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Já  tratei do tema da memória inúmeras vezes neste blog, assim como de outros temas relacionados às áreas da psicologia cognitiva e neurociências. Gostaria agora de indicar uma série de livros, todos publicados no Brasil (alguns esgotados na editora, infelizmente, mas disponíveis em sebos virtuais), que qualquer pessoa que se interesse em compreender o funcionamento da memória humana pode buscar para ampliar seu conhecimento sobre o assunto. Certamente, todos os anos são lançados inúmeros livros sobre o tema, em especial manuais de auto-ajuda que prometem "potencializar sua memória", no entanto, a grande maioria desses livros é simplesmente lixo ou "mais do mesmo" e raramente trazem discussões aprofundadas e consistentes sobre a psicologia e a neurobiologia da memória. Já os livros abaixo certamente trazem importantes contribuições para o entendimento deste complexo e multifacetado tema.

1-  Memória (Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia) - L&PM, 2011.

Este pequeno livro lançado pela editora L&PM em 2011 é uma ótima introdução ao tema, talvez a melhor disponível no Brasil. Escrito pelo pesquisador Jonathan K. Foster, que é também professor de neuropsicologia clínica e neurociência comportamental na Universidade de Curtin, na Austrália, esta tradução do livro Memory: a very short introduction passa pelas principais questões relacionadas ao tema, como os diferentes tipos de memória, suas bases neurobiológicas, as imprecisões e os distúrbios mnemônicos, etc. Trata-se de uma pequena mas consistente obra, extremamente indicada para aqueles que pretendem iniciar neste tema.

2- Psicologia cognitiva - Artmed, 2016.

Escrito pelo psicólogo Robert Sternberg em parceria com sua esposa, a também psicóloga Karin Sternberg, este manual básico sobre a área da psicologia cognitiva é um ótimo material para quem pretende entender de uma forma um pouco mais aprofundada o funcionamento da memória humana, tema que livro dedica dois capítulos. Importante destacar que estes capítulos se focam na psicologia da memória e não tanto na neurobiologia da memória. Portanto, caso seu interesse seja entender as bases cerebrais da memória existem outros livros mais adequados, como "Em busca da memória" e "Presente permanente", que apresentarei brevemente abaixo.

3- Em busca da memória - Companhia das Letras, 2009.

Este livro clássico, infelizmente esgotado no Brasil e disponível apenas por valores altíssimos em sebos virtuais, foi escrito pelo neurocientista, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, Eric Kandel. Trata-se de uma obra fundamental para todo e qualquer estudioso da memória. Em um calhamaço de mais de 500 páginas, Kandel nos conta sua trajetória pessoal e acadêmica ao mesmo tempo em que descreve as pesquisas sobre o funcionamento cerebral realizadas ao longo dos séculos XIX e XX. Em especial ele narra em detalhes a evolução de sua pesquisa com o molusco Aplysia californica, que revolucionou os estudos cerebrais sobre a memória.

OBS: há um interessante documentário baseado neste livro, disponível legendado .

4- A arte e ciência de memorizar tudo - Nova Fronteira, 2011.

Neste maravilhoso livro lançado em 2011 no Brasil - e infelizmente esgotado - o jornalista Joshua Foer traz um ensaio autobiográfico delicioso sobre o funcionamento da memória. Seu bizarro título original, Moonwalking with Einstein [Dançando Moonwalk com Einstein], acabou por ser ignorado pelos editores brasileiros, que optaram por transformar o subtítulo em título. Na que publiquei no ano de seu lançamento eu apontei: "o mais interessante do livro é que o relato de sua jornada é entrecortado por explicações sobre o funcionamento da memória, entrevistas com pessoas com memórias excepcionais e com amnésias severas, discussões históricas sobre o tema, além de algumas técnicas para melhorar a memória".

OBS: assista uma interessante palestra, legendada, do autor deste livro.

5- Os sete pecados da memória - Rocco, 2003.

Escrito por Daniel Schacter, professor e pesquisador na Universidade de Harvard - e uma das maiores autoridades do mundo no estudo da memória - este livro trata das falhas "normais" da nossa memória, isto é, daquelas falhas não-patológicas que acometem todas as pessoas. Schacter aponta para sete falhas ou transgressões, que ele denomina ironicamente de "pecados": a transitoriedade, a distração, o bloqueio, a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a persistência - é possível encontrar uma breve definição de cada um destes pecados. Enfim, neste livro excepcional, o pesquisador analisa em detalhes as principais falhas de nossa memória apontando ainda para a importância fundamental do esquecimento.

6/7- O gorila invisível - Rocco, 2011/ O Rio da consciência - Companhia das Letras, 2018.

No sensacional livro O gorila invisível, lançado em 2011 no Brasil, os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons analisam diversos "equívocos da intuição", dentre eles, no segundo capítulo, a chamada "ilusão da memória" - que não coincidentemente, é o título de um que publiquei em 2017. De uma forma resumida é possível dizer que o segundo capítulo deste livro, denominado "O técnico que esganou", trata da questão das falsas memórias, mesmo tema, aliás, de um ótimo ensaio de Oliver Sacks, "A falibilidade da memória", publicado postumamente no livro O Rio da consciência. Estes dois ensaios tratam com brilhantismo da natureza construtiva das nossas memórias.

8- Presente permanente - Record, 2018.

Lançado no início de 2018 no Brasil, este livro - talvez o grande lançamento do campo das neurociências este ano no país - foi escrito pela renomada neurocientista Suzanne Corkin, falecida em 2016. Nesta obra de peso, Corkin faz uma narrativa completa e profunda dos mais de 50 anos de pesquisa com o paciente H.M. - que após sua morte, em 2008, descobrimos se chamar Henry Molaison. Se você já leu algum livro sobre o funcionamento da memória é muito provável que ele tenha mencionado H.M., um sujeito epilético que aos 27 anos de idade foi submetido a uma neurocirurgia que lhe retirou o hipocampo, dentre outras partes de seu cérebro, e que, desde então, nunca mais conseguiu formar novas memórias - vivendo, desde 1953, em um "presente permanente". Em seu maravilhoso livro, Corkin relata a fundamental importância das pesquisas com Henry para o avanço da compreensão científica sobre o funcionamento das nossas memórias. Afirma Corkin sobre Henry: "sua tragédia tornou-se um presente para a humanidade. Ironicamente, ele nunca será esquecido".

9/10- A mente e a memória/ O homem que confundiu sua mulher com um chapéu

Cada um destes dois livros traz um relato de caso de certa forma oposto ao outro. No primeiro, um clássico do neuropsicólogo russo Alexander Luria, publicado em 1968 com o título original de The mind of a mnemonist [A mente de um mnemonista], encontramos um relato incrivelmente detalhado de um sujeito, chamado por Luria simplesmente de S., que possuia uma memória infalível e ilimitada. Importante destacar que Luria possui um outro livro de relato, denominado O homem com o mundo estilhaçado, que apresenta um sujeito que, na contramão de S. teve um severo comprometimento cognitivo, inclusive mnemônico, em função de uma lesão de guerra. Já o segundo livro, um clássico do neurologista Oliver Sacks publicado originalmente em 1985, somos apresentados, no segundo capítulo, ao caso do "Marinheiro perdido", um sujeito que devido à Síndrome de Korsakov desenvolveu uma severa amnésia que, tal qual H.M., o impediu de formar novas memórias. Todos estes casos ilustram com brilhantismo o funcionamento normal e anormal da memória.

OBS: O ensaio "O marinheiro perdido" inspirou um belo curta-metragem de animação. Veja .






Segue o segundo texto escrito por mim em 2007 para o Jornal do Centro Acadêmico.

Apresento-lhes a mais nova área da Psicologia: a Psicologia Botânica. O que até bem pouco tempo estava restrito a um pequeno número de jovens pesquisadores agora se espalhou pelo mundo. A Sociedade Botânica do Brasil (SBB) juntamente com a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), fundaram, numa parceria inédita, a Sociedade Brasileira de Psicologia Botânica (SBPB). E já estão organizando o primeiro periódico sobre o tema. Especulam-se que chamar-se-á Journal of Botanical Psychology, atendendo às inúmeras demandas internacionais.

Isto para não falar do I Congresso Latinoamericano de Psicologia Botânica, marcado para Dezembro. Nele serão apresentados os resultados dos últimos estudos e pesquisas realizados no Brasil e no mundo. Além disso, serão lançados inúmeros livros, dentre eles, “A Psicologia Botânica, Freud e a Pós-modernidade” (Ed. Imago), “A fruta como sintoma” (Ed. Casa do Psicólogo), “O caule fala” (Ed. Vozes), "Vencendo a adubofobia" (Ed. Artmed) e os mais aguardados “Plantas: Quem ama educa” e “O que toda planta inteligente deve saber” (Ed. Sextante), ambos do prestigiado autor Içami Tiba.

Por todo o país, teses de mestrado e doutorado tem sido escritas sobre o tema, a partir de inúmeras abordagens. Por exemplo, a tese de mestrado “O feminino e a Psicanálise Botânica – Um estudo de caso” analisa o caso de uma samambaia, chorona e histérica que, com todo o corpo paralisado, passou por cinco anos de análise e agora compreende que não pode querer ser outra coisa além do que se é. Continua paralisada, porém feliz. 

Já a tese de Doutorado “Para-psicobotânica – Análise de uma planta sensitiva”, analisa o comportamento de uma Mimosa pudica, espécie de vegetal que fecha seus folíolos ao mínimo toque. Conclui, após complexas teorizações, que tudo o que se move é animal e que todo animal possui alma. Desta forma, todas as plantas são seres animais e espirituais. 

O Greenpeace foi além e lançou à campanha “Planta também é gente! Você comeria um parente?”. E a coisa segue por aí... É o eterno retorno. Começa como  psicologia e termina como histeria...


Update (25/11/2012): Àqueles que ainda duvidam que plantas tem sentimentos e sofrem, recomendo o video abaixo, que reproduz um clássico experimento de Psicobotânica, intitulado "O grito da cenoura".








Não devo postar nos próximos 3 ou 4 dias porque estarei em Belo Horizonte participando do , que acontece de amanhã (2/4) até sábado (4/4) na PUC Minas - Campus Coração Eucarístico. Vou realizar amanhã à tarde - de 14:00 às 15:30 - uma intitulada "Formação inicial em Psicologia no Brasil: passado e presente", baseada no meu trabalho de conclusão de curso (o artigo "Formação em Psicologia no Brasil: um perfil dos cursos de graduação", orientado pelo Prof. Altemir José Gonçalves Barbosa, pessoa maravilhosa e excelente professor e orientador) que será publicado este ano na revista Psicologia: Ciência e Profissão. Foi uma longa jornada até a aprovação final do artigo pelos pareceristas da revista: comecei a escrevê-lo em agosto de 2007, finalizei-o para a banca examinadora em dezembro do mesmo ano, revisei-o para publicação até junho de 2008, quando enviei-o à revista; somente em janeiro deste ano recebi a resposta: um parecer favorável mas com indicação de algumas modificações. Como fazia muito tempo que não estudava sobre o tema, recorri ao Altemir que fez as alterações necessárias (valeu, Altemir!) e enviou de volta à revista em fevereiro; em março finalmente veio o parecer final: APROVADO!!! UFA!!! Assim que for publicado, indico o link para os interessados poderem ler. E com relação ao evento, parece que vai ser ótimo. A está espetacular! Fica o convite...







Comprei durante o II Seminário Internacional de Habilidades Sociais (muito bom, por sinal!) um livro espetacular, intitulado Como falhar na relação? Os 50 erros que os terapeutas mais cometem (de Bernanrd Schwartz e John V. Flowers, Casa do Psicólogo, 2009). Ainda estou na primeira parte mas já me encantei com a proposta dos autores, bem como com a inventiva e cuidadosa diagramação da editora. O título dos capítulos é muito ilustrativo:

I Como errar antes mesmo de começar a terapia

II Como fazer avaliações incompletas

III Como ignorar a ciência

IV Como evitar a colaboração do cliente

V Como destruir o relacionamento terapeuta-paciente

VI Como estabelecer limites incorretos entre o terapeuta e o cliente

VII Como fazer com que o paciente não se envolva no cumprimento das metas

VIII Como piorar atitudes que já são ruins

IX Como evitar o confronto com os pacientes

X Como fazer com que os clientes recusem o uso de remédios

XI Como não encerrar uma terapia

XII Como chegar ao desgaste total do terapeuta

XIII Considerações finais: a capacidade humana de recuperação

Prefaciado pelo famoso psicólogo Arnold Lazarus, este livro utiliza a abordagem cognitivo-comportamental como base para seus apontamentos, mas como afirma a editora Chistiane Gradvohl Colas na Apresentação à edição brasileira “o leitor atento, porém, perceberá que os erros descritos pelos autores e as soluções sugeridas aplicam-se a qualquer situação de terapia, transcendendo sua base teórica”.

