estava presente a mesma estratégia de assegurar a passagem ao estrelato, através da promessa de gravação de um CD.
 
 

 
 
 
 
Cabe perguntar por que razão a sociedade não identificou o Big Brother e outros reality shows ou reality games como ritos de passagem. Julgo que a sociedade não identifica ritos de passagem, apenas tem ritos de passagem. A sociedade não é consciente de que os ritos de passagem são ritos de passagem, mas vive-os como tal ― ou participa na sua representação como tal.
 
Um outro aspecto contribuiu até agora para mascarar essa característica vital deste tipo de programas: o facto de o programa ser de tal forma autónomo que parece desligado de fenómenos sociais tão enraizados como os ritos de passagem. Van Gennep chamava a atenção para este facto ao referir-se a «alguns padrões cerimoniais em que o período de transição é suficientemente elaborado para constituir um estado independente». Quer dizer, o rito ― neste caso o programa de televisão ― vale por si: «todas estas cerimónias têm os seus próprios objectivos».Desta forma, «onde a transição possui uma autonomia própria» constitui-se «um sistema secundário inserido no todo cerimonial.» A cerimónia (o programa) transforma-se num estado.
 
Este aspecto foi acentuado pelo antropólogo britânico Victor Turner (1920-1983). Na sua obra The Ritual Process, de 1969, ele considerou o período liminar dos ritos de passagem como uma entidade com autonomia suficiente para se constituir em formação social, caso das comunidades utópicas, como a dos hippies nos Estados Unidos nos anos '60, ou de ordens religiosas como os franciscanos. Essa transição, a liminaridade, acentua-se nas sociedades complexas. Para Turner, o ritual deve ser visto mais como um processo do que um produto, o que é, para Horace Newcomb e Paul M. Hirsch, uma «noção raramente aplicada ao estudo da televisão e, no entanto, crucial para uma compreensão adequada deste medium.»
 
Segundo Turner, a liminaridade tem propriedades diferentes, ou mesmo contrárias, às do sistema estrutural habitual da sociedade, que se podem ordenar em oposições ou discriminações binárias. À lista, na ordem apresentada por Turner, acrescentou-se aqui o itálico para realçar as oposições que mais se manifestam nos reality shows com características de liminaridade:
 
Transição/estado
Totalidade/parcialidade
Homogeneidade/heterogeneidade
Communitas/estrutura
Igualdade/desigualdade
Anonimato/sistemas de nomenclatura
Ausência de propriedade/propriedade
Ausência de estatuto/estatuto
Nudez ou uniforme/distinções de roupa
Continência sexual/sexualidade
Minimização de distinções sexuais/maximização de distinções sexuais
Ausência de categorias sociais/categorias sociais
Humildade/justo orgulho de posição
Desatenção à aparência pessoal/cuidados com a aparência pessoal
Nenhuma distinção de riqueza/distinções de riqueza
Altruísmo/egoísmo
Obediência total/obediência apenas à categoria superior
Sagrado/secularidade
Instrução sagrada/conhecimento técnico
Silêncio/discurso
Suspensão de direitos e obrigações de família/direitos e obrigações de família
Referência contínua a poderes místicos/referência intermitente a poderes místicos
Tolice/sagacidade
 
A estas oposições podemos acrescentar a seguinte:
 
O presente, o agora/enraizamento no passado e extensão no futuro
 
 

 
 
 
O que desde logo distingue os reality shows como o Big Brotherdas sociedades de liminaridade  descritas por Turner é precisamente o facto de, ao contrário dos noviços que pretendem entrar numa sociedade igualitária, os candidatos dos concursos se submeterem às características do período de transição precisamente para poderem deixá-las e melhorarem a sua posição social no exterior, por exemplo quanto à ausência de propriedade e de distinções de riqueza. A própria evolução do jogo se destina a fazer desaparecer o anonimato inicial dos noviços e a sua igualdade ritual, singularizando-os nas suas características próprias, aquelas que farão a sociedade exprimir-se sobre a sua presença ou expulsão do território ritual. O Big Brother é, assim um rito de passagem que acentua o desejo de afirmação do indivíduo na sociedade capitalista, de integração como vencedor, o que é o avesso das communitas descritas por Turner.
 
O que atrai da teoria de Turner neste contexto é, pois, a valorização da autonomia do período de transição, o que reforça a qualificação dos reality shows, pelo menos de alguns deles, como ritos de transição. Os reality showssão precisamente períodos de transição inventadospara existirem como tal. E, o que é importante, permitem à sociedade que neles se revê sair de si e debater, defender ou pôr em causa alguns dos seus valores comuns, incorporando depois os resultados desse debate. O rito funciona assim, tal como a arte, como uma metalinguagem, «uma forma de compreendermos quem e o que somos, como se ajustam os valores e as atitudes, como os significados se modificam.»
 
A essência da liminaridade, escreveu Turner, «encontra-se na sua libertação dos constrangimentos normais, tornando possível a desconstrução das construções ‘desinteressantes’ do senso comum, o ‘sem sentido da vida quotidiana’ (...) em unidades culturais que podem então ser reconstruídas em maneiras novas, algumas delas bizarras ao ponto da monstruosidade. (...)A liminaridade é o domínio do ‘interessante’ ou do ‘senso incomum’.»
 
É também importante para este argumento a relação que Turner estabelece entre a liminaridade e os extractos sociais inferiores da sociedade. Enquanto rito de passagem, o Big Brother, com o seu período longo de liminaridade (quatro meses na sociedade contemporânea é um período longo), criado para permitir a transição a um estado social superior, dada a identificação correcta de «ser-se conhecido» com oportunidades de acumulação de riqueza, destina-se aos despossuídos de riqueza e de posição social. Nisso, também, se assemelha a manifestações de liminaridade a que Victor Turner chama «'os poderes dos fracos' ou, por outras palavras, os atributos sagrados em permanência ou transitoriamente do baixo estatuto ou posição.» O Big Brother, bem como os outros ritos televisivos de transição para a aristocracia da sociedade do espectáculo, é um programa para os novos pobres, os pobres da sociedade do espectáculo: os despossuídos de dinheiro, de direito à palavra e de imagem publicamente partilhada e admirada. Faz parte do rito que toda a sociedade dê atenção aos iniciados marcados pelo seu baixo estatuto ou posição.
 
A chamada de atenção de van Gennep para a autonomia das cerimónias rituais e o desenvolvimento que Victor Turner atribuiu a esse período intermédio permitem enquadrar a importância que o Big Brother e outros reality shows ou reality games adquirem, aparentemente surgindo do nada e aparentemente desligados da realidade social profunda.
 
Mas, afinal, não poderia deixar de ser assim com o Big Brother porque ele é um programa de televisão e porque lhe cabia instituir o rito de passagem, instituira transição, ou a sua representação, transição que a sociedade parecia exigir para dar aos seus filhos anónimos a possibilidade de acederem ao mundo maravilhoso da aristocracia da sociedade do espectáculo.
 
Julho de 2002
 
 
Eduardo Cintra Torres
 
 


Turner, Victor, The Ritual Process (1969), Nova York, Ed. Aldine de Gruyter, 1995, p.103
 
Van Gennep, Arnold, The Rites of Passage (1909), Londres, Routledge, 1970, pp.10-11.
 
Utilizo a expressão «sociedade do espectáculo» neste e noutros artigos com o significado que lhe deu Guy Debord em La Société du spectacle (1967), Paris, Gallimard, 1992 e em Commentaires sur la société du spectacle (1988), Paris, Gallimard, 1992.
 
Seria interessante investigar as relações entre os vários programas da Endemol, criados por ou sob a orientação de Jon de Mol, e estabelecer os contactos entre si e entre cada um dos ritos e os ritos de passagem tal como classificados por van Gennep.
Op. cit., p.11
Ibidem, p.185. Mais à frente, van Gennep reafirma ainda um ponto até então ignorado: «a existência de períodos transitórios que às vezes adquirem uma certa autonomia.» (p.191)
Numa sociedade complexa, o Big Brotherdificilmente se poderia constituir como fenómeno da sociedade inteira, como seria uma rito de passagem numa «sociedade primitiva», mas apresenta-se como tal na linguagem e na estrutura, sendo tomado como tal por uma grande parte da sociedade. É, aliás, a fundamentação antropológica do programa (chamemos-lhe assim) que explica a sua solução estrutural e, também, a sua solução estética.
Newcomb, Horace, e Hirsch, Paul M., «Television as a Cultural Forum», in Newcomb, Horace (ed.), Television: the Critical View (2000), New York, Oxford University Press, 6ª ed., p.563.
Turner, Victor, The Ritual Process (1969), Nova York, Ed. Aldine de Gruyter, 1995, p.106.
Baseio-me em Turner, p.112.
Newcomb e Hirsch, artigo citado, p.564.
Turner, Victor, «Process, System, and Symbol: a New Anthropological Synthesis», Daedalus (Summer 1977), p.68, in Newcomb e Hirsch, artigo citado, p.563.
Op. cit., p.109.



 






 
 





Esta oliveira tinha 1390 anos. Mais de mil anos, portanto. Quase mil e quatrocentos anos, é verdade. Um certificado dizia datar de 728 d.C. Estava cá antes de Portugal, mas não lhe sobreviveu (ou Portugal não foi capaz de lhe sobreviver). Colocada em Santarém, frente aos serviços do Instituto de Conservação da Natureza que, pelos vistos, foram incapazes de a salvar. Morreu há pouco, deixaram-na secar, falecida de sede – e desleixo? Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo.

 














A propósito de um livro recentíssimo, , onde Daniel P. Reynolds faz o retrato de alguns desmandos da «indústria do Holocausto», (que, note-se, não critica a prática de tirar selfiesnos campos de extermínio).   O mais impressionante da notícia do periódico israelita é a recensão de abusos inacreditáveis que têm sido cometidos nesses lugares, como o de um grupo que decidiu filmar-se em vídeo – e em pêlo – . Ou, menos grave, o caso da neta de um argumentando que o fizera para os incorporar num projecto artístico. Há ainda quem organize frente ao portão do famigerado Arbeit Macht Frei, quem seja apanhado a urinar nos campos… Enfim, um compêndio de barbárie e estupidez – a que, todavia, não podemos fechar os olhos.   







 






 
 




         Este relógio estava na família Duret há muitas décadas e outras tantas gerações. Nos anos 1940, Jean Duret recebeu-o das mãos de seu pai, que por sua vez o herdara de seu avô e assim por diante. Maravilhado, Jean gravou o seu nome no relógio familiar, bem como o nome da aldeia em que morava, Habère-Lullin, localidade alpina em que os nazis perpetraram um massacre por alturas do Natal de 1943, quando vinte e cinco jovens foram metralhados sem piedade pelas SS. Na altura com dezoito anos, Jean escapou por pouco à barbárie nazi, fugindo no último minuto com alguns companheiros da Resistência francesa. Mas o relógio ficou para trás, confiscado pelos alemães.
 
No passado 10 de Janeiro, Jean Michel Duret tinha uma carta  na caixa de correio. Vinha de Berlim, remetida por uma tal de Sabine Konitzer. Sem saber bem como, Sabine herdara o relógio de uma tia e, setenta e cinco anos depois, devolvia-o ao filho do seu legítimo proprietário. Jean falecera entretanto em 2010, mas o relógio, esse, está agora junto de quem deve, entregue por quem merece esta notícia e público louvor: Sabine Konitzer, alemã de Berlim.
 
 

 









 
Circula na Internet uma imagem demasiado perfeita. Dizem ser de uma órfã iraquiana que desenhou a figura da mãe a giz, no chão, tirou os sapatos e adormeceu no regaço materno. De cima, o fotógrafo captou o momento, tudo sem uma falha. Longe de mim afirmar que a imagem não é pungente. Parece-me, no entanto, demasiado pungente. Nunca nos esqueçamos que, antes das fake news, a manipulação fotográfica já existia, e à grande. Mais, as imagens manipuladas são talvez a maior fake new do nosso tempo. Será o caso desta fotografia? Fica a dúvida, pois não consegui obter praticamente nenhuma informação sobre a imagem (o que, aliás, reforça a desconfiança e a dúvida). Para mais, vejam como circulam imagens em tudo semelhantes:



  








 
 
 
 










 
 


 
 
Mais de cem académicos subscreveram recentemente uma «Carta Aberta» questionando que um futuro equipamento museológico, a inaugurar em Lisboa, tenha a designação «Museu das Descobertas», tal como vinha anunciado no programa eleitoral do Partido Socialista e do actual presidente da edilidade, Fernando Medina.
 
A citada Carta Aberta foi publicada no jornal Expresso, e o seu conteúdo está .
 
Diz-se nessa Carta, entre o mais, que a designação «Descobertas», e cita-se, «cristaliza uma incorrecção histórica», acrescentando os signatários: «razão pela qual, como historiadores e cientistas sociais, não podemos estar de acordo com ela».
 
Além de incorrecta historicamente, a expressão «Descobertas» é, em seu entender, questionável sob outros pontos de vista: «Para os não europeus, a ideia de que foram “descobertos” é problemática».
 
Depois, sustenta-se que «Descobertas» se trata de «uma expressão frequentemente utilizada durante o Estado Novo para celebrar o passado histórico, e que convoca, por isso mesmo, um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».
 
Por conseguinte, e em síntese:
 
1 – a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» constitui uma «imprecisão histórica»;
 
2 -  a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» é problemática para os povos não europeus;
 
3 – a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» convoca «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».
 
Sem questionar nenhuma destas afirmações – repete-se, sem questionar nenhuma destas afirmações –, e independentemente de qualquer posição que tenhamos sobre este assunto,pode e deve  apenas perguntar-se que motivo levou, então, muitos signatários dessa «Carta Aberta» a colaborarem em iniciativas de um equipamento cultural da cidade de Lisboa designado «Padrão dos Descobrimentos».
 
Na verdade, o Padrão dos Descobrimentos, inaugurado em 1960 por Américo Thomaz na presença de Oliveira Salazar, não apenas em termos onomásticos como imagéticos e simbólicos, convoca indiscutivelmente, na lógica dos subscritores da «Carta Aberta», «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».
 
Nem se afirme que as iniciativas que tiveram ou têm lugar no Padrão dos Descobrimentos não se encontram em sintonia com tal designação e, pelo contrário, contestam, elas próprias, a expressão ou o conceito de «Descobertas/Descobrimentos».
 
É que, antes de se pronunciarem sobre os conteúdos do futuro espaço museológico, e mesmo que tais conteúdos também venham a não estar em sintonia com o conceito de «Descobertas», os signatários impugnam, desde logo, a mera designação, que consideram: (a) incorrecta historicamente; (b) problemática para os povos não-europeus; (c) evocadora de sentidos incompatíveis com o Portugal democrático.
 
Portanto, independentemente da programação e dos conteúdos expositivos do futuro Museu das Descobertas, uma vez que se questiona esta designação ou conceito, o mesmo vale de pleno para o Padrão dos Descobrimentos.
 
Poder-se-á afirmar que o facto de participar em iniciativas de um determinado espaço ou lugar não significa concordância com o seu nome. Assim, proferir palestras ou fazer visitas guiadas a exposições no Padrão dos Descobrimentos não exprime necessariamente uma adesão à designação do edifício. Acontece, porém, que os signatários da Carta Aberta não só manifestam a sua discordância com essa designação como sustentam que ela, além ou mais do que imprecisa cientificamente, é ética ou politicamente questionável, já que evoca «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».
 
Ou seja, ao colocarem a sua discordância de uma forma tão intensa e num plano tão relevante, considerando ademais que ela era merecedora de intervenção no espaço público e de difusão pelos jornais (a carta poderia ter sido enviada tão-só ao Presidente da CML), os signatários assumem um nível de crítica que não parece conciliável com a presença em locais cuja designação oficial tenha a palavra «Descobertas» (ou «Descobrimentos»).
 
Como também parece evidente, os argumentos aduzidos contra a palavra Descobertas/Descobrimentos tanto se aplicam aos edifícios a construir como aos espaços já existentes e em funcionamento.
 
Prescindindo de saber, por ora, se utilizam ou utilizaram o conceito de «Descobertas» nos seus trabalhos, a questão que se coloca é tão-só a de saber o motivo pelo qual os referidos signatários participam em iniciativas de um espaço que tem a designação oficial «Padrão dos Descobrimentos».
 
Esta questão, deve sublinhar-se, é suscitada independentemente de qualquer posição que assumamos nesta matéria, podendo ser colocada mesmo por quem questione a designação «Descobertas», quando aplicável seja a equipamentos a construir, seja, naturalmente, a espaços já existentes e em funcionamento.
 
Com efeito, não é o facto de uns espaços já existirem e de outros se encontrarem ainda na fase de projecto que, como é óbvio, retira à designação oficial dos primeiros a carga negativa associada ao seu nome, tanto mais que essa designação oficial sempre pode ser alterada, à semelhança do que sucede em diversas mudanças onomásticas ocorridas em Portugal e noutros países.   
 
Sem preocupações de um levantamento exaustivo, participam ou participaram em iniciativas do Padrão dos Descobrimentos signatários da «Carta Aberta» tais como , , , , , e .
 
 


    Em face disto, após terem assinado a referida Carta nos exactos termos em que a mesma se encontra redigida, questiona-se se estas personalidades e todos os demais signatários, investigadores de indiscutíveis méritos científicos e académicos:
 


1 –  irão doravante, e em coerência, deixar de participar nas iniciativas decorrentes no Padrão dos Descobrimentos;
 



2 – irão promover uma iniciativa cívica, sob a forma de carta aberta ou outra, com vista à alteração da designação oficial do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

 

 
António Araújo
 
 
 
 
 
 
 






 
 
 
 

Igreja de São Cristóvão, Liège, Bélgica, 11 de Março de 2018
 
Morris West (1916-1999) foi um escritor australiano de enorme êxito, autor de grandes best-sellersmundiais como O Advogado do Diabo e As Sandálias do Pescador.
Em 1981 escreveu o livro The clowns of God, Os palhaços de Deus.
O tema do livro relaciona-se uma vez mais com o governo da Igreja Católica.
O Papa Gregório XVII surpreende o Mundo renunciando à chefia da Igreja Católica no meio de grande mistério acerca de visões que teria tido acerca do fim do Mundo. A parte da abdicação veio a concretizar-se em 2013…
O Papa torna-se o Senhor Jean Marie Barette. Primeiro recolhe-se a um convento mas depois inicia uma campanha para alertar o Mundo para o eminente Apocalipse.
Começa por ir a Tübingen, Alemanha,  visitar um amigo de sempre, Carl Mendelius, um professor jesuíta de Teologia, internado num hospital após ter sido vítima de um atentado.
Encontra um grupo de jovens que lhe pergunta pelo estado de saúde do professor. Ele responde que o médico lhe assegurou que melhorara.
Um dos jovens, Alvin Dolman, exclama Isso são grandes notícias, fantástico! Digam-me quando posso vê-lo. Encontrei uma coisa que ele vai gostar. É uma escultura de São Cristóvão, gótico antigo.
 
José Liberato
 







 
 

 
 
         Há uns anos, poucos, pudemos ver no DocLisboa  (de 2014) um documentário espantoso. , de Andrei Ujică, contava a história extraordinária, de mistério e imaginação, do cosmonauta (ou Krikaliov), que em 1991 embarcou na estação espacial Mir ainda nos tempos da União Soviética e, enquanto estava no espaço, não se apercebeu do colapso da pátria dos sovietes. Chegou à Terra e já não existia URSS, dizendo-se que «foi a primeira pessoa a observar o fim de uma era histórica do ponto de vista dos deuses».
Serguei Krikaliev (n. 1958)
 
         A história de Krikalev foi agora retomada num outro filme, que ainda não vi, e segundo sei, ainda não aterrou em Portugal – esperemos que chegue em breve. Chama-se Sergio & Serguéi e é uma película hispano-cubana, meio abarracada e cómica, dirigida por Ernesto Daranas. Vamos ver, vamos vê-la.     
 
 
 
 
 
 






 
 

 
A Nápoles de Ferrante. Um , escrito por Sophia Seymour, que fundou a empresa , percursos pela cidade da amiga genial. Também do maior interesse, .
 