Este é, na verdade, o grande diferencial deste livro: tratar do dia-a-dia da pratica psicoterapia independente da abordagem teórica seguida pelo terapeuta. Existem muitos livros sobre a teoria das psicoterapias, mas muito poucos exploram a prática, o dia-a-dia, o cotidiano, enfim, a vida real e a complexidade da prática psicoterápica. Lembro-me, agora, de três: Os desafios da terapia – Reflexões para pacientes e terapeutas (de Irvin Yalom, Ediouro, 2006), Cartas a um jovem terapeuta – Reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos (de Contardo Caligaris, Elsevier, 2004) e Entrevista de Ajuda (de Alfred Benjamim, Martins Fontes, 1978). Já ouvi falar também de um chamado Ser Terapeuta, mas ainda não o li. De qualquer forma, este lançamento da Casa do Psicólogo preenche um vazio na literatura brasileira no que se refere ao real – e não ao ideal – do cotidiano de um psicoterapeuta. Fica a dica!

OBS: algumas partes do livro estão disponíveis no Google Books: clique para ver.












Sexta-Feira passada (dia 10 de Abril) assisti no GNT um documentário fascinante, vencedor de inúmeros prêmios, intitulado (traduzido pelo GNT como "Porque a Biblia me diz assim", mas também encontrado na internet com os nomes de "Como diz a Bíblia" e "Assim diz a Bíblia"). O filme discute a sempre tensa relação entre a Igreja Católica (com suas interpretações literais da Bíblia) e a homossexualidade. De acordo com o interessante site "O filme conta com o depoimento de vários teólogos, pastores, do bispo anglicano Desmond Tutu, além de um rabino. Por meio destas participações se põe em questão o que realmente as passagens da Sagrada Escritura que se referem à relação entre pessoas do mesmo sexo querem dizer e se é justo, para com o sentido original do texto, usá-las como prerrogativa de condenação absoluta ao inferno para gays e lésbicas. A interpretação literal do texto bíblico é desconstruída gradativamente na medida em que se contextualiza a situação cultural, a mentalidade presente na época retratada pelos textos. Numa linguagem fácil, os diversos depoimentos vão nos fazendo perceber que assim, como a Bíblia foi, e às vezes, ainda é, usada para justificar uma submissão ideológica das mulheres em relação aos homens e a discriminação racial, hoje, o alvo dos fundamentalistas bíblicos são os homossexuais" (O restante desde texto pode ser lido ). O argumento central deste brilhante documentário - que deveria ser passado nas escolas, universidades e empresas - pode ser resumido nesta cena da série The West Wing:


Assista ao documentário na íntegra .






Descobri na bibliografia do livro comentado no post anterior (Como falhar na relação?) um outro livro, do mesmo autor (John Flowers), junto com Paul Frizler, intitulado "Psychotherapists on film, 1899-1999", uma coletânea de ensaios sobre como os psicoterapeutas foram retratados em mais de 5000 filmes (isso mesmo: cinco mil!). Um trecho: "Recente pesquisa apurou que na última década, psicólogos foram retratados em cerca de 1500 filmes. Infelizmente, apenas 20% desses filmes apresentavam profissionais clínicos competentes, eficazes ou éticos. Os terapeutas costumam aparecer como causadores de males (O silêncio dos inocentes); histéricos e sem ética (Desconstruindo Harry); ou simplesmente incompetentes (Maquina Mortífera I, II, III e IV)" (Flowers e Frizler, 2004)







A Psicologia esteve e ainda está em grande evidência nos Estados Unidos nas últimas semanas. O motivo, infelizmente, não é nada positivo ou nobre. Tudo começou em 2014 quando o jornalista do New York Times James Risen publicou o livro "Pay Any Price: Greed, Power, and Endless War" [Pagando qualquer preço: ganância, poder e uma guerra sem fim], no qual acusava a Associação Psicológica Americana (American Psychological Association/APA), principal entidade representativa dos psicólogos norte-americanos, de contribuir com a tortura de prisioneiros políticos durante o governo Bush. Na época, a APA negou tal acusação, publicando uma em seu site. No entanto, a diretoria executiva da associação encomendou uma investigação independente para averiguar possíveis ligações de seus diretores e associados (cerca de 130 mil) com políticas e práticas de tortura - o que é proibido pelo código de ética da APA. Cabe ressaltar que tal proibição foi "flexibilizada" em 2005, quando a associação que psicólogos atuassem como "consultores" em interrogatórios, ou melhor, em "processos de coleta de informações relacionados com a segurança nacional".

A investigação, conduzida pelo promotor David Hoffman, foi concluída este mês com a publicação de um , que já vem sendo chamado de "Relatório Hoffman", cuja conclusão vai de encontro às expectativas da APA. De fato, o que o relatório expõe é que tanto dirigentes da APA (com destaque para o diretor do Departamento de Ética da entidade, Stephen Behnke) quanto diversos associados trabalharam ativamente junto a funcionários do Departamento de Defesa (DoD), do Pentágono e da CIA com o objetivo de legitimar ou facilitar a tortura de detidos políticos durante o governo Bush. Esta "facilitação" teria envolvido tanto a emissão de orientações éticas que endossaram a política de interrogatórios elaborada pelo DoD quanto a participação direta de psicólogos em "interrogatórios severos" (leia-se: tortura) na Baia de Guantânamo, em Abu-Ghrabi e em outros lugares. 

Como , as agências do Governo "queriam, alegadamente, diretrizes de ética permissivas, para que os seus psicólogos pudessem continuar a participar em técnicas de interrogatório severas e abusivas, usadas por estas agências depois dos ataques de 11 de setembro". O documento que "o principal motivo da APA para agir desta maneira foi garantir favores do departamento de Defesa. Mas houve outros dois importantes motivos: criar uma boa resposta de relações públicas e manter o ilimitado crescimento da psicologia nesse âmbito". É interessante constatar, neste sentido, que, como aponta , cerca de 7% dos psicólogos associados à APA - ou seja, quase 10 mil profissionais - trabalham para o Departamento de Defesa dos EUA seja como clínicos, no atendimento aos veteranos de guerra, seja como investigadores - e mesmo interrogadores. 

Em resposta a este relatório, a APA afirmou que irá rever as suas políticas e proibiu seus psicológicos de participarem diretamente em interrogatórios. destituiu diversos diretores, dentre eles Stephen Behnke, considerado o “chefe” da conspiração entre a APA, o Pentágono e a CIA. Outros foram compulsoriamente, como o diretor executivo da APA, Norman Anderson, o subdiretor executivo, Michael Honaker e a chefe de comunicações, Rhea Farberman. A psicóloga e ex-presidente da APA, Nadine Kaslow, que coordenou a comissão investigadora independente, ainda: "O propósito da organização não foi permitir que fossem aplicados métodos abusivos de interrogatórios ou contribuir para violar os direitos humanos, mas estes foram os resultados". E emendou: "Lamentamos profundamente, e pedimos perdão pela conduta e as consequências que teve". Importante salientar que não é de hoje que psicólogos - teoricamente profissionais dedicados à saúde e ao bem-estar da população - se envolvem em atividades escusas e imorais.

No livro Ministério do Silêncio, o jornalista Lucas Figueiredo, aponta que muitos psicólogos brasileiros contribuíram, durante a ditadura militar brasileira, no treinamento de agentes do Sistema Brasileiro de Inteligência (SNI, hoje Abin) que espionavam e entregavam indivíduos supostamente subversivos para o DOI-CODI (órgão repressor do exército). Muitos destes corajosos rebeldes foram torturados e vários mortos. E nós demos a nossa contribuição para isso... E é triste constatar que ainda hoje, diversos psicólogos (e pior: a própria associação dos psicólogos!) estejam envolvidos em atividades escusas como essas. Espero que este escândalo envolvendo a APA contribua para o afastamento definitivo dos psicólogos de tais atividades e também para que o conhecimento psicológico seja utilizado para ajudar e nunca para prejudicar ou torturar qualquer ser humano.







Reproduzo abaixo, integralmente, uma das notícias mais bizarras que já me deparei na internet. Ela foi publicada no espetacular blog “sobre ciência e pensamento crítico” , comandado pelos engenheiros Widson Porto reis e Alexandre Taschetto.

Paranormal também é gente

A constituição do estado de Pernambuco é uma das mais avançadas do mundo. É a única no planeta a prever assistência social obrigatória aos necessitados de todo o tipo que se possa imaginar: inválidos, menores abandonados, idosos desamparados e paranormais. Sim, eu disse paranormais.Está lá, nos e 175:

Art. 174 - O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxilio de entidades privadas de caráter Assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão Assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e a velhice desamparada.
§ 1º - Os auxílios as entidades referidas no caput deste artigo somente serão concedidos após a verificação, pelo órgão técnico competente do Poder Executivo, da idoneidade da instituição, da sua capacidade de Assistência e das necessidades dos assistidos.

§ 2º - Nenhum auxilio será entregue sem a verificação prevista no Parágrafo anterior e, no caso de subvenção, será suspenso o pagamento, se o Tribunal de Contas do Estado não aprovar as aplicações precedentes ou se o órgão técnico competente verificar que não foram aténdidas as necessidades Assistenciais mínimas exigidas.

Art. 175 - A Assistência social será prestada, tendo por finalidade:

I - a proteção e amparo a Família, a matérnidade, a infância, a adolescência e a velhice;

II - a promoção da integração ao mercado de trabalho;

III - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiências e sua integração na sociedade;

IV - a garantia, as pessoas portadoras de deficiência visual, da gratuidade nos transportes coletivos urbanos;V - executar, com a participação de entidades representativas da sociedade, ações de prevenção, tratamento e reabilitação de deficiências físicas, mentais e sensoriais.

Ou seja, se você está em Pernambuco e vê gente morta, lê pensamentos, entorta colheres, prevê o futuro usando , consegue levitar, tem visão de raios-x etc., pode contar com assistência social gratuita do estado. Difícil é descobrir o que o estado pernambucano pode fazer por você, já que um paranormal não carece de nenhuma das assistências definidas no artigo 175, nem mesmo a integração ao mercado de trabalho de que fala o item II; os que se dizem paranormais no Brasil precisam no máximo de empresários, não de oportunidade para ganhar dinheiro. Ainda bem. Seria mesmo engraçado garantir a gratuidade nos ônibus municipais para ciganas e Pais de Santo.

Diferentemente do que dizem vários sites espíritas e de parapsicologia por aí, o texto da lei não menciona a necessidade de nenhuma comprovação da alegada paranormalidade, apenas fiscaliza as entidades que oferecem, com dinheiro do governo, assistência aos paranormais. Ou seja, uma ONG em defesa dos direitos dos paranormais parece ser um bom negócio em Pernambuco, uma vez que conta com recursos garantidos por lei e pouca certeza sobre quem é merecedor dos recursos públicos. Não me espantaria se Pernambuco fosse o estado com o maior número de médiuns per capita do país.

A despeito da imensa, e mundialmente inédita, preocupação social do governo pernambucano, fica a pergunta: por quê um paranormal se candidataria à precária assistência pública brasileira se pode faturar a bagatela de 1 milhão de dólares no
da ?
Eu juro que não acreditei quando li, mas foi só entrar no site do para meu queixo cair novamente no chão. É verdade, companheiros! Só tenho uma coisa a "dizer"...








Em um , discuti criticamente a polêmica frase do neurocientista Ivan Izquierdo de que a neurociência teria superado a psicanálise. Meu argumento, em síntese, foi de que isto nunca poderia acontecer pois se tratam de áreas muito diferentes entre si. Em analisei a relação de Freud com a neurologia, concluindo que Freud de fato nunca abandonou a biologia. O que ele fez, em função de restrições técnicas e metodológicas, foi se afastar de uma perspectiva neurológica em direção a um entendimento puramente (ou majoritariamente) psíquico da mente humana. Gostaria agora de discutir a emergência da neuropsicanálise, novo campo que pretende fazer dialogar - e quem sabe até, fundir - neurociências e psicanálise. Embora não seja fácil apontar uma "data de nascimento" precisa, é possível dizer que a neuropsicanálise emergiu entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Um marco, nesse sentido, foi a criação da revista científica , cujo primeiro número foi publicado em 1999 - e que possuía em seu conselho editorial neurocientistas célebres como Antônio Damásio, Oliver Sacks e o "prêmio Nobel" Eric Kandel assim como psicanalistas conceituados como André Green, Otto Kernberg e Charles Brenner. Pouco tempo depois, em Julho de 2000, foi realizado em Londres o I Congresso Internacional de Neuropsicanálise, ocasião em que foi fundada a , definida pelo site oficial como uma "rede internacional de organizações sem fins lucrativos" que visa criar um diálogo entre as neurociências e a psicanálise. Também de acordo com o site, a neuropsicanálise "está interessada nas bases neurobiológicas de como agimos, pensamos e sentimos. Quando começamos a conectar a atividade do cérebro com o modelo psicanalítico da mente, mesmo nos níveis mais profundos, uma compreensão verdadeiramente dinâmica pode emergir". Então esta parece ser a ideia: conectar, unir, aproximar neurociências e psicanálise.

O grande nome da neuropsicanálise, sem dúvida alguma, é o psicanalista e neuropsicólogo sul-africano Mark Solms, primeiro presidente da referida Sociedade e autor de uma considerável obra sobre o assunto - no Brasil, três livros dele já foram traduzidos e publicados: "Da neurologia à psicanálise", "O que é Neuro-psicanálise?",  e "Estudos clínicos em neuro-psicanálise" (estes dois últimos foram escritos em parceria com sua esposa Karen Kaplan-Solms). Segundo , Mark  começou a se interessar pela temática cerebral após seu irmão cair do telhado aos 6 anos de idade e sofrer um traumatismo craniano. Esta experiência demonstrou para ele a importância do cérebro na constituição do que somos. Após este acidente seu irmão não foi mais o mesmo, e nem sua família. "Tudo isso porque este órgão [o cérebro] não estava funcionando como antes", afirmou. Alguns anos depois, Mark iniciou e concluiu o curso de Psicologia, fez o mestrado em Psicologia Aplicada e o doutorado em Neuropsicologia. E paralelamente ao doutorado, realizado em Londres, fez a formação em Psicanálise. Seu percurso acadêmico evidencia, assim, um desejo de estudar e entender os dois campos e também de aproximá-los. Afinal, para Solms, psicanálise e neurociência são apenas dois pontos de vista sobre um mesmo objeto: o cérebro. Só que enquanto a psicanálise olha para o cérebro de dentro para fora a neurociência olha para o cérebro de fora para dentro. A ideia de uma neuropsicanálise passaria então justamente por aproximar e integrar estes dois pontos de vista.

À uma primeira vista, esta proposta de aproximar os dois campos parece interessante e mesmo pertinente - afinal, o que haveria de errado em tentar juntar dois pontos de vista antagônicos em prol de uma visão mais ampla do cérebro e da psiquê humana? Pode até ser. No entanto, alguns questionamentos se fazem necessários: será mesmo possível aproximar ou até mesmo fundir as duas visões? Conectar psicanálise e neurociências não será uma tarefa impossível como tentar unir as perspectivas políticas de esquerda e de direita ou teologias distintas como a budista e a católica? Mas para além da questão de se tal aproximação/união é possível, a grande questão na minha opinião é como isto seria possível. Na prática (e mesmo na teoria), como funcionaria a neuropsicanálise? Mark Solms não parece ter uma resposta muito convincente para esta questão. Segundo ele, as neurociências podem contribuir com a psicanálise ao fornecer os métodos científicos de investigação que esta não possui. Com isto algumas das teorias psicanalíticas poderiam ser testadas através de experimentos realizados por neurocientistas. Como afirmou em , "na psicanálise o problema é que ela é subjetiva demais. Não há controle científico. Não há objetividade. Não há teste de hipóteses. Não há forma de falsear hipóteses. Isso também é perigoso. Leva a especulação sem verificação. Trazendo os dois juntos corrige o que há de errado nos dois campos". Cabe apontar, que para Solms não só as neurociências poderiam hipoteticamente confirmar alguns pontos da teoria psicanalítica como já o teriam feito. Segundo ele, a existência de uma "cognição inconsciente", base da teoria psicanalítica, já teria sido comprovada pela neurociência contemporânea. Será mesmo? Não creio. Na minha visão e de outros autores, o inconsciente cerebral disseminado pelas neurociências contemporâneas não é igual ao inconsciente freudiano. Em comum, essas duas noções de inconsciente possuem apenas a ideia de que existem atividades mentais ou cerebrais que funcionam sem que tenhamos consciência. No entanto, o inconsciente disseminado por Freud é, nas palavras da historiadora e psicanalista , "um inconsciente psíquico, dinâmico e afetivo, organizado em diversas instâncias (o eu, o isso e o supereu)", ao passo que o inconsciente cerebral diz respeito, basicamente, aos mecanismos automáticos do funcionamento neural. Enfim, tratam-se de visões muito distintas - o que significa dizer que as neurociências não teriam como comprovar o inconsciente freudiano. Isto pra não falar do restante da teoria psicanalítica. Será mesmo que as neurociências teriam como comprovar ou refutar o Complexo de Édipo, os estágios de desenvolvimento psicossexuais, o funcionamento tripartite da mente ou ainda conceitos como recalque, catexia ou pulsão? Não creio. 

Como já disse em , psicanálise e neurociências são áreas muito diferentes e possuem objetivos e métodos muito distintos. Acreditar que as neurociências teriam a capacidade de confirmar ou refutar a teoria freudiana, além de colocar muita expectativa nesta área do conhecimento, ainda estabelece uma hierarquia entre as duas áreas - a neurociência, no caso, estaria no topo e seria ela a dar a última palavra sobre a psicanálise. E é esta ideia que leva o psicanalista a dizer que "a neuropsicanálise é um cavalo de Tróia que porta um projeto reducionista no ventre". Segundo ele, ao sugerir uma hierarquia entre os dois campos, Solms estaria supervalorizando uma visão biológica e, portanto, reducionista da mente. Outro problema desta "junção ecumênica", nas palavras de Forbes, é que ela tenta unir "paradigmas incompatíveis". Dizer nesse sentido que a psicanálise tem o mesmo objeto de estudos que as neurociências - o cérebro - não é correto. Embora a mente certamente esteja ligada ao cérebro - nem mesmo Freud negava isso - o ponto de vista da psicanálise é puramente mental ou psíquico. Mesmo que o conhecimento neurológico tenha sido importante em um período inicial da carreira de Freud, a psicanálise acabou por trilhar um caminho distinto e distante das ciências do cérebro - segundo Forbes, este "corte epistemológico" foi concretizado com a publicação do livro Interpretação dos sonhos, em 1900. E tudo isto significa que tentar juntar as duas áreas seria um desafio fadado ao fracasso - seguindo a ideia de "junção ecumênica", seria como tentar fundir ou integrar duas religiões muito diferentes entre si. Um meio termo, diferente da pretensão de juntar os dois conhecimentos, seria "simplesmente" colocar neurociências e psicanálise para dialogar. defendem, nesse sentido, que "para garantir a possibilidade e a integridade de uma cooperação entre as duas áreas, deve-se, antes de qualquer outro passo, definir uma relação de respeito mútuo entre a psicanálise e as neurociências". A grande questão é que para concretizar este objetivo de cooperação não seria necessário criar uma nova área de conhecimento. Se a proposta é o diálogo e não a fusão porque propor, então, algo como uma neuropsicanálise? Acho que isso nem Freud explica.

Sugestões de leitura:














Reproduzo abaixo, com a devida autorização do autor, uma didática e bem fundamentada exposição sobre o impacto de uma possível aprovação do projeto do Ato Médico na categoria dos psicólogos. Para quem não sabe, na última semana, o projeto foi aprovado no plenário do Senado Federal, necessitando agora, para ser instituído, apenas da sanção da presidenta Dilma. Escrito pelo psicólogo Daniel Grandinetti (que já contribuiu com este blog ), o texto expõe e discute em detalhes os principais pontos do projeto que afetariam diretamente o campo da Psicologia no Brasil. Para quem quiser ler outros textos do Daniel, que é psicólogo e mestre em filosofia, recomendo fortemente sua página no Facebook, a . Boa leitura e boas reflexões!

Vou tentar expor de forma didática como o “ato médico” interfere no exercício da profissão de psicólogo e nas competências legais do Conselho Federal de Psicologia.

A principal polêmica em torno do ‘ato médico’ gira em torno do Art. 4º - I que diz o seguinte:

“Art. 4º - São atividades privativas do médico:

I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica".


O § 1º define o diagnóstico nosológico:


“§ 1º Diagnóstico nosológico privativo do médico, para os efeitos desta Lei, restringe-se à determinação da doença que acomete o ser humano, aqui definida como interrupção, cessação ou distúrbio da função do corpo, sistema ou órgão, caracterizada por no mínimo 2 (dois) dos seguintes critérios:

I – agente etiológico reconhecido;

II – grupo identificável de sinais ou sintomas;

III – alterações anatômicas ou psicopatológicas.”

Enfim, § 3º estabelece que “doença” é tudo que aparece listado e classificado no CID-10:

“§ 3º As doenças, para os efeitos desta Lei, encontram-se referenciadas na décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde".

Em que isso interfere no exercício da profissão de psicólogo? O diagnóstico psicopatológico, incluindo a depressão e os transtornos de ansiedade, sempre esteve incluído na prática do diagnóstico psicológico. Com a aprovação do “ato médico”, tanto o diagnóstico quanto a prescrição terapêutica das enfermidades psicopatológicas passam a ser privativas de médico. Isso retira dos psicólogos, por exemplo, a autonomia para diagnosticar a depressão e tratá-la com psicoterapia. Somente o médico está agora legalmente habilitado para diagnosticar depressão e indicar o tratamento a ela.



O que vem gerando incerteza nessa interpretação é o § 2º, que diz o seguinte:


“§ 2º Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva.”



Nesse parágrafo, o “ato médico” expressa o reconhecimento do diagnóstico psicológico e a competência do psicólogo para realizá-lo. Esse parágrafo vem sendo usado, inclusive, por alguns psicólogos na defesa do “ato médico”, argumentando que ele preserva a profissão do psicólogo e não a invade em nada. Entretanto, a regulamentação da Psicologia não define, em momento algum, o que vem a ser o diagnóstico psicológico. A inclusão do diagnóstico psicopatológico no diagnóstico psicológico sempre foi prática, jamais sendo formalizada. O CFP não tomou o cuidado de definir em lei o diagnóstico psicológico, como muito bem fizeram os proponentes do “ato médico” em relação ao diagnóstico nosológico. Assim, uma vez que o diagnóstico nosológico é agora privativo de médicos, ele passa a ser automaticamente excluído do diagnóstico psicológico, não importando se a prática do psicólogo, desde sua regulamentação, sempre tenha feito do diagnóstico psicopatológico um item do diagnóstico psicológico.

Qual a sugestão do Conselho Federal de Psicologia à redação do “ato médico”? O CFP sugeriu que a redação do Art. 4º fosse modificada de: 

“São atividades privativas do médico:
I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica;”

Para:

“São atividades privativas do médico:
I – formulação do diagnóstico médico e respectiva prescrição terapêutica;”

O que mudaria com essa reformulação?

A avaliação de personalidade, por exemplo, não é privativa de psicólogos. O que é privativo de psicólogos é a avaliação de personalidade executada via testes psicológicos. A avaliação de personalidade executada por testes psicológicos constitui ‘diagnóstico psicológico’ e é privativa de psicólogos. Qualquer avaliação de personalidade executada por instrumentos ou procedimentos que não exijam a formação plena em Psicologia não é privativa de psicólogos. O CFP entende que o que deve ser privativo de médicos não é o diagnóstico de doenças, mas o diagnóstico de doenças executado por instrumentos e procedimentos médicos que exijam a plena formação no curso de Medicina. Qualquer diagnóstico executado por instrumentos e procedimentos não-médicos não deve ser privativo de médico.

Em suma, o que deve ser privativo de médicos é o uso do saber teórico e prático constituído pela Medicina e que faz necessária a formação completa em Medicina. Mas, ao invés de tornar o saber e a prática médicas privativos de médicos, o “ato médico” torna privativo de médicos as próprias doenças enquanto objeto de estudo. Segundo o “ato médico”, ninguém mais pode se pronunciar sobre ou exercer qualquer prática ligada a doenças além dos médicos, mesmo que os procedimentos utilizados não sejam médicos. Nesse sentido, um místico que oferecesse “curas espirituais” estaria sujeito, a partir de agora, a ser processado por exercício ilegal de Medicina. A primeira questão que eu coloco é a seguinte: Como uma pessoa que não se apresenta ao paciente como médico e que não faz uso de qualquer procedimento médico pode ser acusado de praticar a Medicina ilegalmente?

Voltando à relação com a Psicologia: Segundo o CFP, instrumentos e procedimentos psicológicos habilitam o profissional psicólogo no diagnóstico psicopatológico. Assim, na medida em que os psicólogos se utilizem apenas deles, eles estariam praticando o diagnóstico psicopatológico que consta como diagnóstico psicológico, não como diagnóstico médico. Mas, o CFM discorda que instrumentos e procedimentos psicológicos sejam procedentes para o diagnóstico psicopatológico. E ele tem todo o direito de discordar! Vivemos numa democracia, e todos têm o direito de criticar o que bem entender. Entretanto, a única entidade legalmente estabelecida para decidir sobre a procedência de procedimentos psicológicos é o CFP. Se o CFP afirma que procedimentos psicológicos são procedentes no diagnóstico psicopatológico, o CFM tem que acatar. Pode criticar e debater, mas precisa acatar.


Semelhantemente, a classe médica tem todo o direito de se posicionar contrariamente às curas espirituais ou alternativas. Mas, não tem o direito de transformá-las em exercício ilegal de Medicina, uma vez que não há nada nelas que configure algum procedimento médico lecionado nas faculdades de Medicina. É preciso que as práticas alternativas sejam debatidas e combatidas por meios democráticos, não pela imposição de uma lei incoerente.

Com o “ato médico”, a classe médica se outorgou o direito de avaliar procedimentos psicológicos e decretar sua improcedência. Ela pode argumentar que em momento algum o diagnóstico psicopatológico esteve legalmente incluído na definição de diagnóstico psicológico, e ela está certa nesse ponto. E justamente nesse ponto se faz perceber toda a MÁ-FÉ deste projeto de lei como um todo. Uma vez que o CFP não teve o cuidado de definir o diagnóstico psicológico na regulamentação da Psicologia, o CFM tomou para si o direito de lhe estabelecer os limites e as definições que bem entender.