1964
1955
 
 
 
E agora, para os fãs fanáticos, , com actrizes escolhidas, seleccionadas e orientadas por Elena, a misteriosa.
 


 
 
 
 






 
 
 
 
Era uma lástima ver aquele esbelto rapaz de 18 anos acamaradando com vadios engravatados e prostitutas reles.







 
 


Três heroínas no Holocausto, estas irmãs de Ourense fizeram passar para Portugal uns 500 judeus em fuga a Hitler e a uma morte certa. Mais ou ou . E já agora;: os judeus que passavam a fronteira portuguesa deviam ser acolhidos por alguém. Quem? Quem foram as manas Touza do lado de cá?
 
 
 
 
 






 
 





Um livro mítico. Aparecido pela primeira vez em Janeiro de 1934, esta recolha esmagadora, Negro Anthology, uma compilação de mais de 900 páginas, foi feita por um nome não menos mítico, (1896-1965). Herdeira da fortuna da célebre companhia marítima Cunard, frequentadora do Blomsbury Group, amiga de Virginia Woolf, fotografada por Man Ray, musa de Aragon, Tristan Tzara, Ezra Pound, Aldous Huxley, seus amantes, a que se juntariam Hemingway ou James Joyce. Para desgosto de sua mãe, Nancy tornou-se companheira de Henry Crowder, um pianista afro-americano e o casal decidiu reunir o maior número possível de testemunhos sobre o racismo, os linchamentos, a segregação. A obra, uma antologia clássica,

Nancy Cunard, fotografada por Man Ray

 






 
 
 
Bodys Isek Kingelez (1948-2015)
 









 
 
 
No MoMa, em Nova Iorque, das utopias clean do fantástico congolês (1948-2015), um artista que não primava pela modéstia, definindo-se como «um pequeno deus». Polímato, poliglota, Kingelez foi, sem dúvida, o maior, ainda que o seu génio se manifestasse no muito pequeno, à escala reduzida de brinquedos para crianças, parques de Lego que admiramos com uma curiosidade pueril, quase gaiata. Por muitas tentativas de teorização da sua obra, como aquela que vemos neste vídeo, Kingelez foi isto, apenas o que contemplamos nas fotografias; apenas isto, o que não é pouco. Por cá, tivemos um génio assim, ou maior: . Exposto no Museu de Etnologia, nem um catálogo fizeram, perdendo-se uma ocasião única, irrepetível. Talvez os americanos descubram um dia quem foi António Peralta, e aí toda a gente irá louvá-lo como merece.
 
 

 
 
 
 
 
 






 
 

 
 
 
 
Raza  é um filme de 1941 baseado no livro homónimo que Francisco Franco publicou sob o pseudónimo Jaime de Andrade. Algumas cenas dão bem a noção do prodigioso burlesco que é Razana tela, filmada por . Nunca li o livro semiautobiográfico de Franco, mas pelo que se vê do filme… valha-nos Díos. Um belíssimo apontamento trágico-cómico. «Muy bien, Sáenz de Heredia, usted ha cumplido», disse Franco ao realizador, descido o pano da projecção privada que, mal rodada a fita, teve lugar no Palacio de El Pardo. Franquismo e cinema, nota final: na sua monumental biografia de Franco, o historiador Paul Preston diz que, morto o ditador, a sua quinta passou a ser usada para a rodagem de filmes de cowboys e películas pornográficas. Arriba, España!  
 
 

 
 






 
 
 









 

         Durante muitos e muitos anos, a fotógrafa Wendy Ewald deu aulas de fotografia a crianças de zonas rurais em todo o mundo. Wendy pediu aos seus alunos que lhes contassem os sonhos que tinham tido de noite – para recriá-los sob a forma de imagens fotográficas. O resultado está à vista, e um fala deste originalíssimo projecto.

 


 

 






 
 
 
 
(1850-1894) publicou em 1886 um livro célebre pela sua análise da dupla personalidade e pelas suas adaptações cinematográficas, intitulado The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde(O estranho caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hydeou O médico e o monstro).
A expressão “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” entrou na linguagem corrente quando nos queremos referir a uma pessoa que tem comportamentos totalmente diferentes relativamente à mesma realidade.
Mas o livro tem uma curiosidade especial para nós Portugueses. É a sua dedicatória:
To
Katharine de Mattos
It's ill to loose the bands that God decreed to bind;
Still we will be the children of the heather and the wind.
Far away from home, O it's still for you and me
That the broom is blowing bonnie in the north countrie.
 
 
Para
Katharine de Mattos
É mau aliviar os laços que Deus decidiu unir;
Seremos sempre os filhos da urze e do vento.
Longe de casa, é ainda para ti e para mim
Que a giesta floresce lindamente no país do norte.
 

 
         Mas quem seria esta (1851-1939)?

 
Praticamente da mesma idade de Stevenson, era sua prima e com ele brincara na infância. Em Junho de 1874 casou em Perth, Escócia, contra a vontade da família, com William Sydney de Mattos. Daí o nome Mattos que usava.
 
O casamento durou pouco. O homem era um doido. Adepto do amor livre, era conhecido como “o ateu de Cambridge”.
 
Foi secretário da Fabian Society. Bernard Shaw, também fabiano, refere-se a ele numa carta como satiromaníaco.
 
As infidelidades constantes levaram à separação em 1881.
 
Aos 30 anos, Katharine mudou-se para Londres com duas crianças e sobreviveu dedicando-se ao jornalismo. Escreveu sob o pseudónimo de Theodor Hertz-Garten.
 
Por sua vez, William Sydney nasceu em Clapham, Londres, a 10 de Janeiro de 1851.
 
Encontrei o registo dele em 10 de Fevereiro de 1868 como estudante no célebre Trinity College em Cambridge, onde consta que terminou os estudos como Bachelor of Arts em 1872 e que era filho de William Nicholas de Mattos e de Rachel Brockelbank. Ou seja, o Mattos vem do pai, sogro portanto da Katharine.
 
O casamento de William Nicholas e Rachel ocorreu em 4 de Fevereiro de 1849 em Poplar no Leste de Londres. No registo desse casamento, o pai de William Nicholas é identificado como George de Mattos.
 
Um blogue de um descendente, que não me pareceu de muita confiança, menciona que William Nicholas era um grande negociante em Londres e descendia de um português que teria ido para o Brasil em 1807 mas não diz o nome da personagem.
 
Seria George de Mattos ou Jorge de Matos?
 
 
José Liberato
 
 
 
 
 






 
 



61.
 
        Além das tatuagens, de que se falou e , a xilogravura A Grande Onda, de Katsushika Hokusai, tem inspirado, ainda que com menor intensidade, obras da chamada «arte corporal» (body art), tal como se refere   
 
Entre elas, as unhas apresentadas por Maki Otani, manicure em San Diego, Califórnia, na Mini Masterpiece Nail Art Competition, organizada em 2010 pela Nails Magazine, e que aí obtiveram o primeiro prémio. Um trabalho que demorou dez horas a executar e que Maki Otani descreveu assim:  «Using a tiny brush, I painted the waves and Mt. Fuji with acrylic paint, and then I used white acrylic powder and monomer on the white part of the wave so it would look like it was popping out.»
 

 

 
Na mesma linha, a maquilhadora Georgina Rylan obteve o segundo lugar na edição de 2014 do IMATS Battle of the Brushes, em Sidney, com esta interpretação de A Grande Onda:
 

 

 
 
Veja-se outro trabalho de arte corporal, apresentado , e da autoria de Danny Setiawan, do DenArt Studio.
 

 

  
Já outra imagem que surge frequentemente na Internet parece tratar-se de uma manipulação fotográfica, sem correspondência com a realidade. Mas, ainda assim, merecedora de ser apresentada a título de curiosidade.  
 


 

 
 






 
 
 
, todos se lembram desse extraordinário livro. E dos caminhos e descaminhos do cadáver d’Ela. Será que lhe cortaram as mãos, como dizem? Agora, um leilão em grande, de Juan e Evita. Mesmo para quem não possa ou não queira comprar, . Essencial para compreender o peronismo, o de ontem e o de hoje.
 
 