Nesse sentido, pelo uso da má-fé jurídica, o CFM invadiu as competências legais do CFP.

Além de conferir aos médicos a exclusividade no diagnóstico psicopatológico e de sua respectiva prescrição terapêutica, o “ato médico” também pode coibir a pesquisa da Psicologia nessa área. O “ato médico” confere à classe médica a “propriedade privada” das doenças enquanto objeto de estudo. Consequentemente, psicólogos que desejarem desenvolver experimentos comportamentais sobre a depressão, por exemplo, precisarão ser supervisionados por médicos.

O projeto de lei do “ato médico” foi distorcido em seus propósitos desde o início. A razão da regulamentação de uma profissão é estabelecer os limites da atuação daquele profissional. A intenção do “ato médico” nunca foi a de estabelecer limites à atuação dos médicos, já que os médicos podem fazer tudo! Desde o início, a intenção do “ato médico” foi estabelecer limites à atuação dos outros, à atuação dos demais profissionais de saúde, e aí se funda toda a sua má-fé.















No dia 30 de Maio de 2013, o site The Atlantic publicou um ótimo texto, denominado , escrito pela psiquiatra Sally Satel, co-autora do magnífico livro Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience [Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência insensata]. Segue a tradução que fiz deste interessante artigo. 

Passando pelo recente anúncio da Iniciativa BRAIN pelo Presidente Obama até as imagens coloridas do cérebro expostas nas capas de revistas, a neurociência capturou a imaginação pública como nunca antes. 

Compreender o cérebro é, certamente, essencial para o desenvolvimento de tratamentos para doenças devastadoras como esquizofrenia e Parkinson. De forma mais abstrata, mas não menos fascinante, o funcionamento do cérebro está intimamente ligado ao nosso sentido de si, à nossa identidade, às nossas memórias e aspirações. Mas a excitação em investigar o cérebro gerou uma nova fixação que meu colega Scott Lilienfeld e eu chamamos de neurocentrismo - a visão de que o comportamento humano pode ser melhor explicado olhando somente ou principalmente para o cérebro.

Algumas vezes, o nível de explicação neural é apropriado. Quando os cientistas desenvolvem testes diagnósticos ou medicamentos para, digamos, a doença de Alzheimer, eles investigam as marcas desta condição: as placas amilóides que interrompem a comunicação entre os neurônios e os emaranhados neurofibrilares que os degradam.

Outras vezes, porém, uma explicação neural pode nos desnortear. No meu próprio campo da psiquiatria do dependência química, o neurocentrismo é ascendente - e não para melhor. Graças à forte promoção do Instituto Nacional de Abuso de Drogas [no original: National Institute on Drug Abuse], que faz parte dos Institutos Nacionais de Saúde, a dependência química foi rotulada como uma "doença cerebral".

A lógica para esta designação, como explicado pelo ex-diretor Alan I. Leshner, é que "a dependência química está relacionada a mudanças na estrutura e na função do cérebro". De fato, é verdade que o uso contínuo de drogas como a heroína, a cocaína e o álcool alteram os circuitos neurais que medeiam a experiência do prazer, assim como a motivação, a memória, a inibição e o planejamento - modificações que muitas vezes podemos ver nos exames cerebrais.

A questão crítica, porém, é saber se essa alteração neural prova que o comportamento do dependente é involuntário e que ele é incapaz de se auto-controlar - o que não ocorre.

Veja, por exemplo, o caso do ator Robert Downey, Jr., cujo nome já foi sinônimo "celebridade viciada". Ele disse: "É como se eu tivesse uma arma carregada em minha boca e meu dedo no gatilho, e eu gosto do sabor de metal". Downey passou por vários episódios de reabilitação e de recaída, mas finalmente decidiu, enquanto agonizava com sua "doença cerebral", mudar o rumo de sua vida.

O modelo neurocêntrico deixa a pessoa dependente (Downey, neste caso) nas sombras. No entanto, para tratar os dependentes e orientar as políticas, é importante entender como os dependentes pensam. É a mente dos dependentes que contêm as histórias de como a dependência acontece, porque eles continuam a usar a droga, e, se eles decidem parar, como eles se controlam. Tais respostas não podem ser obtidas a partir de um exame de seus cérebros, não importa quão sofisticada seja a investigação.

É natural que os avanços no conhecimento sobre o cérebro nos façam pensar de forma mais mecanicista sobre nós mesmos. Mas em um local, em particular - o tribunal - este viés pode ser uma receita de confusão. A defesa baseada no cérebro [no original: brain-based defense] ("Olhe para este escaneamento, Meritíssimo. O cérebro do meu cliente fez com que ele fizesse isso") tem sido uma estratégia comum usada pelas defensorias. O problema com tais afirmações é que, com raras exceções, os neurocientistas ainda não conseguem traduzir funções cerebrais anômalas para os requisitos legais de responsabilidade criminal - intenção, capacidade racional e autocontrole.

O que sabemos sobre muitos criminosos é que eles não se controlam. Isso é muito diferente de serem incapazes de se controlar. Até hoje, a ciência do cérebro não nos permite distinguir entre essas alternativas. Além do mais, mesmo cérebros de aparência anormal possuem donos que não são lá muito normais.

Olhando para o futuro, alguns neurocientistas preveem uma dramática transformação no direito penal. David Eagleman da Iniciativa de Neurociência e Direito da Faculdade de Medicina de Baylor, espera que "possamos descobrir um dia que muitos tipos de mau comportamento têm uma explicação biológica básica [e] eventualmente pensar sobre a má tomada de decisões da mesma maneira que pensamos sobre a diabetes ou doença pulmonar ". Mas essa é a conclusão correta a tirar da neurociência? Se todos os comportamentos problemáticos estão eventualmente ligados a correlatos da atividade cerebral, que podemos detectar e visualizar, será que podemos desculpá-los em função da teoria do não-me-culpe-culpe-meu-cérebro? Ninguém jamais será julgado responsável?

O modo de pensar de Eagleman é representativo daquilo que o professor de direito Stephen Morse chama de "erro psico-legal", nossa poderosa tentação de equiparar causa e desculpa. Morse observa que a lei desculpa o comportamento criminoso somente quando um fator causal produz um prejuízo tão severo que priva o réu de sua racionalidade. Os maus genes, os maus pais, ou mesmo as más estrelas não são uma desculpa.

Finalmente, quais são as implicações da ciência do cérebro para a moralidade? Embora geralmente pensemos em nós mesmos como agentes livres que fazem escolhas, vários estudiosos proeminentes afirmam que estamos equivocados. "Nosso crescente conhecimento sobre o cérebro faz com que as noções de volição, culpabilidade e, em última instância, a própria premissa do sistema de justiça criminal, sejam profundamente suspeitas", afirma o biólogo Robert Sapolsky.

Com certeza, todos concordam que as pessoas só podem ser responsabilizadas se tiverem liberdade de escolha. Mas, há um longo debate sobre o tipo de liberdade que é necessário. Alguns afirmam que podemos ser responsabilizados desde que possamos nos envolver em deliberação consciente, seguir regras e, em geral, nos controlar.

Outros, como Sapolsky, discordam, insistindo que nossas deliberações e decisões não nos tornam livres porque são ditados por circunstâncias neuronais. Dizem que quando chegarmos a entender o funcionamento mecânico dos nossos cérebros, seremos obrigados a adotar um modelo de justiça estritamente utilitarista, no qual os criminosos são "punidos" apenas como uma maneira de mudar seu comportamento, não porque eles realmente possuem culpa.

Embora esteja coberta de trajes neurocientíficos, essa questão de livre-arbítrio continua sendo um dos grandes impasses conceituais de todos os tempos, e está muito além da capacidade da ciência do cérebro de resolver. A não ser que os investigadores possam mostrar algo realmente espetacular: que as pessoas não são seres conscientes cujas ações fluem de suas razões e que respondem à razão. É verdade que não exercemos tanto controle consciente sobre nossas ações como pensamos que fazemos. Todo estudioso da mente, começando mais notavelmente com William James e Sigmund Freud, sabe disso. Mas isso não significa que somos impotentes.

Tem sido dito que o estudo do cérebro é a fronteira científica final. Será que vamos perder a mente de vista justo na era da neurociência? Enquanto os scans são deslumbrantes e a tecnologia uma maravilha sem precedentes, podemos sempre manter nossos rumos, lembrando que o cérebro e a mente são duas estruturas diferentes.

O domínio neurobiológico é o dos cérebros e das causas físicas, os mecanismos por trás de nossos pensamentos e emoções. O domínio psicológico, o domínio da mente, é o das pessoas - seus desejos, intenções, ideais e ansiedades. Ambos são essenciais para uma compreensão completa de por que agimos como agimos.






Esta música, do grupo (formado por usuários e funcionários do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro), faz parte da trilha sonora da novela Caminho das Índias que, com todas suas imperfeições e chatices, parece estar - pois não a acompanho - retratando de forma bastante interessante a jornada de um jovem (interpretado pelo ator Bruno Gagliasso) que desenvolve um quadro de . Só assim para fazer a população refletir sobre o assunto! No I Congresso Brasileiro de Saúde Mental, que ocorreu em Dezembro do ano passado em Florianópolis e no qual estive presente, teve uma apresentação deste grupo e, sinceramente, fiquei embasbacado com a qualidade das músicas, a sonoridade do conjunto e a animação e energia do vocalista. Vida longa ao Harmonia Enlouquece!!!







No livro A infância de Jesus, escrito pelo sul-africano JM Coetzee (ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 2003), um homem chega com um menino, que não é seu filho, em uma terra de exilados situada em um país desconhecido. Neste lugar, para estranheza do protagonista, todos estão plenamente satisfeitos com suas vidas. Ninguém reclama de comer a mesma comida todos os dias, de trabalhar de sol a sol e receber pouco ou de se sentir sozinho. Em certo momento, indignado com esta satisfação permanente das pessoas, o protagonista questiona: "Sabe o que surpreende nesse país? Que seja tão manso. Todo mundo que eu encontro é tão bom, tão gentil, tão bem-intencionado. Ninguém xinga, ninguém fica bravo. Ninguém fica bêbado. Ninguém levanta a voz. Vivem num regime de pão, água e pasta de feijão e dizem que estão satisfeitos. Como pode ser, humanamente falando? Vocês estão mentindo até para si mesmos?". O tempo vai passando mas sua indignação não cessa. Ele passa a se envolver com uma mulher, mas esta não demonstra qualquer paixão por ele. Mesmo quando fazem sexo, ela não se afeta. Um dia, então, buscando alguma reação calorosa dela, ele pergunta o que ela faria se ele começasse a sair com outra mulher. A resposta dela é simplesmente genial: "Você quer sair com essa outra mulher porque eu não ofereço o que você sente que precisa, especificamente paixão tormentosa. A amizade em si não basta para você. Sem o acompanhamento de paixão tormentosa é um tanto deficiente. Aos meus ouvidos, essa é uma maneira velha de pensar. Na maneira de pensar velha, por mais que você tenha, sempre está faltando alguma coisa. O nome que você escolhe dar a esse algo mais que está faltando é paixão. Mas eu aposto que se amanhã te oferecerem toda a paixão que você quer, carradas de paixão, você logo vai achar que está faltando alguma coisa nova. Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo mais que está faltando, é o jeito de pensar que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião. Não está faltando nada". Fiquei pensando: o desejo permanente e incessante é realmente causa de grande sofrimento no ser humano. Mas teremos como evitá-lo? Não creio. Talvez estejamos fadados a desejar sempre mais e mais e, consequentemente, ao sofrimento decorrente do desejo nunca saciado. Se um dia inventarem um remédio que faz cessar todo desejo, provavelmente sofreríamos menos. Mas a vida e o mundo seriam um tédio só, como Coetzee sugere com grande maestria!