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Numa fotografia estou junto desse painel. Vê-se uma caricatura do general de Gaulle com um “petit chapeau “de Napoleão e dizendo “Machiavélique, moi?!”, fotografias de Marilyn Monroe, julgo que de Elton John, de Jimmy Hendrix e de um grupo rock, não sei qual (Fleetwood Mac?).           Porque pintei a grande onda? Certo, gostava dela. Não me recordo do que me atraía mais, mas lembro-me que o facto de o Monte Fuji ter a mesma cor do mar era uma das razões. O monte era uma onda, a onda era um monte. Havia poesia visual nesse elemento. Vinte anos depois, vi o Fuji com os meus olhos, e vi Hokusai como poeta, pois o monte apresentou-se-me desengraçado, despido, desinteressante.          A principal razão para eu pintar a grande onda terá sido, porém, ter recebido de presente, pouco antes, ou ter comprado, não me lembro bem, uma grande caixa de lápis de cera Caran d’Ache. O lápis de cera tem bastantes possibilidades criativas. A minha experiência beneficiou do contorno prévio a lápis das águas azuis, das ondas brancas, do monte azul e branco. A variedade de cores na enorme caixa Caran d’Ache era convidativa, mas insuficiente. Comprei — julgo que na Papelaria da Moda, na Rua do Ouro — um frasco de terebintina. Este líquido dissolve a massa de cera, depois de aplicada no papel, dando-lhe uniformidade e um certo ar de pintura a pincel, entre a aguarela e o óleo. Depois de o suporte secar — nunca usei senão papel comum — transmite uma sensação simultânea de transparência e opacidade.           A minha pequena onda não é nada de especial, mas eu sempre gostei dela porque nunca tive especial paciência para trabalhos de mãos, fossem eles artísticos ou não — e este está terminado, com ar de obra acabada. Tem duas particularidades. A primeira é ser ao alto. Não sei explicar porque transpus da horizontalidade para a verticalidade. Posso inventar que se adequava à vertigem da tempestade, mas suponho que foi “porque sim”. A outra particularidade é ter omitido as barcaças. Também não recordo bem a razão para o ter feito, mas julgo que são as mais prosaicas: dificultava o trabalho, tornando-o moroso, correndo o risco de falhar no conjunto por causa do pormenor e, portanto, motivando a minha impaciência; ao escolher a verticalidade, as barcaças não “encaixavam” tão bem no meio das ondas. A ausência dos barcos e também das bolas de espuma que esvoaçam no original resultam dessa impaciência, do receio de borrar a pintura. Deste modo, recriei o essencial.           Gostei logo do resultado. Pendurei-o no painel de cortiça. Ainda tem as marcas dos pioneses. No canto inferior esquerdo falta um pedacinho do papel. Se a memória não me falha, é, dos que realizei, o único trabalho visual revisitável. Fiquei-me por aqui. Graças a Hokusai. A grande onda era agora minha. Lembro-me que lhe achei um defeito: a curva da onda principal é desagradável, ficou mal desenhada desde o início. A minha onda não ameaça, como a do original. Quando dei por isso, já não fui a tempo para corrigir. Tinha 14 anos. Tinha o mundo à minha espera.           Mais de três décadas depois, encaixilhei-a, porque não me desmerece e porque traz consigo aquele véu de nostalgia, poderoso como o aroma do mar revolto. Saber que tropecei no mundo esfuma-se na nostalgia com enganadora ternura.   Eduardo Cintra Torres Caxias, 25 de Abril de 2018   Watership Down.       Watership Down, de Richard Adams, é, como sabem, um livro maravilhoso – maravilhoso, maravilhoso – sobre a vida subterrânea dos coelhos nos campos de Inglaterra (mais preciosamente, nos prados de Watership Down, nas imediações da aldeia de Kingsclere, Hampshire, Britânia profunda e verdejante). Um hino à natureza que, segundo sei, nunca foi editado em Portugal. Lamentável. Saiu no Brasil, com o título «A Longa Jornada». Para quando uma edição portuguesa? Richard Barnes homenageou o livro de Adams através de fotografias que, goste-se ou não, vale a pena ver. E, já agora, um texto soberbo no NY Times sobre o clássico ambientalista saído em 1972.         Abjecto.               Não sei quem é Luís Franco-Bastos, nem interessa. Diz ser humorista, o que também não interessa. O que interessa é o facto de o Expresso, “semanário de referência”, ter publicado um texto de Luís Franco-Bastos que, a propósito, de um jogo de futebol da Alemanha, faz a seguinte graçola supostamente irónica: “Os germânicos apostam no planeamento, continuidade, organização e trabalho colectivo, ou seja, todas as qualidades do tempo do Holocausto se mantêm – e ontem, tal como no tempo do Holocausto, essas qualidades não foram suficientes para lhes dar a vitória.”         No Holocausto não houve vitória nem derrota. Houve seis milhões de mortos, seis milhões. Se o colunista humorista não sabe, o Expresso devia sabê-lo.          Talvez seja possível fazer humor com o Holocausto, tema muito debatido entre os humoristas e não só.            Mas seis milhões de mortos merecem algum respeito, ou não?          Para mais, numa altura em que o negacionismo e o neonazismo grassam por toda a Europa, ou não?          Quererá o Expresso e a sua direcção ficarem associados a uma piada sobre o Holocausto?          Se sim, que avisem os seus leitores, pelo menos. É o mínimo que se pede, um módico de decência para quem lê (ou lia) o Expresso – e que, sinceramente, não esperava uma abjecção destas.   António Araújo  Arquitecturas e Cinema.  http://arquiteturasfilmfestival.com/2018/São Cristóvão pela Europa (64)       Igreja de São Tiago em Liège, 11 de Março de 2018        A infância de Jesus é um livro de J. M. Coetzee, escritor sul-africano nascido em 1940, Prémio Nobel da Literatura em 2003.   O romance foi publicado em 2013. Os protagonistas são Simón e David, refugiados num campo na imaginária cidade de Novella. Simón é um homem de meia-idade, David uma criança de cinco anos.   As alusões bíblicas são muito frequentes, começando pela busca de um abrigo no início e terminando com David juntando um grupo de discípulos à sua volta um dos quais se chama João.   Mas também  estão muito presentes várias alegorias a São Cristóvão.   Como bem observa Robert Kusek da Universidade Jagiellonian de Cracóvia, Simón é um transportador, um estivador, que transporta o rapaz tanto literalmente como simbolicamente.       David aprende música e canta o poema de Goethe, o Rei dos Álamos, que se relaciona com o livro, com título semelhante, de Michel Tournier já mencionado no Malomil (http://malomil.blogspot.com/2018/02/sao-cristovao-pela-europa-57.html):       Quem cavalga tão tarde, ao vento e pela treva?   O cavaleiro é um pai, p’lo filho acompanhado,   Pai que, nos braços seus, o seu filhinho leva,   Cingindo-o muito, a fim de o ter agasalhado.       Em certo ponto do romance, vão na direcção de um lago, em busca da mãe de David.       Aqui e além vêem pássaros em voo, mas distantes de mais e a demasiada altura no céu para saberem ao certo de que se espécie se trata.   -Estou cansado- anuncia o rapaz.   Ele examina o mapa. Estão a meio caminho do lago, calcula.   -Eu levo-te durante um bocado – diz -, até te voltarem as forças.   Põe o rapaz às cavalitas.   -Canta assim que vires um lago. Há-de ser de onde vem a água que bebemos. Canta se o vires. Aliás canta se vires alguma água. Ou se vires algum camponês       José Liberato      Ritos de passagem da sociedade do espectáculo.   Martin Parr      Eis um rito de passagem da sociedade ocidental contemporânea:   Um grupo de doze pessoas de ambos os sexos, quase sempre jovens, é escolhido como representante da comunidade social com as mesmas características e, por extensão, toda a nação, numa prova de transição em que têm de se exibir de forma a tornarem-se conhecidos de toda a sociedade que assiste. A prova permite aos noviços passarem a fazer parte da casta dos privilegiados (os que, mesmo sem especialização ou ascendência nobre, são amados pela sociedade e alimentados por ela).    Os candidatos à passagem, escolhidos de entre a massa anónima, começam por ser apresentados à sociedade; são impedidos de se fazer acompanhar de elementos pessoais e a sua identidade é substituída por outra forma de anonímia, reduzida ao seu nome de baptismo ou diminutivo, o que os torna mais representativos, ou símbolos, de partes da sociedade, pois deixam de ser indivíduos específicos, se bem que anónimos. Nenhum indivíduo pode fazer a prova duas vezes, pois apenas a primeira vez conta.   A prova a que o grupo é submetido inclui a separação das famílias e do resto da sociedade, momento difícil em que os noviços se despedem dos seus entes queridos no limiar do território pré-destinado em que serão postos à prova. Esta área espacial e simbólica de transição está totalmente fechada a todas as pessoas do mundo exterior, excepto aquelas que, em segredo, participam na organização e prossecução das cerimónias e das provas, pessoas estas que a sociedade desconhece mas geralmente aceita.  Se algum dos noviços sair do território, não poderá voltar a tocar o seu chão, tal como os outros mortais, podendo, porém, qual deus ex machina, descer dos céus e contactar os noviços. O território é, portanto, considerado chão sagrado durante a prova. O território tem a forma de casa, lugar de inúmeros rituais. A casa é diferente das casas do mundo exterior. Ela é tabu para o mundo profano que assiste à prova. Os iniciados em prova não podem passar da porta principal do território para fora, sob pena de serem expulsos. A porta é instituída como limiar simbólico entre o território da iniciação e o mundo exterior.   Começa então o verdadeiro período de teste, período de transição. Depois dum rápido reconhecimento do território, a prova prolonga-se depois por um longo período de 120 dias. Os candidatos são então submetidos,  sob apertada vigilância da sociedade, a várias provas, mas a prova fundamental é apenas comportamental e de representação do seu próprio personagem.   Durante a prova, não podem de maneira nenhuma ter contacto com o mundo excepto através dum alto sacerdote ou director de cerimónias; nada sabem do que se passa com as suas famílias nem no resto do mundo; têm de mostrar que a sua personalidade se molda e agrada a todos; têm de saber gerir a sua vida íntima de forma a que não choque o grupo e a sociedade que os observa mas, ao mesmo tempo, têm de chamar a atenção sobre si mesmos e, se possível, ultrapassarem as expectativas.   O isolamento é importante. Sem o isolamento, os noviços não estariam postos à prova nem poderiam simbolizar todo o seu grupo e a sociedade. Durante o período de transição, os noviços estão em clausura.  