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Gostaria agora de indicar uma série de livros, todos publicados no Brasil (alguns esgotados na editora, infelizmente, mas disponíveis em sebos virtuais), que qualquer pessoa que se interesse em compreender o funcionamento da memória humana pode buscar para ampliar seu conhecimento sobre o assunto. Certamente, todos os anos são lançados inúmeros livros sobre o tema, em especial manuais de auto-ajuda que prometem "potencializar sua memória", no entanto, a grande maioria desses livros é simplesmente lixo ou "mais do mesmo" e raramente trazem discussões aprofundadas e consistentes sobre a psicologia e a neurobiologia da memória. Já os livros abaixo certamente trazem importantes contribuições para o entendimento deste complexo e multifacetado tema. 1-  Memória (Coleção L&PM Pocket Encyclopaedia) - L&PM, 2011.Este pequeno livro lançado pela editora L&PM em 2011 é uma ótima introdução ao tema, talvez a melhor disponível no Brasil. Escrito pelo pesquisador Jonathan K. Foster, que é também professor de neuropsicologia clínica e neurociência comportamental na Universidade de Curtin, na Austrália, esta tradução do livro Memory: a very short introduction passa pelas principais questões relacionadas ao tema, como os diferentes tipos de memória, suas bases neurobiológicas, as imprecisões e os distúrbios mnemônicos, etc. Trata-se de uma pequena mas consistente obra, extremamente indicada para aqueles que pretendem iniciar neste tema.2- Psicologia cognitiva - Artmed, 2016. Escrito pelo psicólogo Robert Sternberg em parceria com sua esposa, a também psicóloga Karin Sternberg, este manual básico sobre a área da psicologia cognitiva é um ótimo material para quem pretende entender de uma forma um pouco mais aprofundada o funcionamento da memória humana, tema que livro dedica dois capítulos. Importante destacar que estes capítulos se focam na psicologia da memória e não tanto na neurobiologia da memória. Portanto, caso seu interesse seja entender as bases cerebrais da memória existem outros livros mais adequados, como "Em busca da memória" e "Presente permanente", que apresentarei brevemente abaixo. 3- Em busca da memória - Companhia das Letras, 2009.Este livro clássico, infelizmente esgotado no Brasil e disponível apenas por valores altíssimos em sebos virtuais, foi escrito pelo neurocientista, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina, Eric Kandel. Trata-se de uma obra fundamental para todo e qualquer estudioso da memória. Em um calhamaço de mais de 500 páginas, Kandel nos conta sua trajetória pessoal e acadêmica ao mesmo tempo em que descreve as pesquisas sobre o funcionamento cerebral realizadas ao longo dos séculos XIX e XX. Em especial ele narra em detalhes a evolução de sua pesquisa com o molusco Aplysia californica, que revolucionou os estudos cerebrais sobre a memória.OBS: há um interessante documentário baseado neste livro, disponível legendado aqui.4- A arte e ciência de memorizar tudo - Nova Fronteira, 2011.Neste maravilhoso livro lançado em 2011 no Brasil - e infelizmente esgotado - o jornalista Joshua Foer traz um ensaio autobiográfico delicioso sobre o funcionamento da memória. Seu bizarro título original, Moonwalking with Einstein [Dançando Moonwalk com Einstein], acabou por ser ignorado pelos editores brasileiros, que optaram por transformar o subtítulo em título. Na resenha do livro que publiquei no ano de seu lançamento eu apontei: "o mais interessante do livro é que o relato de sua jornada é entrecortado por explicações sobre o funcionamento da memória, entrevistas com pessoas com memórias excepcionais e com amnésias severas, discussões históricas sobre o tema, além de algumas técnicas para melhorar a memória".OBS: assista aqui uma interessante palestra, legendada, do autor deste livro. 5- Os sete pecados da memória - Rocco, 2003.Escrito por Daniel Schacter, professor e pesquisador na Universidade de Harvard - e uma das maiores autoridades do mundo no estudo da memória - este livro trata das falhas "normais" da nossa memória, isto é, daquelas falhas não-patológicas que acometem todas as pessoas. Schacter aponta para sete falhas ou transgressões, que ele denomina ironicamente de "pecados": a transitoriedade, a distração, o bloqueio, a atribuição errada, a sugestionabilidade, a distorção e a persistência - neste post é possível encontrar uma breve definição de cada um destes pecados. Enfim, neste livro excepcional, o pesquisador analisa em detalhes as principais falhas de nossa memória apontando ainda para a importância fundamental do esquecimento. 6/7- O gorila invisível - Rocco, 2011/ O Rio da consciência - Companhia das Letras, 2018.No sensacional livro O gorila invisível, lançado em 2011 no Brasil, os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons analisam diversos "equívocos da intuição", dentre eles, no segundo capítulo, a chamada "ilusão da memória" - que não coincidentemente, é o título de um post que publiquei em 2017. De uma forma resumida é possível dizer que o segundo capítulo deste livro, denominado "O técnico que esganou", trata da questão das falsas memórias, mesmo tema, aliás, de um ótimo ensaio de Oliver Sacks, "A falibilidade da memória", publicado postumamente no livro O Rio da consciência. Estes dois ensaios tratam com brilhantismo da natureza construtiva das nossas memórias.8- Presente permanente - Record, 2018.Lançado no início de 2018 no Brasil, este livro - talvez o grande lançamento do campo das neurociências este ano no país - foi escrito pela renomada neurocientista Suzanne Corkin, falecida em 2016. Nesta obra de peso, Corkin faz uma narrativa completa e profunda dos mais de 50 anos de pesquisa com o paciente H.M. - que após sua morte, em 2008, descobrimos se chamar Henry Molaison. Se você já leu algum livro sobre o funcionamento da memória é muito provável que ele tenha mencionado H.M., um sujeito epilético que aos 27 anos de idade foi submetido a uma neurocirurgia que lhe retirou o hipocampo, dentre outras partes de seu cérebro, e que, desde então, nunca mais conseguiu formar novas memórias - vivendo, desde 1953, em um "presente permanente". Em seu maravilhoso livro, Corkin relata a fundamental importância das pesquisas com Henry para o avanço da compreensão científica sobre o funcionamento das nossas memórias. Afirma Corkin sobre Henry: "sua tragédia tornou-se um presente para a humanidade. Ironicamente, ele nunca será esquecido". 9/10- A mente e a memória/ O homem que confundiu sua mulher com um chapéu Cada um destes dois livros traz um relato de caso de certa forma oposto ao outro. No primeiro, um clássico do neuropsicólogo russo Alexander Luria, publicado em 1968 com o título original de The mind of a mnemonist [A mente de um mnemonista], encontramos um relato incrivelmente detalhado de um sujeito, chamado por Luria simplesmente de S., que possuia uma memória infalível e ilimitada. Importante destacar que Luria possui um outro livro de relato, denominado O homem com o mundo estilhaçado, que apresenta um sujeito que, na contramão de S. teve um severo comprometimento cognitivo, inclusive mnemônico, em função de uma lesão de guerra. Já o segundo livro, um clássico do neurologista Oliver Sacks publicado originalmente em 1985, somos apresentados, no segundo capítulo, ao caso do "Marinheiro perdido", um sujeito que devido à Síndrome de Korsakov desenvolveu uma severa amnésia que, tal qual H.M., o impediu de formar novas memórias. Todos estes casos ilustram com brilhantismo o funcionamento normal e anormal da memória. OBS: O ensaio "O marinheiro perdido" inspirou um belo curta-metragem de animação. Veja aqui.Humor Psi: A Psicobotânica Segue o segundo texto escrito por mim em 2007 para o Jornal do Centro Acadêmico.Apresento-lhes a mais nova área da Psicologia: a Psicologia Botânica. O que até bem pouco tempo estava restrito a um pequeno número de jovens pesquisadores agora se espalhou pelo mundo. A Sociedade Botânica do Brasil (SBB) juntamente com a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), fundaram, numa parceria inédita, a Sociedade Brasileira de Psicologia Botânica (SBPB). E já estão organizando o primeiro periódico sobre o tema. Especulam-se que chamar-se-á Journal of Botanical Psychology, atendendo às inúmeras demandas internacionais.Isto para não falar do I Congresso Latinoamericano de Psicologia Botânica, marcado para Dezembro. Nele serão apresentados os resultados dos últimos estudos e pesquisas realizados no Brasil e no mundo. Além disso, serão lançados inúmeros livros, dentre eles, “A Psicologia Botânica, Freud e a Pós-modernidade” (Ed. Imago), “A fruta como sintoma” (Ed. Casa do Psicólogo), “O caule fala” (Ed. Vozes), "Vencendo a adubofobia" (Ed. Artmed) e os mais aguardados “Plantas: Quem ama educa” e “O que toda planta inteligente deve saber” (Ed. Sextante), ambos do prestigiado autor Içami Tiba.Por todo o país, teses de mestrado e doutorado tem sido escritas sobre o tema, a partir de inúmeras abordagens. Por exemplo, a tese de mestrado “O feminino e a Psicanálise Botânica – Um estudo de caso” analisa o caso de uma samambaia, chorona e histérica que, com todo o corpo paralisado, passou por cinco anos de análise e agora compreende que não pode querer ser outra coisa além do que se é. Continua paralisada, porém feliz. Já a tese de Doutorado “Para-psicobotânica – Análise de uma planta sensitiva”, analisa o comportamento de uma Mimosa pudica, espécie de vegetal que fecha seus folíolos ao mínimo toque. Conclui, após complexas teorizações, que tudo o que se move é animal e que todo animal possui alma. Desta forma, todas as plantas são seres animais e espirituais. O Greenpeace foi além e lançou à campanha “Planta também é gente! Você comeria um parente?”. E a coisa segue por aí... É o eterno retorno. Começa como  psicologia e termina como histeria...Fonte: www.psicobotanica.com Update (25/11/2012): Àqueles que ainda duvidam que plantas tem sentimentos e sofrem, recomendo o video abaixo, que reproduz um clássico experimento de Psicobotânica, intitulado "O grito da cenoura".Simpósio em BH Não devo postar nos próximos 3 ou 4 dias porque estarei em Belo Horizonte participando do I Simpósio de História da Formação em Psicologia e VII Encontro da Rede Interinstitucional de Pesquisadores da História da Psicologia, que acontece de amanhã (2/4) até sábado (4/4) na PUC Minas - Campus Coração Eucarístico. Vou realizar amanhã à tarde - de 14:00 às 15:30 - uma apresentação oral intitulada "Formação inicial em Psicologia no Brasil: passado e presente", baseada no meu trabalho de conclusão de curso (o artigo "Formação em Psicologia no Brasil: um perfil dos cursos de graduação", orientado pelo Prof. Altemir José Gonçalves Barbosa, pessoa maravilhosa e excelente professor e orientador) que será publicado este ano na revista Psicologia: Ciência e Profissão. Foi uma longa jornada até a aprovação final do artigo pelos pareceristas da revista: comecei a escrevê-lo em agosto de 2007, finalizei-o para a banca examinadora em dezembro do mesmo ano, revisei-o para publicação até junho de 2008, quando enviei-o à revista; somente em janeiro deste ano recebi a resposta: um parecer favorável mas com indicação de algumas modificações. Como fazia muito tempo que não estudava sobre o tema, recorri ao Altemir que fez as alterações necessárias (valeu, Altemir!) e enviou de volta à revista em fevereiro; em março finalmente veio o parecer final: APROVADO!!! UFA!!! Assim que for publicado, indico o link para os interessados poderem ler. E com relação ao evento, parece que vai ser ótimo. A programação está espetacular! Fica o convite... Lançamento da Casa do Psicólogo Comprei durante o II Seminário Internacional de Habilidades Sociais (muito bom, por sinal!) um livro espetacular, intitulado Como falhar na relação? Os 50 erros que os terapeutas mais cometem (de Bernanrd Schwartz e John V. Flowers, Casa do Psicólogo, 2009). Ainda estou na primeira parte mas já me encantei com a proposta dos autores, bem como com a inventiva e cuidadosa diagramação da editora. O título dos capítulos é muito ilustrativo:I Como errar antes mesmo de começar a terapia II Como fazer avaliações incompletas III Como ignorar a ciência IV Como evitar a colaboração do cliente V Como destruir o relacionamento terapeuta-paciente VI Como estabelecer limites incorretos entre o terapeuta e o cliente VII Como fazer com que o paciente não se envolva no cumprimento das metas VIII Como piorar atitudes que já são ruins IX Como evitar o confronto com os pacientes X Como fazer com que os clientes recusem o uso de remédios XI Como não encerrar uma terapia XII Como chegar ao desgaste total do terapeuta XIII Considerações finais: a capacidade humana de recuperaçãoPrefaciado pelo famoso psicólogo Arnold Lazarus, este livro utiliza a abordagem cognitivo-comportamental como base para seus apontamentos, mas como afirma a editora Chistiane Gradvohl Colas na Apresentação à edição brasileira “o leitor atento, porém, perceberá que os erros descritos pelos autores e as soluções sugeridas aplicam-se a qualquer situação de terapia, transcendendo sua base teórica”. Este é, na verdade, o grande diferencial deste livro: tratar do dia-a-dia da pratica psicoterapia independente da abordagem teórica seguida pelo terapeuta. Existem muitos livros sobre a teoria das psicoterapias, mas muito poucos exploram a prática, o dia-a-dia, o cotidiano, enfim, a vida real e a complexidade da prática psicoterápica. Lembro-me, agora, de três: Os desafios da terapia – Reflexões para pacientes e terapeutas (de Irvin Yalom, Ediouro, 2006), Cartas a um jovem terapeuta – Reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos (de Contardo Caligaris, Elsevier, 2004) e Entrevista de Ajuda (de Alfred Benjamim, Martins Fontes, 1978). Já ouvi falar também de um chamado Ser Terapeuta, mas ainda não o li. De qualquer forma, este lançamento da Casa do Psicólogo preenche um vazio na literatura brasileira no que se refere ao real – e não ao ideal – do cotidiano de um psicoterapeuta. Fica a dica!OBS: algumas partes do livro estão disponíveis no Google Books: clique aqui para ver.I can't get no satisfaction Como diz a Bíblia... Sexta-Feira passada (dia 10 de Abril) assisti no GNT um documentário fascinante, vencedor de inúmeros prêmios, intitulado For the Bible tells me so (traduzido pelo GNT como "Porque a Biblia me diz assim", mas também encontrado na internet com os nomes de "Como diz a Bíblia" e "Assim diz a Bíblia"). O filme discute a sempre tensa relação entre a Igreja Católica (com suas interpretações literais da Bíblia) e a homossexualidade. De acordo com o interessante site Diversidade Católica: "O filme conta com o depoimento de vários teólogos, pastores, do bispo anglicano Desmond Tutu, além de um rabino. Por meio destas participações se põe em questão o que realmente as passagens da Sagrada Escritura que se referem à relação entre pessoas do mesmo sexo querem dizer e se é justo, para com o sentido original do texto, usá-las como prerrogativa de condenação absoluta ao inferno para gays e lésbicas. A interpretação literal do texto bíblico é desconstruída gradativamente na medida em que se contextualiza a situação cultural, a mentalidade presente na época retratada pelos textos. Numa linguagem fácil, os diversos depoimentos vão nos fazendo perceber que assim, como a Bíblia foi, e às vezes, ainda é, usada para justificar uma submissão ideológica das mulheres em relação aos homens e a discriminação racial, hoje, o alvo dos fundamentalistas bíblicos são os homossexuais" (O restante desde texto pode ser lido aqui). O argumento central deste brilhante documentário - que deveria ser passado nas escolas, universidades e empresas - pode ser resumido nesta cena da série The West Wing: Assista ao documentário na íntegra aqui.Psicoterapeutas no cinema Descobri na bibliografia do livro comentado no post anterior (Como falhar na relação?) um outro livro, do mesmo autor (John Flowers), junto com Paul Frizler, intitulado "Psychotherapists on film, 1899-1999", uma coletânea de ensaios sobre como os psicoterapeutas foram retratados em mais de 5000 filmes (isso mesmo: cinco mil!). Um trecho: "Recente pesquisa apurou que na última década, psicólogos foram retratados em cerca de 1500 filmes. Infelizmente, apenas 20% desses filmes apresentavam profissionais clínicos competentes, eficazes ou éticos. Os terapeutas costumam aparecer como causadores de males (O silêncio dos inocentes); histéricos e sem ética (Desconstruindo Harry); ou simplesmente incompetentes (Maquina Mortífera I, II, III e IV)" (Flowers e Frizler, 2004)Psicologia e Tortura: uma perigosa relação A Psicologia esteve e ainda está em grande evidência nos Estados Unidos nas últimas semanas. O motivo, infelizmente, não é nada positivo ou nobre. Tudo começou em 2014 quando o jornalista do New York Times James Risen publicou o livro "Pay Any Price: Greed, Power, and Endless War" [Pagando qualquer preço: ganância, poder e uma guerra sem fim], no qual acusava a Associação Psicológica Americana (American Psychological Association/APA), principal entidade representativa dos psicólogos norte-americanos, de contribuir com a tortura de prisioneiros políticos durante o governo Bush. Na época, a APA negou tal acusação, publicando uma nota explicativa em seu site. No entanto, a diretoria executiva da associação encomendou uma investigação independente para averiguar possíveis ligações de seus diretores e associados (cerca de 130 mil) com políticas e práticas de tortura - o que é proibido pelo código de ética da APA. Cabe ressaltar que tal proibição foi "flexibilizada" em 2005, quando a associação permitiu que psicólogos atuassem como "consultores" em interrogatórios, ou melhor, em "processos de coleta de informações relacionados com a segurança nacional". A investigação, conduzida pelo promotor David Hoffman, foi concluída este mês com a publicação de um relatório de 542 páginas, que já vem sendo chamado de "Relatório Hoffman", cuja conclusão vai de encontro às expectativas da APA. De fato, o que o relatório expõe é que tanto dirigentes da APA (com destaque para o diretor do Departamento de Ética da entidade, Stephen Behnke) quanto diversos associados trabalharam ativamente junto a funcionários do Departamento de Defesa (DoD), do Pentágono e da CIA com o objetivo de legitimar ou facilitar a tortura de detidos políticos durante o governo Bush. Esta "facilitação" teria envolvido tanto a emissão de orientações éticas que endossaram a política de interrogatórios elaborada pelo DoD quanto a participação direta de psicólogos em "interrogatórios severos" (leia-se: tortura) na Baia de Guantânamo, em Abu-Ghrabi e em outros lugares. Como aponta o relatório, as agências do Governo "queriam, alegadamente, diretrizes de ética permissivas, para que os seus psicólogos pudessem continuar a participar em técnicas de interrogatório severas e abusivas, usadas por estas agências depois dos ataques de 11 de setembro". O documento aponta também que "o principal motivo da APA para agir desta maneira foi garantir favores do departamento de Defesa. Mas houve outros dois importantes motivos: criar uma boa resposta de relações públicas e manter o ilimitado crescimento da psicologia nesse âmbito". É interessante constatar, neste sentido, que, como aponta esta reportagem, cerca de 7% dos psicólogos associados à APA - ou seja, quase 10 mil profissionais - trabalham para o Departamento de Defesa dos EUA seja como clínicos, no atendimento aos veteranos de guerra, seja como investigadores - e mesmo interrogadores. Em resposta a este relatório, a APA afirmou que irá rever as suas políticas e proibiu seus psicológicos de participarem diretamente em interrogatórios. Além disso destituiu diversos diretores, dentre eles Stephen Behnke, considerado o “chefe” da conspiração entre a APA, o Pentágono e a CIA. Outros foram aposentados compulsoriamente, como o diretor executivo da APA, Norman Anderson, o subdiretor executivo, Michael Honaker e a chefe de comunicações, Rhea Farberman. A psicóloga e ex-presidente da APA, Nadine Kaslow, que coordenou a comissão investigadora independente, afirmou ainda: "O propósito da organização não foi permitir que fossem aplicados métodos abusivos de interrogatórios ou contribuir para violar os direitos humanos, mas estes foram os resultados". E emendou: "Lamentamos profundamente, e pedimos perdão pela conduta e as consequências que teve". Importante salientar que não é de hoje que psicólogos - teoricamente profissionais dedicados à saúde e ao bem-estar da população - se envolvem em atividades escusas e imorais. No livro Ministério do Silêncio, o jornalista Lucas Figueiredo, aponta que muitos psicólogos brasileiros contribuíram, durante a ditadura militar brasileira, no treinamento de agentes do Sistema Brasileiro de Inteligência (SNI, hoje Abin) que espionavam e entregavam indivíduos supostamente subversivos para o DOI-CODI (órgão repressor do exército). Muitos destes corajosos rebeldes foram torturados e vários mortos. E nós demos a nossa contribuição para isso... E é triste constatar que ainda hoje, diversos psicólogos (e pior: a própria associação dos psicólogos!) estejam envolvidos em atividades escusas como essas. Espero que este escândalo envolvendo a APA contribua para o afastamento definitivo dos psicólogos de tais atividades e também para que o conhecimento psicológico seja utilizado para ajudar e nunca para prejudicar ou torturar qualquer ser humano.A bizarra legislação pernambucana Reproduzo abaixo, integralmente, uma das notícias mais bizarras que já me deparei na internet. Ela foi publicada no espetacular blog “sobre ciência e pensamento crítico” Dragão da Garagem, comandado pelos engenheiros Widson Porto reis e Alexandre Taschetto. Paranormal também é gente A constituição do estado de Pernambuco é uma das mais avançadas do mundo. É a única no planeta a prever assistência social obrigatória aos necessitados de todo o tipo que se possa imaginar: inválidos, menores abandonados, idosos desamparados e paranormais. Sim, eu disse paranormais.Está lá, nos artigos 174 e 175:Art. 174 - O Estado e os Municípios, diretamente ou através do auxilio de entidades privadas de caráter Assistencial, regularmente constituídas, em funcionamento e sem fins lucrativos, prestarão Assistência aos necessitados, ao menor abandonado ou desvalido, ao superdotado, ao paranormal e a velhice desamparada. § 1º - Os auxílios as entidades referidas no caput deste artigo somente serão concedidos após a verificação, pelo órgão técnico competente do Poder Executivo, da idoneidade da instituição, da sua capacidade de Assistência e das necessidades dos assistidos. § 2º - Nenhum auxilio será entregue sem a verificação prevista no Parágrafo anterior e, no caso de subvenção, será suspenso o pagamento, se o Tribunal de Contas do Estado não aprovar as aplicações precedentes ou se o órgão técnico competente verificar que não foram aténdidas as necessidades Assistenciais mínimas exigidas. Art. 175 - A Assistência social será prestada, tendo por finalidade:I - a proteção e amparo a Família, a matérnidade, a infância, a adolescência e a velhice;II - a promoção da integração ao mercado de trabalho; III - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiências e sua integração na sociedade;IV - a garantia, as pessoas portadoras de deficiência visual, da gratuidade nos transportes coletivos urbanos;V - executar, com a participação de entidades representativas da sociedade, ações de prevenção, tratamento e reabilitação de deficiências físicas, mentais e sensoriais.Ou seja, se você está em Pernambuco e vê gente morta, lê pensamentos, entorta colheres, prevê o futuro usando borra de café, consegue levitar, tem visão de raios-x etc., pode contar com assistência social gratuita do estado. Difícil é descobrir o que o estado pernambucano pode fazer por você, já que um paranormal não carece de nenhuma das assistências definidas no artigo 175, nem mesmo a integração ao mercado de trabalho de que fala o item II; os que se dizem paranormais no Brasil precisam no máximo de empresários, não de oportunidade para ganhar dinheiro. Ainda bem. Seria mesmo engraçado garantir a gratuidade nos ônibus municipais para ciganas e Pais de Santo.Diferentemente do que dizem vários sites espíritas e de parapsicologia por aí, o texto da lei não menciona a necessidade de nenhuma comprovação da alegada paranormalidade, apenas fiscaliza as entidades que oferecem, com dinheiro do governo, assistência aos paranormais. Ou seja, uma ONG em defesa dos direitos dos paranormais parece ser um bom negócio em Pernambuco, uma vez que conta com recursos garantidos por lei e pouca certeza sobre quem é merecedor dos recursos públicos. Não me espantaria se Pernambuco fosse o estado com o maior número de médiuns per capita do país.A despeito da imensa, e mundialmente inédita, preocupação social do governo pernambucano, fica a pergunta: por quê um paranormal se candidataria à precária assistência pública brasileira se pode faturar a bagatela de 1 milhão de dólares no Desafio Paranormal da Fundação Educacional James Randi? Eu juro que não acreditei quando li, mas foi só entrar no site do Governo de Pernambuco para meu queixo cair novamente no chão. É verdade, companheiros! Só tenho uma coisa a "dizer"...Como assim "neuropsicanálise"? Em um post anterior, discuti criticamente a polêmica frase do neurocientista Ivan Izquierdo de que a neurociência teria superado a psicanálise. Meu argumento, em síntese, foi de que isto nunca poderia acontecer pois se tratam de áreas muito diferentes entre si. Em outro post analisei a relação de Freud com a neurologia, concluindo que Freud de fato nunca abandonou a biologia. O que ele fez, em função de restrições técnicas e metodológicas, foi se afastar de uma perspectiva neurológica em direção a um entendimento puramente (ou majoritariamente) psíquico da mente humana. Gostaria agora de discutir a emergência da neuropsicanálise, novo campo que pretende fazer dialogar - e quem sabe até, fundir - neurociências e psicanálise. Embora não seja fácil apontar uma "data de nascimento" precisa, é possível dizer que a neuropsicanálise emergiu entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Um marco, nesse sentido, foi a criação da revista científica Neuropsychoanalysis, cujo primeiro número foi publicado em 1999 - e que possuía em seu conselho editorial neurocientistas célebres como Antônio Damásio, Oliver Sacks e o "prêmio Nobel" Eric Kandel assim como psicanalistas conceituados como André Green, Otto Kernberg e Charles Brenner. Pouco tempo depois, em Julho de 2000, foi realizado em Londres o I Congresso Internacional de Neuropsicanálise, ocasião em que foi fundada a Sociedade Internacional de Neuropsicanálise, definida pelo site oficial como uma "rede internacional de organizações sem fins lucrativos" que visa criar um diálogo entre as neurociências e a psicanálise. Também de acordo com o site, a neuropsicanálise "está interessada nas bases neurobiológicas de como agimos, pensamos e sentimos. Quando começamos a conectar a atividade do cérebro com o modelo psicanalítico da mente, mesmo nos níveis mais profundos, uma compreensão verdadeiramente dinâmica pode emergir". Então esta parece ser a ideia: conectar, unir, aproximar neurociências e psicanálise.O grande nome da neuropsicanálise, sem dúvida alguma, é o psicanalista e neuropsicólogo sul-africano Mark Solms, primeiro presidente da referida Sociedade e autor de uma considerável obra sobre o assunto - no Brasil, três livros dele já foram traduzidos e publicados: "Da neurologia à psicanálise", "O que é Neuro-psicanálise?",  e "Estudos clínicos em neuro-psicanálise" (estes dois últimos foram escritos em parceria com sua esposa Karen Kaplan-Solms). Segundo esta reportagem da revista The atlantic, Mark  começou a se interessar pela temática cerebral após seu irmão cair do telhado aos 6 anos de idade e sofrer um traumatismo craniano. Esta experiência demonstrou para ele a importância do cérebro na constituição do que somos. Após este acidente seu irmão não foi mais o mesmo, e nem sua família. "Tudo isso porque este órgão [o cérebro] não estava funcionando como antes", afirmou. Alguns anos depois, Mark iniciou e concluiu o curso de Psicologia, fez o mestrado em Psicologia Aplicada e o doutorado em Neuropsicologia. E paralelamente ao doutorado, realizado em Londres, fez a formação em Psicanálise. Seu percurso acadêmico evidencia, assim, um desejo de estudar e entender os dois campos e também de aproximá-los. Afinal, para Solms, psicanálise e neurociência são apenas dois pontos de vista sobre um mesmo objeto: o cérebro. Só que enquanto a psicanálise olha para o cérebro de dentro para fora a neurociência olha para o cérebro de fora para dentro. A ideia de uma neuropsicanálise passaria então justamente por aproximar e integrar estes dois pontos de vista.