São humilhados, mas, ao mesmo tempo, tratados como privilegiados, precisamente por estarem fora da sociedade mas postos à prova por ela.   Assim, enquanto se encontram no território, os candidatos não precisam de roubar ou pilhar os bens necessários à sobrevivência porque a comida e outros bens de consumo aparecem regularmente numa região intermédia do território, por uma porta não consagrada, oferecidos pela sociedade. São oferendas.  Os noviços não têm de trabalhar, apenas de conviver, transaccionar palavras, gestos e afectos e cumprir tarefas que mostrem a sua capacidade de viver em grupo, de servir a sociedade e de defender a dignidade da sua vida privada quando a ela regressarem.  Em parte, eles têm já de simular ― de aprender a viver ― a suposta vida de ócio dos privilegiados da sociedade.   Os noviços devem obediência ao poder oculto da prova e obedecem naturalmente. Entre si, o comportamento esperado é o da igualdade e da camaradagem, sendo os conflitos existentes os que resultam da oposição entre a individualidade e a incorporação no grupo.   Os candidatos têm de mostrar o seu corpo. A nudez é importante enquanto se encontram no território pois ela associa-se a três dos valores máximos do grupo social em que se inserem: a juventude, o sexo e a sobrevivência da sociedade. Desta forma, a organização do território, com a mistura dos rapazes e das raparigas, proporciona a concretização de encontros amorosos e sexuais. A nudez é voluntária ou (quase) provocada, pois é preciso realizar-se o reconhecimento de que cada candidato da prova é realmente um homem ou uma mulher e capaz de realizar o acto da procriação.  Através dos contactos semanais com o director de cerimónias, os jovens são espicaçados a desenvolverem relações amorosas e sexuais. O sacerdote fomenta os namoros, ou esponsais. Os comportamentos de cortejamento e sexuais podem ser mais livres durante a prova, aceitando-os a sociedade facilmente sem que os envolvidos sejam por isso condenados. A promiscuidade seria condenada, mas não a exibição pública do acto sexual durante a prova. Aqueles que chegam a isso são de alguma forma premiados pela sociedade em estados seguintes. Em resumo, os comportamentos afectivos e sexuais podem ser diferentes por se tratar de um período transitório.   Martin Parr  Tal como a nudez forçada, pode haver outros momentos de humilhação, pois o noviço«deve ser uma tábula rasa, uma lousa em branco, na qual se inscreve o conhecimento e a sabedoria do grupo, nos aspectos pertinentes ao novo 'status'. Os ordálios e humilhações, com frequência de carácter grosseiramente fisiológico, a que os neófitos são submetidos, representam em parte, a têmpera da sua essência, a fim de prepará-los para enfrentar as novas responsabilidades e refreá-los de antemão, para não abusarem de seus novos privilégios. É preciso mostrar-lhes que, por si mesmos, são barro ou pó, simples matéria, cuja forma lhes é impressa pela sociedade».[1]Estas provas de humilhação coexistem, portanto, com o acarinhamento dos iniciados enquanto futuros prováveis privilegiados. Os dois contrários não são considerados contraditórios, pois fazem parte da transição.   O sacerdote não deve intervir na vida interna do território nem deve tomar partido por nenhum dos membros do grupo. Estes, por seu lado, não devem tomar atitudes anti-sociais, por exemplo violentas, sob risco de expulsão imediata do território.   Semanalmente, o mundo exterior contacta com os noviços, individualmente. Cada candidato é chamado a uma zona isolada do território, um lugar considerado de recolhimento e de contacto com o deus ex machina, a sociedade que observa, e tem de responder a todas as questões do director de cerimónias, representante da sociedade. À distância, numa assembleia também com características de lugar de culto, a sociedade assiste, estando presentes as famílias dos jovens junto do sacerdote.   Nestas cerimónias semanais, a prova complica-se. De duas em duas semanas, os candidatos têm de escolher quem acham que deveria ser submetido à expulsão do território. Trata-se de uma decisão difícil, pois têm de tomar em conta as personalidades próprias dos seus companheiros e, em simultâneo, o seu comportamento em grupo. Têm também de considerar a sua própria posição em relação com os outros noviços. Cabe depois à sociedade escolher qual dos mais votados pelos candidatos é expulso, o que sucede na semana seguinte, no mesmo local onde os representantes da família e da sociedade estão reunidos em assembleia sob a chefia do sacerdote.      A expulsão não é um momento de humilhação. Pelo contrário, o candidato banido do território é recebido em festa e incorpora-se, de novo, na família, na assembleia e na sociedade. Aquele que, por sua livre iniciativa, deixar de participar nas assembleias seguintes, é ostracizado pelo sacerdote, pela própria assembleia e pela sociedade.   As expulsões prosseguem até ficarem apenas quatro e depois três dos noviços. Nessa altura, a prova apressa-se pois os candidatos que restam já não poderiam simular o comportamento em sociedade dentro do território.   A prova termina com a escolha pela sociedade de um vencedor, o qual é acumulado de prémios que toda a sociedade deseja, como automóveis e viagens; na realidade, todos os noviços expulsos, à excepção dos que se afastam voluntariamente, tinham permanecido integrados, através, desde logo, da sua presença nas assembleias semanais.   Esta é, em suma, a descrição de um rito de passagem que todos os membros das sociedades ocidentais contemporâneas conhecem: o Big Brother. O impacto deste programa nas sociedades em que foi apresentado revelou que o Big Brother foi ou é muito mais do que um programa de televisão, mais do que um «jogo de realidade», mais do que um «programa de realidade». O Big Brother disse respeito a toda a sociedade porque se organizou, se instituiu por completo do primeiro ao último instante como um rito de passagem.   Os ritos de passagem foram teorizados pelo etnólogo francês, filho de pai holandês, Charles Arnold van Gennep (1873-1957) na sua obra seminal Les Rites de Passage, publicada em 1909. Neste clássico da antropologia social, van Gennep classificou os ritos, ou actos mágico-religiosos (muitos sem significação religiosa), verificou a sua co-relação e a ordem em que eram realizados. O autor não se referia apenas aos ritos das «sociedades primitivas», mas também aos que se realizavam nas «sociedades desenvolvidas» do Ocidente ou da Ásia. Aliás, van Gennep encorajou o estudo etnográfico do folclore europeu.   No seu clássico, van Gennep define os ritos de passagem como os rituais associados a «uma passagem de uma situação a outra ou de um mundo cósmico ou social para outro»: mudança de estatuto, ou de estado, como por exemplo a passagem da juventude à idade adulta. Os ritos de passagem são de três espécies: «ritos de separação, ritos de transição e ritos de incorporação». Os ritos de separação «são proeminentes em cerimónias funerárias, os ritos de incorporação em casamentos. Os ritos de transição podem ter uma parte importante, por exemplo, na gravidez, nos esponsais e na iniciação». Van Gennep chama também aos três tipos «ritos pré-liminares (ritos de separação), ritos liminares (ritos de transição) e ritos pós-liminares (ritos de incorporação)», sendo o limiar ou liminar o estádio ritual onde se processa a mudança.[2]   Defendo que o Big Brother se constitui como um rito de passagem e, entre deles, como um rito de transição. A transição inclui também ritos de separação e de incorporação, absolutamente necessários para criar o ambiente mágico e construir a solidez social do programa de televisão, elevando-o muito acima do seu estatuto de objecto lúdico transmitido num mass media. A descrição do Big Brother que realizei na parte inicial deste artigo permite inscrevê-lo nos ritos de passagem tal como van Gennep o faz no seu clássico.       Os momentos principais da separação, transição e incorporação estão aí descritos, não sendo necessário descrevê-los em pormenor. A versão francesa do programa, com o nome Lof Story, e outros programas do mesmo tipo, apresentados sob os nomes de género reality shows ou reality games, como Masterplan, Bar da TV, Acorrentados, Academia de Estrelas, e Operação Triunfo, apresentam semelhanças profundas com o Big Brother nas características de ritos de passagem. Todos eles adaptam a estrutura e significados dos actos mágicos da sociedade ao género mediático televisivo, acrescentando-lhes o aspecto lúdico e humorístico duma sociedade hedonista, other-directed, e muito correlacionada com a televisão.   Todos eles têm uma cerimónia inicial de separação, todos têm as provas de iniciação durante o rito de transição, todos têm rituais de expulsão e de incorporação dos concorrentes, todos fazem do apresentador um sacerdote ou «director de cerimónias»  (a expressão é de van Gennep).   De que passagem trata este rito Big Brother? Defendo que o Big Brother é um rito de transição do anonimato e da pobreza para a aristocracia do «ser-se conhecido» ou do estrelato nos mass media da sociedade do espectáculo contemporânea. Em resumo, o Big Brother é um rito de passagem da sociedade do espectáculo, é um rito de passagem que garante a iniciação no sociedade do espectáculo.   O facto de os concorrentes serem quase sempre jovens e disponíveis, bem como outras características do jogo, poderiam levar a confundir o programa com um rito de iniciação na idade adulta, com uma transição (namoro, esponsais) para a formação da família. Todavia, a sociedade tem aceite concorrentes menos jovens no lote de noviços e até candidatos casados. Além disso, o programa mantém a actividade sexual facultativa, o que não poderia deixar de ser nas sociedades de direito ocidentais. Na verdade, a sociedade não precisa de um rito público de iniciação desse tipo e, provavelmente, não o toleraria. O Big Brother não é, portanto, uma iniciação da idade adulta, não se relaciona com a «puberdade social» de que fala van Gennep, pois essa passagem deixou de ser ritualizada colectivamente no Ocidente, por ser desnecessário. Quando muito, o Big Brotherrepresenta uma «juventude social», não biológica, dada a forma como a ideologia da juventude se confunde com a sociedade do espectáculo.   