À uma primeira vista, esta proposta de aproximar os dois campos parece interessante e mesmo pertinente - afinal, o que haveria de errado em tentar juntar dois pontos de vista antagônicos em prol de uma visão mais ampla do cérebro e da psiquê humana? Pode até ser. No entanto, alguns questionamentos se fazem necessários: será mesmo possível aproximar ou até mesmo fundir as duas visões? Conectar psicanálise e neurociências não será uma tarefa impossível como tentar unir as perspectivas políticas de esquerda e de direita ou teologias distintas como a budista e a católica? Mas para além da questão de se tal aproximação/união é possível, a grande questão na minha opinião é como isto seria possível. Na prática (e mesmo na teoria), como funcionaria a neuropsicanálise? Mark Solms não parece ter uma resposta muito convincente para esta questão. Segundo ele, as neurociências podem contribuir com a psicanálise ao fornecer os métodos científicos de investigação que esta não possui. Com isto algumas das teorias psicanalíticas poderiam ser testadas através de experimentos realizados por neurocientistas. Como afirmou em uma entrevista, "na psicanálise o problema é que ela é subjetiva demais. Não há controle científico. Não há objetividade. Não há teste de hipóteses. Não há forma de falsear hipóteses. Isso também é perigoso. Leva a especulação sem verificação. Trazendo os dois juntos corrige o que há de errado nos dois campos". Cabe apontar, que para Solms não só as neurociências poderiam hipoteticamente confirmar alguns pontos da teoria psicanalítica como já o teriam feito. Segundo ele, a existência de uma "cognição inconsciente", base da teoria psicanalítica, já teria sido comprovada pela neurociência contemporânea. Será mesmo? Não creio. Na minha visão e de outros autores, o inconsciente cerebral disseminado pelas neurociências contemporâneas não é igual ao inconsciente freudiano. Em comum, essas duas noções de inconsciente possuem apenas a ideia de que existem atividades mentais ou cerebrais que funcionam sem que tenhamos consciência. No entanto, o inconsciente disseminado por Freud é, nas palavras da historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, "um inconsciente psíquico, dinâmico e afetivo, organizado em diversas instâncias (o eu, o isso e o supereu)", ao passo que o inconsciente cerebral diz respeito, basicamente, aos mecanismos automáticos do funcionamento neural. Enfim, tratam-se de visões muito distintas - o que significa dizer que as neurociências não teriam como comprovar o inconsciente freudiano. Isto pra não falar do restante da teoria psicanalítica. Será mesmo que as neurociências teriam como comprovar ou refutar o Complexo de Édipo, os estágios de desenvolvimento psicossexuais, o funcionamento tripartite da mente ou ainda conceitos como recalque, catexia ou pulsão? Não creio. Como já disse em outro post, psicanálise e neurociências são áreas muito diferentes e possuem objetivos e métodos muito distintos. Acreditar que as neurociências teriam a capacidade de confirmar ou refutar a teoria freudiana, além de colocar muita expectativa nesta área do conhecimento, ainda estabelece uma hierarquia entre as duas áreas - a neurociência, no caso, estaria no topo e seria ela a dar a última palavra sobre a psicanálise. E é esta ideia que leva o psicanalista Jorge Forbes a dizer que "a neuropsicanálise é um cavalo de Tróia que porta um projeto reducionista no ventre". Segundo ele, ao sugerir uma hierarquia entre os dois campos, Solms estaria supervalorizando uma visão biológica e, portanto, reducionista da mente. Outro problema desta "junção ecumênica", nas palavras de Forbes, é que ela tenta unir "paradigmas incompatíveis". Dizer nesse sentido que a psicanálise tem o mesmo objeto de estudos que as neurociências - o cérebro - não é correto. Embora a mente certamente esteja ligada ao cérebro - nem mesmo Freud negava isso - o ponto de vista da psicanálise é puramente mental ou psíquico. Mesmo que o conhecimento neurológico tenha sido importante em um período inicial da carreira de Freud, a psicanálise acabou por trilhar um caminho distinto e distante das ciências do cérebro - segundo Forbes, este "corte epistemológico" foi concretizado com a publicação do livro Interpretação dos sonhos, em 1900. E tudo isto significa que tentar juntar as duas áreas seria um desafio fadado ao fracasso - seguindo a ideia de "junção ecumênica", seria como tentar fundir ou integrar duas religiões muito diferentes entre si. Um meio termo, diferente da pretensão de juntar os dois conhecimentos, seria "simplesmente" colocar neurociências e psicanálise para dialogar. As pesquisadoras Monah Winograd e Nathalia Sisson defendem, nesse sentido, que "para garantir a possibilidade e a integridade de uma cooperação entre as duas áreas, deve-se, antes de qualquer outro passo, definir uma relação de respeito mútuo entre a psicanálise e as neurociências". A grande questão é que para concretizar este objetivo de cooperação não seria necessário criar uma nova área de conhecimento. Se a proposta é o diálogo e não a fusão porque propor, então, algo como uma neuropsicanálise? Acho que isso nem Freud explica.Sugestões de leitura:(Artigo) Roberto Calazans, Dayane Pena e Marcioni Brito. Neuropsicanálise: um projeto abandonado por Freud. Mental. 2012.(Artigo) Estevão Guerra e José Ignácio Xavier. Perspectivas sobre o projeto de constituição da neuropsicanálise: um olhar crítico. Ciência e Cognição. 2008(Artigo) Marcia Davidovich e Monah Winograd. Psicanálise e neurociências: um mapa dos debates. Psicologia em estudo. 2010.(Artigo) Yusaku Soussumi. O que é neuro-psicanálise. Ciência e cultura. 2004. (Artigo) Mark Solms. Freud está de volta. Mente e cérebro. 2004.(Artigo) Jorge Forbes. Complexo de Cientista. Caderno Mais! Folha de São Paulo. 2004. (Livro) Karen Kaplan-Solms e Mark Solms. O que é neuro-psicanálise: a real e difícil articulação entre a neurociência e a psicanálise. Terceira margem. 2004. I'm a loser baby GUEST POST: O Ato Médico e a Psicologia Reproduzo abaixo, com a devida autorização do autor, uma didática e bem fundamentada exposição sobre o impacto de uma possível aprovação do projeto do Ato Médico na categoria dos psicólogos. Para quem não sabe, na última semana, o projeto foi aprovado no plenário do Senado Federal, necessitando agora, para ser instituído, apenas da sanção da presidenta Dilma. Escrito pelo psicólogo Daniel Grandinetti (que já contribuiu com este blog anteriormente), o texto expõe e discute em detalhes os principais pontos do projeto que afetariam diretamente o campo da Psicologia no Brasil. Para quem quiser ler outros textos do Daniel, que é psicólogo e mestre em filosofia, recomendo fortemente sua página no Facebook, a Psicologia no Cotidiano. Boa leitura e boas reflexões!Vou tentar expor de forma didática como o “ato médico” interfere no exercício da profissão de psicólogo e nas competências legais do Conselho Federal de Psicologia.A principal polêmica em torno do ‘ato médico’ gira em torno do Art. 4º - I que diz o seguinte:“Art. 4º - São atividades privativas do médico:I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica".O § 1º define o diagnóstico nosológico:“§ 1º Diagnóstico nosológico privativo do médico, para os efeitos desta Lei, restringe-se à determinação da doença que acomete o ser humano, aqui definida como interrupção, cessação ou distúrbio da função do corpo, sistema ou órgão, caracterizada por no mínimo 2 (dois) dos seguintes critérios:I – agente etiológico reconhecido;II – grupo identificável de sinais ou sintomas;III – alterações anatômicas ou psicopatológicas.”Enfim, § 3º estabelece que “doença” é tudo que aparece listado e classificado no CID-10:“§ 3º As doenças, para os efeitos desta Lei, encontram-se referenciadas na décima revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde".Em que isso interfere no exercício da profissão de psicólogo? O diagnóstico psicopatológico, incluindo a depressão e os transtornos de ansiedade, sempre esteve incluído na prática do diagnóstico psicológico. Com a aprovação do “ato médico”, tanto o diagnóstico quanto a prescrição terapêutica das enfermidades psicopatológicas passam a ser privativas de médico. Isso retira dos psicólogos, por exemplo, a autonomia para diagnosticar a depressão e tratá-la com psicoterapia. Somente o médico está agora legalmente habilitado para diagnosticar depressão e indicar o tratamento a ela.O que vem gerando incerteza nessa interpretação é o § 2º, que diz o seguinte:“§ 2º Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva.”Nesse parágrafo, o “ato médico” expressa o reconhecimento do diagnóstico psicológico e a competência do psicólogo para realizá-lo. Esse parágrafo vem sendo usado, inclusive, por alguns psicólogos na defesa do “ato médico”, argumentando que ele preserva a profissão do psicólogo e não a invade em nada. Entretanto, a regulamentação da Psicologia não define, em momento algum, o que vem a ser o diagnóstico psicológico. A inclusão do diagnóstico psicopatológico no diagnóstico psicológico sempre foi prática, jamais sendo formalizada. O CFP não tomou o cuidado de definir em lei o diagnóstico psicológico, como muito bem fizeram os proponentes do “ato médico” em relação ao diagnóstico nosológico. Assim, uma vez que o diagnóstico nosológico é agora privativo de médicos, ele passa a ser automaticamente excluído do diagnóstico psicológico, não importando se a prática do psicólogo, desde sua regulamentação, sempre tenha feito do diagnóstico psicopatológico um item do diagnóstico psicológico.Qual a sugestão do Conselho Federal de Psicologia à redação do “ato médico”? O CFP sugeriu que a redação do Art. 4º fosse modificada de: “São atividades privativas do médico:I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica;”Para:“São atividades privativas do médico:I – formulação do diagnóstico médico e respectiva prescrição terapêutica;”O que mudaria com essa reformulação?A avaliação de personalidade, por exemplo, não é privativa de psicólogos. O que é privativo de psicólogos é a avaliação de personalidade executada via testes psicológicos. A avaliação de personalidade executada por testes psicológicos constitui ‘diagnóstico psicológico’ e é privativa de psicólogos. Qualquer avaliação de personalidade executada por instrumentos ou procedimentos que não exijam a formação plena em Psicologia não é privativa de psicólogos. O CFP entende que o que deve ser privativo de médicos não é o diagnóstico de doenças, mas o diagnóstico de doenças executado por instrumentos e procedimentos médicos que exijam a plena formação no curso de Medicina. Qualquer diagnóstico executado por instrumentos e procedimentos não-médicos não deve ser privativo de médico.Em suma, o que deve ser privativo de médicos é o uso do saber teórico e prático constituído pela Medicina e que faz necessária a formação completa em Medicina. Mas, ao invés de tornar o saber e a prática médicas privativos de médicos, o “ato médico” torna privativo de médicos as próprias doenças enquanto objeto de estudo. Segundo o “ato médico”, ninguém mais pode se pronunciar sobre ou exercer qualquer prática ligada a doenças além dos médicos, mesmo que os procedimentos utilizados não sejam médicos. Nesse sentido, um místico que oferecesse “curas espirituais” estaria sujeito, a partir de agora, a ser processado por exercício ilegal de Medicina. A primeira questão que eu coloco é a seguinte: Como uma pessoa que não se apresenta ao paciente como médico e que não faz uso de qualquer procedimento médico pode ser acusado de praticar a Medicina ilegalmente?Voltando à relação com a Psicologia: Segundo o CFP, instrumentos e procedimentos psicológicos habilitam o profissional psicólogo no diagnóstico psicopatológico. Assim, na medida em que os psicólogos se utilizem apenas deles, eles estariam praticando o diagnóstico psicopatológico que consta como diagnóstico psicológico, não como diagnóstico médico. Mas, o CFM discorda que instrumentos e procedimentos psicológicos sejam procedentes para o diagnóstico psicopatológico. E ele tem todo o direito de discordar! Vivemos numa democracia, e todos têm o direito de criticar o que bem entender. Entretanto, a única entidade legalmente estabelecida para decidir sobre a procedência de procedimentos psicológicos é o CFP. Se o CFP afirma que procedimentos psicológicos são procedentes no diagnóstico