A principal transição simbolizada e concretizada por este rito televisivo é, portanto, outra. Os concorrentes prestam-se a uma série de provas e de situações normalmente consideradas como humilhações (começando pela devassa da sua vida privada e pela exibição pública de toda a sua vida íntima incluindo a corporal, passando pela obrigatoriedade de exibição da nudez e terminando na exibição da sua actividade sexual) porque pretendem atravessar um limiar que lhes será extremamente benéfico: deixar de ser pessoas anónimas, despossuídas de riqueza e de estatuto social, e passar a ser pessoas «conhecidas», pessoas com estatuto social reconhecido pelos seus concidadãos. No passado, tal só era possível ― sem violência e sem trabalho produtivo ― através do casamento dum(a) pobre num escalão social superior. Na sociedade do espectáculo[3], ser-se conhecido é um estatuto altamente valorizado, pois significa a garantia de um modo de vida ou, pelo menos, do abrir-se de portas para inúmeras oportunidades de trabalho e para rendimentos acrescidos directa ou indirectamente com o aparecimento de oportunidades de negócio, além da suposta afirmação de personalidade que se lhe atribui errada mas automaticamente.    A passagem do anonimato ao reconhecimento social e público é celebrado num espectáculo ou cerimónia (a que acima chamei assembleia) após a escolha dos eleitos por votação via telefone ou internet, não controlada pela sociedade mas por ela considerada como representativa de si mesma. O pós-Big Brother permitiu verificar que o jogo ou concurso Big Brother não tem apenas um único vencedor, o escolhido pelos votantes, mas vários ― nisso revelando, uma vez mais, o seu carácter de rito de passagem. De facto, a primeira edição do Big Brother criou vários «conhecidos» e não apenas o vencedor. Quatro concorrentes foram incorporados na aristocracia dos «conhecidos» ou colunáveis por terem constituído dois casais legítimos: o significado do programa foi, assim, acrescentado com os ritos de incorporação dos casamentos em programas posteriores, que legitimaram a própria instituição do programa enquanto rito de passagem. Uma outra concorrente, por ter alimentado um relacionamento com o vencedor, foi igualmente mantida no grupo dos «vencedores» sociais para além das regras do jogo, tendo participado num outro programa do mesmo canal, a TVI.   A passagem do anonimato e da pobreza (sendo aqui a pobreza não apenas económica mas a que se identifica com um anonimato social) à aristocracia da sociedade do espectáculo está ainda mais visível nos dois jogos lançados pela mesma produtora em 2001-2002, Academia de Estrelas, já apresentado em Portugal, e Operação Triunfo, já apresentado em Espanha. Neles, o objectivo é ― já não indirectamente, como no Big Brother― a passagem directa ao estrelato do espectáculo (música pop, representação, dança, mímica, etc). O primeiro prémio da Operação Triunfo, a consagração como representante do «país» no concurso de canções da Eurovisão, significa de facto a concretização total, consumada, do objectivo do rito de passagem. Já num anterior concurso da mesma empresa[4], Chuva de Estrelas, estava presente a mesma estratégia de assegurar a passagem ao estrelato, através da promessa de gravação de um CD.        Cabe perguntar por que razão a sociedade não identificou o Big Brother e outros reality shows ou reality games como ritos de passagem. Julgo que a sociedade não identifica ritos de passagem, apenas tem ritos de passagem. A sociedade não é consciente de que os ritos de passagem são ritos de passagem, mas vive-os como tal ― ou participa na sua representação como tal.   Um outro aspecto contribuiu até agora para mascarar essa característica vital deste tipo de programas: o facto de o programa ser de tal forma autónomo que parece desligado de fenómenos sociais tão enraizados como os ritos de passagem. Van Gennep chamava a atenção para este facto ao referir-se a «alguns padrões cerimoniais em que o período de transição é suficientemente elaborado para constituir um estado independente». Quer dizer, o rito ― neste caso o programa de televisão ― vale por si: «todas estas cerimónias têm os seus próprios objectivos».[5]Desta forma, «onde a transição possui uma autonomia própria» constitui-se «um sistema secundário inserido no todo cerimonial.»[6] A cerimónia (o programa) transforma-se num estado.   Este aspecto foi acentuado pelo antropólogo britânico Victor Turner (1920-1983). Na sua obra The Ritual Process, de 1969, ele considerou o período liminar dos ritos de passagem como uma entidade com autonomia suficiente para se constituir em formação social, caso das comunidades utópicas, como a dos hippies nos Estados Unidos nos anos '60, ou de ordens religiosas como os franciscanos. Essa transição, a liminaridade, acentua-se nas sociedades complexas.[7] Para Turner, o ritual deve ser visto mais como um processo do que um produto, o que é, para Horace Newcomb e Paul M. Hirsch, uma «noção raramente aplicada ao estudo da televisão e, no entanto, crucial para uma compreensão adequada deste medium.»[8]   Segundo Turner, a liminaridade tem propriedades diferentes, ou mesmo contrárias, às do sistema estrutural habitual da sociedade, que se podem ordenar em oposições ou discriminações binárias.[9] À lista, na ordem apresentada por Turner, acrescentou-se aqui o itálico para realçar as oposições que mais se manifestam nos reality shows com características de liminaridade:   Transição/estado Totalidade/parcialidade Homogeneidade/heterogeneidade Communitas/estrutura Igualdade/desigualdade Anonimato/sistemas de nomenclatura Ausência de propriedade/propriedade Ausência de estatuto/estatuto Nudez ou uniforme/distinções de roupa Continência sexual/sexualidade Minimização de distinções sexuais/maximização de distinções sexuais Ausência de categorias sociais/categorias sociais Humildade/justo orgulho de posição Desatenção à aparência pessoal/cuidados com a aparência pessoal Nenhuma distinção de riqueza/distinções de riqueza Altruísmo/egoísmo Obediência total/obediência apenas à categoria superior Sagrado/secularidade Instrução sagrada/conhecimento técnico Silêncio/discurso Suspensão de direitos e obrigações de família/direitos e obrigações de família Referência contínua a poderes místicos/referência intermitente a poderes místicos Tolice/sagacidade   A estas oposições podemos acrescentar a seguinte:   O presente, o agora/enraizamento no passado e extensão no futuro[10]      O que desde logo distingue os reality shows como o Big Brotherdas sociedades de liminaridade  descritas por Turner é precisamente o facto de, ao contrário dos noviços que pretendem entrar numa sociedade igualitária, os candidatos dos concursos se submeterem às características do período de transição precisamente para poderem deixá-las e melhorarem a sua posição social no exterior, por exemplo quanto à ausência de propriedade e de distinções de riqueza. A própria evolução do jogo se destina a fazer desaparecer o anonimato inicial dos noviços e a sua igualdade ritual, singularizando-os nas suas características próprias, aquelas que farão a sociedade exprimir-se sobre a sua presença ou expulsão do território ritual. O Big Brother é, assim um rito de passagem que acentua o desejo de afirmação do indivíduo na sociedade capitalista, de integração como vencedor, o que é o avesso das communitas descritas por Turner.   O que atrai da teoria de Turner neste contexto é, pois, a valorização da autonomia do período de transição, o que reforça a qualificação dos reality shows, pelo menos de alguns deles, como ritos de transição. Os reality showssão precisamente períodos de transição inventadospara existirem como tal. E, o que é importante, permitem à sociedade que neles se revê sair de si e debater, defender ou pôr em causa alguns dos seus valores comuns, incorporando depois os resultados desse debate. O rito funciona assim, tal como a arte, como uma metalinguagem, «uma forma de compreendermos quem e o que somos, como se ajustam os valores e as atitudes, como os significados se modificam.»[11]   A essência da liminaridade, escreveu Turner, «encontra-se na sua libertação dos constrangimentos normais, tornando possível a desconstrução das construções ‘desinteressantes’ do senso comum, o ‘sem sentido da vida quotidiana’ (...) em unidades culturais que podem então ser reconstruídas em maneiras novas, algumas delas bizarras ao ponto da monstruosidade. (...)A liminaridade é o domínio do ‘interessante’ ou do ‘senso incomum’.»[12]   É também importante para este argumento a relação que Turner estabelece entre a liminaridade e os extractos sociais inferiores da sociedade. Enquanto rito de passagem, o Big Brother, com o seu período longo de liminaridade (quatro meses na sociedade contemporânea é um período longo), criado para permitir a transição a um estado social superior, dada a identificação correcta de «ser-se conhecido» com oportunidades de acumulação de riqueza, destina-se aos despossuídos de riqueza e de posição social. Nisso, também, se assemelha a manifestações de liminaridade a que Victor Turner chama «'os poderes dos fracos' ou, por outras palavras, os atributos sagrados em permanência ou transitoriamente do baixo estatuto ou posição.»[13] O Big Brother, bem como os outros ritos televisivos de transição para a aristocracia da sociedade do espectáculo, é um programa para os novos pobres, os pobres da sociedade do espectáculo: os despossuídos de dinheiro, de direito à palavra e de imagem publicamente partilhada e admirada. Faz parte do rito que toda a sociedade dê atenção aos iniciados marcados pelo seu baixo estatuto ou posição.   A chamada de atenção de van Gennep para a autonomia das cerimónias rituais e o desenvolvimento que Victor Turner atribuiu a esse período intermédio permitem enquadrar a importância que o Big Brother e outros reality shows ou reality games adquirem, aparentemente surgindo do nada e aparentemente desligados da realidade social profunda.   Mas, afinal, não poderia deixar de ser assim com o Big Brother porque ele é um programa de televisão e porque lhe cabia instituir o rito de passagem, instituira transição, ou a sua representação, transição que a sociedade parecia exigir para dar aos seus filhos anónimos a possibilidade de acederem ao mundo maravilhoso da aristocracia da sociedade do espectáculo.   Julho de 2002    Eduardo Cintra Torres     [1] Turner, Victor, The Ritual Process (1969), Nova York, Ed. Aldine de Gruyter, 1995, p.103   [2] Van Gennep, Arnold, The Rites of Passage (1909), Londres, Routledge, 1970, pp.10-11.   [3]Utilizo a expressão «sociedade do espectáculo» neste e noutros artigos com o significado que lhe deu Guy Debord em La Société du spectacle (1967), Paris, Gallimard, 1992 e em Commentaires sur la société du spectacle (1988), Paris, Gallimard, 1992.   [4]Seria interessante investigar as relações entre os vários programas da Endemol, criados por ou sob a orientação de Jon de Mol, e estabelecer os contactos entre si e entre cada um dos ritos e os ritos de passagem tal como classificados por van Gennep. [5] Op. cit., p.11 [6] Ibidem, p.185. Mais à frente, van Gennep reafirma ainda um ponto até então ignorado: «a existência de períodos transitórios que às vezes adquirem uma certa autonomia.» (p.191) [7]Numa sociedade complexa, o Big Brotherdificilmente se poderia constituir como fenómeno da sociedade inteira, como seria uma rito de passagem numa «sociedade primitiva», mas apresenta-se como tal na linguagem e na estrutura, sendo tomado como tal por uma grande parte da sociedade. É, aliás, a fundamentação antropológica do programa (chamemos-lhe assim) que explica a sua solução estrutural e, também, a sua solução estética. [8] Newcomb, Horace, e Hirsch, Paul M., «Television as a Cultural Forum», in Newcomb, Horace (ed.), Television: the Critical View (2000), New York, Oxford University Press, 6ª ed., p.563. [9] Turner, Victor, The Ritual Process (1969), Nova York, Ed. Aldine de Gruyter, 1995, p.106. [10] Baseio-me em Turner, p.112. [11] Newcomb e Hirsch, artigo citado, p.564. [12] Turner, Victor, «Process, System, and Symbol: a New Anthropological Synthesis», Daedalus (Summer 1977), p.68, in Newcomb e Hirsch, artigo citado, p.563. [13] Op. cit., p.109.  Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo.   Esta oliveira tinha 1390 anos. Mais de mil anos, portanto. Quase mil e quatrocentos anos, é verdade. Um certificado dizia datar de 728 d.C. Estava cá antes de Portugal, mas não lhe sobreviveu (ou Portugal não foi capaz de lhe sobreviver). Colocada em Santarém, frente aos serviços do Instituto de Conservação da Natureza que, pelos vistos, foram incapazes de a salvar. Morreu há pouco, deixaram-na secar, falecida de sede – e desleixo? Portugal, questão que eu tenho comigo mesmo.  Postais de Auschwitz. A propósito de um livro recentíssimo, Postcards from  Auschwitz, onde Daniel P. Reynolds faz o retrato de alguns desmandos da «indústria do Holocausto», o Times of Israel tem uma extensa notícia sobre essa obra (que, note-se, não critica a prática de tirar selfiesnos campos de extermínio).   O mais impressionante da notícia do periódico israelita é a recensão de abusos inacreditáveis que têm sido cometidos nesses lugares, como o de um grupo que decidiu filmar-se em vídeo – e em pêlo – no interior de uma antiga câmara de gás. Ou, menos grave, o caso da neta de um sobrevivente que decidiu furtar objectos do museu de Auschwitz argumentando que o fizera para os incorporar num projecto artístico. Há ainda quem organize manifestações tontas frente ao portão do famigerado Arbeit Macht Frei, quem seja apanhado a urinar nos campos… Enfim, um compêndio de barbárie e estupidez – a que, todavia, não podemos fechar os olhos.     O relógio da História.             Este relógio estava na família Duret há muitas décadas e outras tantas gerações. Nos anos 1940, Jean Duret recebeu-o das mãos de seu pai, que por sua vez o herdara de seu avô e assim por diante. Maravilhado, Jean gravou o seu nome no relógio familiar, bem como o nome da aldeia em que morava, Habère-Lullin, localidade alpina em que os nazis perpetraram um massacre por alturas do Natal de 1943, quando vinte e cinco jovens foram metralhados sem piedade pelas SS. Na altura com dezoito anos, Jean escapou por pouco à barbárie nazi, fugindo no último minuto com alguns companheiros da Resistência francesa. Mas o relógio ficou para trás, confiscado pelos alemães.  No passado 10 de Janeiro, Jean Michel Duret tinha uma carta  na caixa de correio. Vinha de Berlim, remetida por uma tal de Sabine Konitzer. Sem saber bem como, Sabine herdara o relógio de uma tia e, setenta e cinco anos depois, devolvia-o ao filho do seu legítimo proprietário. Jean falecera entretanto em 2010, mas o relógio, esse, está agora junto de quem deve, entregue por quem merece esta notícia e público louvor: Sabine Konitzer, alemã de Berlim.     Demasiado perfeita?   Circula na Internet uma imagem demasiado perfeita. Dizem ser de uma órfã iraquiana que desenhou a figura da mãe a giz, no chão, tirou os sapatos e adormeceu no regaço materno. De cima, o fotógrafo captou o momento, tudo sem uma falha. Longe de mim afirmar que a imagem não é pungente. Parece-me, no entanto, demasiado pungente. Nunca nos esqueçamos que, antes das fake news, a manipulação fotográfica já existia, e à grande. Mais, as imagens manipuladas são talvez a maior fake new do nosso tempo. Será o caso desta fotografia? Fica a dúvida, pois não consegui obter praticamente nenhuma informação sobre a imagem (o que, aliás, reforça a desconfiança e a dúvida). Para mais, vejam como circulam imagens em tudo semelhantes:    Um chá no deserto.     https://observador.pt/2018/06/01/porque-e-que-a-princesa-na-capa-da-vogue-arabia-esta-a-causar-controversia/Do Museu das Descobertas ao Padrão dos Descobrimentos.        Mais de cem académicos subscreveram recentemente uma «Carta Aberta» questionando que um futuro equipamento museológico, a inaugurar em Lisboa, tenha a designação «Museu das Descobertas», tal como vinha anunciado no programa eleitoral do Partido Socialista e do actual presidente da edilidade, Fernando Medina.   A citada Carta Aberta foi publicada no jornal Expresso, e o seu conteúdo está disponível aqui.   Diz-se nessa Carta, entre o mais, que a designação «Descobertas», e cita-se, «cristaliza uma incorrecção histórica», acrescentando os signatários: «razão pela qual, como historiadores e cientistas sociais, não podemos estar de acordo com ela».   Além de incorrecta historicamente, a expressão «Descobertas» é, em seu entender, questionável sob outros pontos de vista: «Para os não europeus, a ideia de que foram “descobertos” é problemática».   Depois, sustenta-se que «Descobertas» se trata de «uma expressão frequentemente utilizada durante o Estado Novo para celebrar o passado histórico, e que convoca, por isso mesmo, um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».   Por conseguinte, e em síntese:   1 – a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» constitui uma «imprecisão histórica»;   2 -  a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» é problemática para os povos não europeus;   3 – a expressão (ou o conceito) de «Descobertas» convoca «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».   Sem questionar nenhuma destas afirmações – repete-se, sem questionar nenhuma destas afirmações –, e independentemente de qualquer posição que tenhamos sobre este assunto,pode e deve  apenas perguntar-se que motivo levou, então, muitos signatários dessa «Carta Aberta» a colaborarem em iniciativas de um equipamento cultural da cidade de Lisboa designado «Padrão dos Descobrimentos».   Na verdade, o Padrão dos Descobrimentos, inaugurado em 1960 por Américo Thomaz na presença de Oliveira Salazar, não apenas em termos onomásticos como imagéticos e simbólicos, convoca indiscutivelmente, na lógica dos subscritores da «Carta Aberta», «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».   Nem se afirme que as iniciativas que tiveram ou têm lugar no Padrão dos Descobrimentos não se encontram em sintonia com tal designação e, pelo contrário, contestam, elas próprias, a expressão ou o conceito de «Descobertas/Descobrimentos».   É que, antes de se pronunciarem sobre os conteúdos do futuro espaço museológico, e mesmo que tais conteúdos também venham a não estar em sintonia com o conceito de «Descobertas», os signatários impugnam, desde logo, a mera designação, que consideram: (a) incorrecta historicamente; (b) problemática para os povos não-europeus; (c) evocadora de sentidos incompatíveis com o Portugal democrático.   Portanto, independentemente da programação e dos conteúdos expositivos do futuro Museu das Descobertas, uma vez que se questiona esta designação ou conceito, o mesmo vale de pleno para o Padrão dos Descobrimentos.   Poder-se-á afirmar que o facto de participar em iniciativas de um determinado espaço ou lugar não significa concordância com o seu nome. Assim, proferir palestras ou fazer visitas guiadas a exposições no Padrão dos Descobrimentos não exprime necessariamente uma adesão à designação do edifício. Acontece, porém, que os signatários da Carta Aberta não só manifestam a sua discordância com essa designação como sustentam que ela, além ou mais do que imprecisa cientificamente, é ética ou politicamente questionável, já que evoca «um conjunto de sentidos que não são compatíveis com o Portugal democrático».   Ou seja, ao colocarem a sua discordância de uma forma tão intensa e num plano tão relevante, considerando ademais que ela era merecedora de intervenção no espaço público e de difusão pelos jornais (a carta poderia ter sido enviada tão-só ao Presidente da CML), os signatários assumem um nível de crítica que não parece conciliável com a presença em locais cuja designação oficial tenha a palavra «Descobertas» (ou «Descobrimentos»).   Como também parece evidente, os argumentos aduzidos contra a palavra Descobertas/Descobrimentos tanto se aplicam aos edifícios a construir como aos espaços já existentes e em funcionamento.   Prescindindo de saber, por ora, se utilizam ou utilizaram o conceito de «Descobertas» nos seus trabalhos, a questão que se coloca é tão-só a de saber o motivo pelo qual os referidos signatários participam em iniciativas de um espaço que tem a designação oficial «Padrão dos Descobrimentos».   Esta questão, deve sublinhar-se, é suscitada independentemente de qualquer posição que assumamos nesta matéria, podendo ser colocada mesmo por quem questione a designação «Descobertas», quando aplicável seja a equipamentos a construir, seja, naturalmente, a espaços já existentes e em funcionamento.   Com efeito, não é o facto de uns espaços já existirem e de outros se encontrarem ainda na fase de projecto que, como é óbvio, retira à designação oficial dos primeiros a carga negativa associada ao seu nome, tanto mais que essa designação oficial sempre pode ser alterada, à semelhança do que sucede em diversas mudanças onomásticas ocorridas em Portugal e noutros países.      Sem preocupações de um levantamento exaustivo, participam ou participaram em iniciativas do Padrão dos Descobrimentos signatários da «Carta Aberta» tais como Ângela Barreto Xavier, António Camões Gouveia, Cristina Nogueira da Silva, Diogo Ramada Curto, Isabel Castro Henriques,João Paulo Oliveira e Costa, Miguel Vale de Almeida e Pedro Cardim.       Em face disto, após terem assinado a referida Carta nos exactos termos em que a mesma se encontra redigida, questiona-se se estas personalidades e todos os demais signatários, investigadores de indiscutíveis méritos científicos e académicos:   1 –  irão doravante, e em coerência, deixar de participar nas iniciativas decorrentes no Padrão dos Descobrimentos;   2 – irão promover uma iniciativa cívica, sob a forma de carta aberta ou outra, com vista à alteração da designação oficial do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.    