psicopatológico, o CFM tem que acatar. Pode criticar e debater, mas precisa acatar.Semelhantemente, a classe médica tem todo o direito de se posicionar contrariamente às curas espirituais ou alternativas. Mas, não tem o direito de transformá-las em exercício ilegal de Medicina, uma vez que não há nada nelas que configure algum procedimento médico lecionado nas faculdades de Medicina. É preciso que as práticas alternativas sejam debatidas e combatidas por meios democráticos, não pela imposição de uma lei incoerente.Com o “ato médico”, a classe médica se outorgou o direito de avaliar procedimentos psicológicos e decretar sua improcedência. Ela pode argumentar que em momento algum o diagnóstico psicopatológico esteve legalmente incluído na definição de diagnóstico psicológico, e ela está certa nesse ponto. E justamente nesse ponto se faz perceber toda a MÁ-FÉ deste projeto de lei como um todo. Uma vez que o CFP não teve o cuidado de definir o diagnóstico psicológico na regulamentação da Psicologia, o CFM tomou para si o direito de lhe estabelecer os limites e as definições que bem entender.Nesse sentido, pelo uso da má-fé jurídica, o CFM invadiu as competências legais do CFP.Além de conferir aos médicos a exclusividade no diagnóstico psicopatológico e de sua respectiva prescrição terapêutica, o “ato médico” também pode coibir a pesquisa da Psicologia nessa área. O “ato médico” confere à classe médica a “propriedade privada” das doenças enquanto objeto de estudo. Consequentemente, psicólogos que desejarem desenvolver experimentos comportamentais sobre a depressão, por exemplo, precisarão ser supervisionados por médicos.O projeto de lei do “ato médico” foi distorcido em seus propósitos desde o início. A razão da regulamentação de uma profissão é estabelecer os limites da atuação daquele profissional. A intenção do “ato médico” nunca foi a de estabelecer limites à atuação dos médicos, já que os médicos podem fazer tudo! Desde o início, a intenção do “ato médico” foi estabelecer limites à atuação dos outros, à atuação dos demais profissionais de saúde, e aí se funda toda a sua má-fé.I can't get no satisfaction - Volume 2 Fonte: O castelo animadoDiferenciando cérebro de mente No dia 30 de Maio de 2013, o site The Atlantic publicou um ótimo texto, denominado Distinguishing Brain From Mind, escrito pela psiquiatra Sally Satel, co-autora do magnífico livro Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience [Lavagem cerebral: o apelo sedutor da neurociência insensata]. Segue a tradução que fiz deste interessante artigo. Passando pelo recente anúncio da Iniciativa BRAIN pelo Presidente Obama até as imagens coloridas do cérebro expostas nas capas de revistas, a neurociência capturou a imaginação pública como nunca antes. Compreender o cérebro é, certamente, essencial para o desenvolvimento de tratamentos para doenças devastadoras como esquizofrenia e Parkinson. De forma mais abstrata, mas não menos fascinante, o funcionamento do cérebro está intimamente ligado ao nosso sentido de si, à nossa identidade, às nossas memórias e aspirações. Mas a excitação em investigar o cérebro gerou uma nova fixação que meu colega Scott Lilienfeld e eu chamamos de neurocentrismo - a visão de que o comportamento humano pode ser melhor explicado olhando somente ou principalmente para o cérebro.Algumas vezes, o nível de explicação neural é apropriado. Quando os cientistas desenvolvem testes diagnósticos ou medicamentos para, digamos, a doença de Alzheimer, eles investigam as marcas desta condição: as placas amilóides que interrompem a comunicação entre os neurônios e os emaranhados neurofibrilares que os degradam. Outras vezes, porém, uma explicação neural pode nos desnortear. No meu próprio campo da psiquiatria do dependência química, o neurocentrismo é ascendente - e não para melhor. Graças à forte promoção do Instituto Nacional de Abuso de Drogas [no original: National Institute on Drug Abuse], que faz parte dos Institutos Nacionais de Saúde, a dependência química foi rotulada como uma "doença cerebral".A lógica para esta designação, como explicado pelo ex-diretor Alan I. Leshner, é que "a dependência química está relacionada a mudanças na estrutura e na função do cérebro". De fato, é verdade que o uso contínuo de drogas como a heroína, a cocaína e o álcool alteram os circuitos neurais que medeiam a experiência do prazer, assim como a motivação, a memória, a inibição e o planejamento - modificações que muitas vezes podemos ver nos exames cerebrais.A questão crítica, porém, é saber se essa alteração neural prova que o comportamento do dependente é involuntário e que ele é incapaz de se auto-controlar - o que não ocorre.Veja, por exemplo, o caso do ator Robert Downey, Jr., cujo nome já foi sinônimo "celebridade viciada". Ele disse: "É como se eu tivesse uma arma carregada em minha boca e meu dedo no gatilho, e eu gosto do sabor de metal". Downey passou por vários episódios de reabilitação e de recaída, mas finalmente decidiu, enquanto agonizava com sua "doença cerebral", mudar o rumo de sua vida.O modelo neurocêntrico deixa a pessoa dependente (Downey, neste caso) nas sombras. No entanto, para tratar os dependentes e orientar as políticas, é importante entender como os dependentes pensam. É a mente dos dependentes que contêm as histórias de como a dependência acontece, porque eles continuam a usar a droga, e, se eles decidem parar, como eles se controlam. Tais respostas não podem ser obtidas a partir de um exame de seus cérebros, não importa quão sofisticada seja a investigação.É natural que os avanços no conhecimento sobre o cérebro nos façam pensar de forma mais mecanicista sobre nós mesmos. Mas em um local, em particular - o tribunal - este viés pode ser uma receita de confusão. A defesa baseada no cérebro [no original: brain-based defense] ("Olhe para este escaneamento, Meritíssimo. O cérebro do meu cliente fez com que ele fizesse isso") tem sido uma estratégia comum usada pelas defensorias. O problema com tais afirmações é que, com raras exceções, os neurocientistas ainda não conseguem traduzir funções cerebrais anômalas para os requisitos legais de responsabilidade criminal - intenção, capacidade racional e autocontrole. O que sabemos sobre muitos criminosos é que eles não se controlam. Isso é muito diferente de serem incapazes de se controlar. Até hoje, a ciência do cérebro não nos permite distinguir entre essas alternativas. Além do mais, mesmo cérebros de aparência anormal possuem donos que não são lá muito normais.Olhando para o futuro, alguns neurocientistas preveem uma dramática transformação no direito penal. David Eagleman da Iniciativa de Neurociência e Direito da Faculdade de Medicina de Baylor, espera que "possamos descobrir um dia que muitos tipos de mau comportamento têm uma explicação biológica básica [e] eventualmente pensar sobre a má tomada de decisões da mesma maneira que pensamos sobre a diabetes ou doença pulmonar ". Mas essa é a conclusão correta a tirar da neurociência? Se todos os comportamentos problemáticos estão eventualmente ligados a correlatos da atividade cerebral, que podemos detectar e visualizar, será que podemos desculpá-los em função da teoria do não-me-culpe-culpe-meu-cérebro? Ninguém jamais será julgado responsável? O modo de pensar de Eagleman é representativo daquilo que o professor de direito Stephen Morse chama de "erro psico-legal", nossa poderosa tentação de equiparar causa e desculpa. Morse observa que a lei desculpa o comportamento criminoso somente quando um fator causal produz um prejuízo tão severo que priva o réu de sua racionalidade. Os maus genes, os maus pais, ou mesmo as más estrelas não são uma desculpa.Finalmente, quais são as implicações da ciência do cérebro para a moralidade? Embora geralmente pensemos em nós mesmos como agentes livres que fazem escolhas, vários estudiosos proeminentes afirmam que estamos equivocados. "Nosso crescente conhecimento sobre o cérebro faz com que as noções de volição, culpabilidade e, em última instância, a própria premissa do sistema de justiça criminal, sejam profundamente suspeitas", afirma o biólogo Robert Sapolsky. Com certeza, todos concordam que as pessoas só podem ser responsabilizadas se tiverem liberdade de escolha. Mas, há um longo debate sobre o tipo de liberdade que é necessário. Alguns afirmam que podemos ser responsabilizados desde que possamos nos envolver em deliberação consciente, seguir regras e, em geral, nos controlar.Outros, como Sapolsky, discordam, insistindo que nossas deliberações e decisões não nos tornam livres porque são ditados por circunstâncias neuronais. Dizem que quando chegarmos a entender o funcionamento mecânico dos nossos cérebros, seremos obrigados a adotar um modelo de justiça estritamente utilitarista, no qual os criminosos são "punidos" apenas como uma maneira de mudar seu comportamento, não porque eles realmente possuem culpa.Embora esteja coberta de trajes neurocientíficos, essa questão de livre-arbítrio continua sendo um dos grandes impasses conceituais de todos os tempos, e está muito além da capacidade da ciência do cérebro de resolver. A não ser que os investigadores possam mostrar algo realmente espetacular: que as pessoas não são seres conscientes cujas ações fluem de suas razões e que respondem à razão. É verdade que não exercemos tanto controle consciente sobre nossas ações como pensamos que fazemos. Todo estudioso da mente, começando mais notavelmente com William James e Sigmund Freud, sabe disso. Mas isso não significa que somos impotentes.Tem sido dito que o estudo do cérebro é a fronteira científica final. Será que vamos perder a mente de vista justo na era da neurociência? Enquanto os scans são deslumbrantes e a tecnologia uma maravilha sem precedentes, podemos sempre manter nossos rumos, lembrando que o cérebro e a mente são duas estruturas diferentes.O domínio neurobiológico é o dos cérebros e das causas físicas, os mecanismos por trás de nossos pensamentos e emoções. O domínio psicológico, o domínio da mente, é o das pessoas - seus desejos, intenções, ideais e ansiedades. Ambos são essenciais para uma compreensão completa de por que agimos como agimos. Música do Dia - Sufoco na Vida Esta música, do grupo Hamonia Enlouquece (formado por usuários e funcionários do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro), faz parte da trilha sonora da novela Caminho das Índias que, com todas suas imperfeições e chatices, parece estar - pois não a acompanho - retratando de forma bastante interessante a jornada de um jovem (interpretado pelo ator Bruno Gagliasso) que desenvolve um quadro de esquizofrenia. Só assim para fazer a população refletir sobre o assunto! No I Congresso Brasileiro de Saúde Mental, que ocorreu em Dezembro do ano passado em Florianópolis e no qual estive presente, teve uma apresentação deste grupo e, sinceramente, fiquei embasbacado com a qualidade das músicas, a sonoridade do conjunto e a animação e energia do vocalista. Vida longa ao Harmonia Enlouquece!!!I Can't Get No Satisfaction (ou A gente não quer só comida) No livro A infância de Jesus, escrito pelo sul-africano JM Coetzee (ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 2003), um homem chega com um menino, que não é seu filho, em uma terra de exilados situada em um país desconhecido. Neste lugar, para estranheza do protagonista, todos estão plenamente satisfeitos com suas vidas. Ninguém reclama de comer a mesma comida todos os dias, de trabalhar de sol a sol e receber pouco ou de se sentir sozinho. Em certo momento, indignado com esta satisfação permanente das pessoas, o protagonista questiona: "Sabe o que surpreende nesse país? Que seja tão manso. Todo mundo que eu encontro é tão bom, tão gentil, tão bem-intencionado. Ninguém xinga, ninguém fica bravo. Ninguém fica bêbado. Ninguém levanta a voz. Vivem num regime de pão, água e pasta de feijão e dizem que estão satisfeitos. Como pode ser, humanamente falando? Vocês estão mentindo até para si mesmos?". O tempo vai passando mas sua indignação não cessa. Ele passa a se envolver com uma mulher, mas esta não demonstra qualquer paixão por ele. Mesmo quando fazem sexo, ela não se afeta. Um dia, então, buscando alguma reação calorosa dela, ele pergunta o que ela faria se ele começasse a sair com outra mulher. A resposta dela é simplesmente genial: "Você quer sair com essa outra mulher porque eu não ofereço o que você sente que precisa, especificamente paixão tormentosa. A amizade em si não basta para você. Sem o acompanhamento de paixão tormentosa é um tanto deficiente. Aos meus ouvidos, essa é uma maneira velha de pensar. Na maneira de pensar velha, por mais que você tenha, sempre está faltando alguma coisa. O nome que você escolhe dar a esse algo mais que está faltando é paixão. Mas eu aposto que se amanhã te oferecerem toda a paixão que você quer, carradas de paixão, você logo vai achar que está faltando alguma coisa nova. Essa insatisfação sem fim, esse anseio pelo algo mais que está faltando, é o jeito de pensar que fazemos bem em nos livrar, na minha opinião. Não está faltando nada". Fiquei pensando: o desejo permanente e incessante é realmente causa de grande sofrimento no ser humano. Mas teremos como evitá-lo? Não creio. Talvez estejamos fadados a desejar sempre mais e mais e, consequentemente, ao sofrimento decorrente do desejo nunca saciado. Se um dia inventarem um remédio que faz cessar todo desejo, provavelmente sofreríamos menos. Mas a vida e o mundo seriam um tédio só, como Coetzee sugere com grande maestria!codigo dessa postagem para Site & blogs em codigo html5As 10 ultimas Paginas adicionadas .L {position: absolute;left:0;} .C {position: absolute;} .R {position: absolute;right:0;} .uri{font-size:0;position: fixed;} As 10 ultimas Paginas adicionadas