António Araújo               São Cristóvão pela Europa (63)     Igreja de São Cristóvão, Liège, Bélgica, 11 de Março de 2018   Morris West (1916-1999) foi um escritor australiano de enorme êxito, autor de grandes best-sellersmundiais como O Advogado do Diabo e As Sandálias do Pescador. Em 1981 escreveu o livro The clowns of God, Os palhaços de Deus. O tema do livro relaciona-se uma vez mais com o governo da Igreja Católica. O Papa Gregório XVII surpreende o Mundo renunciando à chefia da Igreja Católica no meio de grande mistério acerca de visões que teria tido acerca do fim do Mundo. A parte da abdicação veio a concretizar-se em 2013… O Papa torna-se o Senhor Jean Marie Barette. Primeiro recolhe-se a um convento mas depois inicia uma campanha para alertar o Mundo para o eminente Apocalipse. Começa por ir a Tübingen, Alemanha,  visitar um amigo de sempre, Carl Mendelius, um professor jesuíta de Teologia, internado num hospital após ter sido vítima de um atentado. Encontra um grupo de jovens que lhe pergunta pelo estado de saúde do professor. Ele responde que o médico lhe assegurou que melhorara. Um dos jovens, Alvin Dolman, exclama Isso são grandes notícias, fantástico! Digam-me quando posso vê-lo. Encontrei uma coisa que ele vai gostar. É uma escultura de São Cristóvão, gótico antigo.   José Liberato   Lá no alto.               Há uns anos, poucos, pudemos ver no DocLisboa  (de 2014) um documentário espantoso. Out of the Present, de Andrei Ujică, contava a história extraordinária, de mistério e imaginação, do cosmonauta Sergei Krikalev (ou Krikaliov), que em 1991 embarcou na estação espacial Mir ainda nos tempos da União Soviética e, enquanto estava no espaço, não se apercebeu do colapso da pátria dos sovietes. Chegou à Terra e já não existia URSS, dizendo-se que «foi a primeira pessoa a observar o fim de uma era histórica do ponto de vista dos deuses». Serguei Krikaliev (n. 1958)           A história de Krikalev foi agora retomada num outro filme, que ainda não vi, e segundo sei, ainda não aterrou em Portugal – esperemos que chegue em breve. Chama-se Sergio & Serguéi e é uma película hispano-cubana, meio abarracada e cómica, dirigida por Ernesto Daranas. Vamos ver, vamos vê-la.            Ferrante, napolitana.     A Nápoles de Ferrante. Um fotoensaio do The Guardian, escrito por Sophia Seymour, que fundou a empresa Looking for Lila, percursos pela cidade da amiga genial. Também do maior interesse, este artigo da The New York Review of Books.  19641955   E agora, para os fãs fanáticos, a adaptação da tetralogia ao écran, com actrizes escolhidas, seleccionadas e orientadas por Elena, a misteriosa.        Costa do Sol - Estudos literário-sexuais.      Era uma lástima ver aquele esbelto rapaz de 18 anos acamaradando com vadios engravatados e prostitutas reles. Lola, Amparo e Julia, as manas Touza.   Três heroínas no Holocausto, estas irmãs de Ourense fizeram passar para Portugal uns 500 judeus em fuga a Hitler e a uma morte certa. Mais aqui ou aqui ou aqui. E já agora;: os judeus que passavam a fronteira portuguesa deviam ser acolhidos por alguém. Quem? Quem foram as manas Touza do lado de cá?      Nancy Negra.   Um livro mítico. Aparecido pela primeira vez em Janeiro de 1934, esta recolha esmagadora, Negro Anthology, uma compilação de mais de 900 páginas, foi feita por um nome não menos mítico, Nancy Cunard (1896-1965). Herdeira da fortuna da célebre companhia marítima Cunard, frequentadora do Blomsbury Group, amiga de Virginia Woolf, fotografada por Man Ray, musa de Aragon, Tristan Tzara, Ezra Pound, Aldous Huxley, seus amantes, a que se juntariam Hemingway ou James Joyce. Para desgosto de sua mãe, Nancy tornou-se companheira de Henry Crowder, um pianista afro-americano e o casal decidiu reunir o maior número possível de testemunhos sobre o racismo, os linchamentos, a segregação. A obra, uma antologia clássica, foi agora editada em França. Nancy Cunard, fotografada por Man Ray Kingelez: cidades de sonhos.    Bodys Isek Kingelez (1948-2015)     No MoMa, em Nova Iorque, uma exposição das utopias clean do fantástico congolês Bodys Isek Kingelez (1948-2015), um artista que não primava pela modéstia, definindo-se como «um pequeno deus». Polímato, poliglota, Kingelez foi, sem dúvida, o maior, ainda que o seu génio se manifestasse no muito pequeno, à escala reduzida de brinquedos para crianças, parques de Lego que admiramos com uma curiosidade pueril, quase gaiata. Por muitas tentativas de teorização da sua obra, como aquela que vemos neste vídeo, Kingelez foi isto, apenas o que contemplamos nas fotografias; apenas isto, o que não é pouco. Por cá, tivemos um génio assim, ou maior: António Peralta. Exposto no Museu de Etnologia, nem um catálogo fizeram, perdendo-se uma ocasião única, irrepetível. Talvez os americanos descubram um dia quem foi António Peralta, e aí toda a gente irá louvá-lo como merece.         La Raza de Franco.        Raza  é um filme de 1941 baseado no livro homónimo que Francisco Franco publicou sob o pseudónimo Jaime de Andrade. Algumas cenas dão bem a noção do prodigioso burlesco que é Razana tela, filmada por Sáenz de Heredia. Nunca li o livro semiautobiográfico de Franco, mas pelo que se vê do filme… valha-nos Díos. Um belíssimo apontamento trágico-cómico. «Muy bien, Sáenz de Heredia, usted ha cumplido», disse Franco ao realizador, descido o pano da projecção privada que, mal rodada a fita, teve lugar no Palacio de El Pardo. Franquismo e cinema, nota final: na sua monumental biografia de Franco, o historiador Paul Preston diz que, morto o ditador, a sua quinta passou a ser usada para a rodagem de filmes de cowboys e películas pornográficas. Arriba, España!        Galinhas do mato.               Durante muitos e muitos anos, a fotógrafa Wendy Ewald deu aulas de fotografia a crianças de zonas rurais em todo o mundo. Wendy pediu aos seus alunos que lhes contassem os sonhos que tinham tido de noite – para recriá-los sob a forma de imagens fotográficas. O resultado está à vista, e um artigo na New Yorker fala deste originalíssimo projecto.      Dr. Jekyll e Portugal.      Robert Louis Stevenson (1850-1894) publicou em 1886 um livro célebre pela sua análise da dupla personalidade e pelas suas adaptações cinematográficas, intitulado The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde(O estranho caso do Dr. Jekyll e do Mr. Hydeou O médico e o monstro). A expressão “Dr. Jekyll e Mr. Hyde” entrou na linguagem corrente quando nos queremos referir a uma pessoa que tem comportamentos totalmente diferentes relativamente à mesma realidade. Mas o livro tem uma curiosidade especial para nós Portugueses. É a sua dedicatória: To Katharine de Mattos It's ill to loose the bands that God decreed to bind; Still we will be the children of the heather and the wind. Far away from home, O it's still for you and me That the broom is blowing bonnie in the north countrie.     Para Katharine de Mattos É mau aliviar os laços que Deus decidiu unir; Seremos sempre os filhos da urze e do vento. Longe de casa, é ainda para ti e para mim Que a giesta floresce lindamente no país do norte.             Mas quem seria esta Katharine de Mattos (1851-1939)?   Praticamente da mesma idade de Stevenson, era sua prima e com ele brincara na infância. Em Junho de 1874 casou em Perth, Escócia, contra a vontade da família, com William Sydney de Mattos. Daí o nome Mattos que usava.   O casamento durou pouco. O homem era um doido. Adepto do amor livre, era conhecido como “o ateu de Cambridge”.   Foi secretário da Fabian Society. Bernard Shaw, também fabiano, refere-se a ele numa carta como satiromaníaco.   As infidelidades constantes levaram à separação em 1881.   Aos 30 anos, Katharine mudou-se para Londres com duas crianças e sobreviveu dedicando-se ao jornalismo. Escreveu sob o pseudónimo de Theodor Hertz-Garten.   Por sua vez, William Sydney nasceu em Clapham, Londres, a 10 de Janeiro de 1851.   Encontrei o registo dele em 10 de Fevereiro de 1868 como estudante no célebre Trinity College em Cambridge, onde consta que terminou os estudos como Bachelor of Arts em 1872 e que era filho de William Nicholas de Mattos e de Rachel Brockelbank. Ou seja, o Mattos vem do pai, sogro portanto da Katharine.   O casamento de William Nicholas e Rachel ocorreu em 4 de Fevereiro de 1849 em Poplar no Leste de Londres. No registo desse casamento, o pai de William Nicholas é identificado como George de Mattos.   Um blogue de um descendente, que não me pareceu de muita confiança, menciona que William Nicholas era um grande negociante em Londres e descendia de um português que teria ido para o Brasil em 1807 mas não diz o nome da personagem.   Seria George de Mattos ou Jorge de Matos?    José Liberato       Notas sobre A Grande Onda - 61   61.           Além das tatuagens, de que se falou aqui e aqui, a xilogravura A Grande Onda, de Katsushika Hokusai, tem inspirado, ainda que com menor intensidade, obras da chamada «arte corporal» (body art), tal como se refere aqui.      Entre elas, as unhas apresentadas por Maki Otani, manicure em San Diego, Califórnia, na Mini Masterpiece Nail Art Competition, organizada em 2010 pela Nails Magazine, e que aí obtiveram o primeiro prémio. Um trabalho que demorou dez horas a executar e que Maki Otani descreveu assim:  «Using a tiny brush, I painted the waves and Mt. Fuji with acrylic paint, and then I used white acrylic powder and monomer on the white part of the wave so it would look like it was popping out.»      Na mesma linha, a maquilhadora Georgina Rylan obteve o segundo lugar na edição de 2014 do IMATS Battle of the Brushes, em Sidney, com esta interpretação de A Grande Onda:      Veja-se outro trabalho de arte corporal, apresentado aqui, e da autoria de Danny Setiawan, do DenArt Studio.      Já outra imagem que surge frequentemente na Internet parece tratar-se de uma manipulação fotográfica, sem correspondência com a realidade. Mas, ainda assim, merecedora de ser apresentada a título de curiosidade.         Evita à Venda.     Santa Evita, todos se lembram desse extraordinário livro. E dos caminhos e descaminhos do cadáver d’Ela. Será que lhe cortaram as mãos, como dizem? Agora, um leilão em grande, de Juan e Evita. Mesmo para quem não possa ou não queira comprar, vale a pena ver isto. Essencial para compreender o peronismo, o de ontem e o de hoje.     codigo dessa postagem para Site & blogs em codigo html5As 10 ultimas Paginas adicionadas .L {position: absolute;left:0;} .C {position: absolute;} .R {position: absolute;right:0;} .uri{font-size:0;position: fixed;} As 10 ultimas Paginas adicionadas